Boston Philharmonic Youth Orchestra apresenta-se na Sala São Paulo pela TUCCA

Boston Philharmonic Youth Orchestra apresenta-se na Sala São Paulo pela TUCCA

Alvaro Siviero

21 de junho de 2019 | 15h59

Benjamin Zander é uma fonte de inspiração para milhares de músicos (professores ou alunos) bem como para centenas de líderes corporativos. Todos são testemunhas do carisma e da paixão deste homem pela música e seu poder transformador. Seu livro A Arte da Possibilidade, traduzido para mais de 18 idiomas, é contínua fonte de inspiração para aqueles que desejam dar sentido de transcendência às tarefas do dia a dia. A solução? Coloque música em sua vida. Em 1978, fundou a Boston Philharmonic Orchestra e, após quase 50 anos de dedicação como professor no New England Consevatory, em 2002, inicia sua nova empreitada: a Boston Philharmonic Youth Orchestra com seus 120 integrantes (de 12 a 21 anos) que exalam, como o mestre, um profundo amor, entusiasmo e comprometimento com o fazer musical. Do alto de seus 80 anos de idade, a energia pro-ativa de Benjamin Zander continua mais determinada do que nunca, levando sua BPYO a diversas partes do globo terrestre: do Musikverein (Viena) ao  Carnegie Hall (New York), do Concertgebouw (Amsterdam) à Philharmonie de Berlim. E foi exatamente isso que uma plateia privilegiada comprovou na recente passagem da Boston Philharmonic Youth Orchestra em São Paulo, na Sala São Paulo, dentro da temporada de concertos internacionais promovidos pela TUCCA.

A obra de abertura Bonecos de Olinda, especialmente composta para esta ocasião pela compositora Clarisse Assad, de forte caráter rítmico e dançante, marcado pelos embalos do frevo e do maracatu alusivo às figuras traducionais de Pernambuco, criou os vínculos imediatos de proximidade e amizade com a cultura brasileira. Um desejo de aproximação com o nosso país, como o próprio Benjamin Zander afirmou antes do início da interpretação. Tamanha elegância já foi suficiente para enfeitiçar e arrancar aplausos da plateia que, agradecida, acompanhou de perto a execução.

O Concerto n.2 para piano e orquestra em dó menor, Op.18, do compositor russo Sergei Rachmaninov, é um desses clássicos do repertório sinfônico cuja beleza e profundidade o transformaram em um dos mais interpretados em todas as salas de concerto do mundo. Trata-se de uma estória real, vivida pelo autor, contada em forma de música, em que se narra o longo período doentio de depressão clínica sofrido pelo compositor, de desalento e perda de perspectivas. E é talvez aí que resida a força da obra: a de se basear na verdade de uma vida exposta à dor e ao sofrimento, mas com final feliz, permitindo-nos afirmar, sem sombra de erro, que o Concerto n.2 é a materialização de uma cura através da música. Assistir à interpretação dessa obra dentro do Projeto TUCCA – Música pela Cura, inevitavelmente agregou um valor especial ao momento.

A obra, de intenso valor emocional, encontrou na experiente pianista Anna Fedorova uma leitura que buscou privilegiar seu caráter técnico, virtuosístico, conferindo à execução uma visão contida, algo menos brilhante, dentro do profundo valor melancólico e afetivo contido na escrita. Uma performance que se mostrou mais preocupada e atenta à precisão e comunhão musical com aqueles músicos jovens e que, precisamente por serem jovens, ainda não foram expostos às lições da vida – o contato com a dor, com a perda, as decepções, o sofrimento, a desilusão, o amor, as contrariedades, entre tantos outros – que capacitam o artista a conferir os nuances precisos que a obra demanda. Era evidente, no entanto, o comprometimento na entrega de todos os que ocupavam o palco. Uma entrega em busca da Beleza. Viveram à risca o que certa vez afirmou Rachmaninov: “toquem como se fosse a última vez”. Em muitos momentos, sentia-se que o amanhã não existiria mais. No bis, Anna Fedorova brindou os presentes com uma performance intimista do Poema Op.32 n.1 de Scriabin.

Após o intervalo, os mais de 100 músicos retornaram ao palco para uma execução densa e repleta de sentido de contestação da Sinfonia n.10 em Mi menor, Op.93, de Shostakovich. Considerada sua primeira grande obra sinfônica, sua estreia ocorreu no mesmo ano da morte de Stalin (1953), gerando a especulação de que a obra seria um manifesto contra o regime stalinista. Não era a primeira vez que, de modo infundado, levantavam suspeitas em relação às posições políticas de Shostakovich: seu temperamento conciliador e sua neutralidade frente ao regime político vigente levaram-no a ser algumas vezes denunciado ao Partido Comunista.

No início da execução, tão logo os contrabaixos, em uníssono, suavemente iniciaram a exposição melódica, uma atmosfera de silêncio absoluto tomou conta da Sala São Paulo, um silêncio de quem entendia o que estava por vir. Adrenalina, maestria, elegância e visão orgânica de conjunto da obra, explorados ao seu limite pelo maestro Benjamin Zander, mostravam que os músicos não estavam de brincadeira. O célebre Allegro do segundo movimento (vídeo abaixo), surpreendeu pela energia e precisão de ataque: cascatas sonoras jorravam por todas as partes em um banho harmônico e rítmico que encharcou os presentes.

Diante de aplausos incessantes, a orquestra brindou os presentes com uma tocante versão de Nimrod, do inglês Edward Elgar. Durante os aplausos efusivos, vinha à mente o trabalho desenvolvido desde 1998 pela TUCCA em prol do tratamento do câncer. Este mesmo motor, dois anos mais tarde, levou seus dirigentes a buscar alternativas para levar avante a ideia de também prestar assistência integral contra o câncer a crianças e adolescentes carentes, na busca de atrair novos colaboradores e novos públicos. Foi neste momento, no ano 2000, que surge o Projeto TUCCA – Música pela Cura. De fato, a música cura, enriquece, interioriza, humaniza, desembrutece. Naquele momento, enquanto a BPYO era ovacionada, não era difícil perceber que a saúde buscada e promovida pela TUCCA não se restringia somente ao corpo, mas atingia também a alma.

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