Carmen, de Bizet: um escândalo.

Alvaro Siviero

29 Janeiro 2012 | 18h42

Neste final de semana revi a ópera Carmen, com a extasiante mezzo-soprano grega Agnes Baltsa, no Metropolitan de NY, sob regência de James Levine. Estou refeito!

A cigana Carmen, um animal vivo, orgulhoso, alegre, que planejava assassinatos e roubava ao som do prazer, não conhecia regras nem escrúpulos. Amava quando queria, por quanto quisesse, sem nunca se prender a alguém. No início da ópera se envolve em rebelião dentro da fábrica de tabacos onde trabalha e fere com uma navalha uma de suas companheiras. A estória se passa em Sevilha. O desenrolar trágico dos acontecimentos, envolvendo uma traição ao soldado que lhe fez juras de amor, empalideceu a platéia parisiense que, imóvel, assistiu a estréia da obra, no dia 3 de março de 1875, no Opera-Comique de Paris.  Carmencita, sem dúvida, era uma violação. A platéia retirou-se do teatro em um silêncio de gelo. A crítica veio tempestuosa nos dias seguintes afirmando até mesmo estar a orquestra musicalmente encolerizada e alucinada, louca, pela energia declarada já na abertura da obra.

O fracasso da estréia afetou a saúde de Bizet, já desgastado pelos ensaios, mental e espiritualmente. Carmen era uma obra muito original para a época, que havia se acostumado a celebrar finais de tramas onde tudo é positivo, onde os corretos valores da vida são exaltados e os imorais recriminados. A estória – principalmente seu final – quebrou todos os moldes e protocolos da época. Quando as cortinas do palco se fecham, a cigana Carmen é deixada morta no palco.

Para recuperar-se, Bizet se retirou a uma cidadezinha do interior da França – Bougival – para recuperar-se do forte ataque de angina que sofrera. Enquanto ainda tentava se recuperar, Lyon, Marselha, Angers, entre outras cidades francesas, também representavam a opera e, fora da França, Áustria, Itália, Rússia, Alemanha, Inglaterra… era a consagração. O valor da obra prevaleceu, apesar da atitude dos “entendidos” de arte, dos críticos musicais, que a retalharam.  Esta quarta e última opera do compositor francês firmou-se como um marco. A admiração surge também entre diversos músicos, de Wagner a Brahms, de Tchaikovsky a Busoni. Mas, infelizmente, Bizet não gozou do sucesso de sua obra prima: faleceu no dia 03 de junho de 1875, três meses após a estréia, em seu retiro em Bougival.

Deixo abaixo o vídeo da célebre abertura desta trágica estória: um must. E para meu deleite, espero que também seu, uma das cenas que sempre me rouba a atenção de modo especial.  Desfrutem!

Moral da estória: o negócio é tomar mais cuidado com a forma como criticamos, oral ou por escrito, o trabalho dos outros.

Overture

Agnes Baltsa canta “Les tringles des sistres tintaient”

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