Beethoven – O homem e o compositor

Beethoven – O homem e o compositor

Alvaro Siviero

29 de abril de 2016 | 15h52

Beethoven

Assisti ao filme “O Segredo de Beethoven”, no último final de semana, em atitude de imersão. Tenho andado de mãos dadas com esse gênio em uma espécie de preparação inconsciente aos concertos que farei na Holanda, interpretando Beethoven, no segundo semestre. E lembrei-me da frase de Romain Rolland, biógrafo do mestre alemão na obra Beethoven (Edições Cosmos, Lisboa): “após uma vida de lutas, Beethoven, encerrado em seu túmulo, continua a lutar”. A frase continua viva, mostrando uma vez mais a força da obra de Beethoven enraizada na ruptura com o passado e nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade propostos pela Revolução Francesa que, não somente desestabilizaram e espalharam uma onda de terror sobre toda a aristocracia do velho continente, mas também ganharam peso e volume sobre os inúmeros rascunhos musicais do compositor, transformando a visão musical e cultural de sua época.

Quando o jovem Ludwig ainda não havia completado os 17 anos, já havia perdido a mãe e 4 irmãos, tornando-se arrimo de família. O pai era alcólatra. Nunca conseguindo realizar seu sonho de ter aulas com Mozart, a quem tanto reverenciava, teve em Haydn seu grande mestre. Dez anos mais tarde surgem os primeiros sintomas da surdez justamente naquele que deveria ter na audição o seu sentido mais aguçado. Une-se a isso o seu afastamento voluntário da classe artística e cultural como um modo de encobrir sua deficiência auditiva (Testamento Heiligenstadt). Como afirma o crítico musical Arthur Nestrovski: “Os bons músicos tocam Beethoven com a malícia de Haydn e a naturalidade de Mozart, devidamente homenageadas e destruídas pelo espírito de Beethoven”. Sem dúvida, o fogo trazido pelos ideais iluministas encontrou a lenha precisa e exata de uma vida pessoal carregada de sentido de contestação, de revolta agressiva e de muito sofrimento, características seguras para todos aqueles que querem entender e interpretar sua obra.

Na tentativa de entender essa ruptura, o literato E.T.A. Hoffmann (1776-1822) pôs-se a redigir uma série de ensaios visando a precisar a compreensão da obra de Beethoven. Curioso é verificar que as palavras crítica e crise provêm da mesma palavra grega krinein, que significa “quebrar”. Fazer uma crítica é quebrar, é colocar em crise uma ideia que se fazia dela, identificando o que compõe uma obra, questionando hábitos de compreensão, situando a interpretação, não se limitando simplesmente a opinar baseados exclusivamente nos prazeres da escuta – o famoso “gosto” ou “não gosto” -, mas na construção objetiva de um consenso sobre a obra. Isso não é arrogância, mas abertura para novos paradigmas. Foram essas análises de Hoffmann sobre a grandiosidade da obra de Beethoven que originaram o conceito e a figura do crítico musical como conhecemos hoje em dia. Curiosamente, a obra de Beethoven é em si mesma uma crítica, na medida que é ruptura.

Paralelamente, o piano – instrumento no qual Beethoven se apoiava completamente para elaboração de suas composições – passava por profundas transformações, também em extensão, saindo de suas 63 para 79 notas. Esse aumento coincide com as composições de Beethoven que utilizam a extensão como fator dramático. Suas 32 sonatas, terreno onde Beethoven reinventa a música, apresentam tal força que até mesmo Brahms, movido por um instinto suicida de autocrítica, destruiu mais da metade de suas próprias obras – que infelizmente nunca chegaremos a conhecer – por ter que dar conta da desproporção que julgava existir entre o seu talento e o do grande mestre. Vê-se que a música de Beethoven tocava profundezas psíquicas, também por que nelas tinha a sua origem.

A perda precoce da mãe e da irmã – figuras femininas que Beethoven idolatrava – e a profunda aversão à figura paterna foram as responsáveis, em grande parte, por sua instabilidade emocional e afetiva, um certo desajuste, carecendo desde sua infância do apoio necessário que a psicologia feminina traz. Certamente, os ideais libertários e revolucionários europeus do final do século XVIII foram o desaguadouro que Beethoven encontrou como forma de dar vazão a possíveis abalos afetivos, criando aí o gérmen do contundente caráter épico de muitas de suas obras, como observado em suas overtures Coriolano, Egmont e Fidélio. Esse caráter psicologicamente dicotômico e ao mesmo tempo épico pode ser rapidamente detectado pelos ouvidos atentos daqueles que se deparam com a sua sonata Op.57, “Apassionata”, em que os temas desenvolvidos pelas mãos direita e esquerda do pianista sempre estão levemente defasados: é a figura do desajuste, do descompasso das duas psicologias em busca de harmonia e coesão. E parece que Beethoven não se preocupa em resolver essa dicotomia; pelo contrário, a explora, mostrando um lado interno que está em contínua busca e que é o motor de sua capacidade produtiva. Em Beethoven, isso ocorre de modo impressionante, pois sentimos nele a força interior granítica que o sustentou ao longo de todos os seus problemas físicos e psíquicos

Fisicamente era um homem comum, provido de aparência pacata, pouco atrativa, como uma concha que, mesmo sendo vulgar, esconde a pérola preciosa. Ouçamos o que descreve a família Fischer, proprietários em Bonn da casa onde nasceu Ludwig: “Ele era baixo, forte, tez escura, ombros largos e de aparência comum, com um nariz redondo, rosto feio, avermelhado e cheio de marcas, talvez de varíola. A análise de sua máscara mortuária revela que seu rosto também exibia outras lesões e sulcos. Seu cabelo era muito escuro e caía desarrumado, em torno do rosto. (…) Suas roupas eram muito ordinárias, não muito diferentes da moda daqueles dias. (…) Falava com um sotaque forte e de uma maneira bastante comum. (…) Não tinha maneiras educadas, nem nos gestos, nem na conduta. Ele sempre se inclinava um pouco para frente ao caminhar”.

Em toda a sua genialidade, Beethoven não se via como absoluto. Estando a boa crítica sempre baseada em autocrítica, admira e cativa verificar a lucidez e sensatez comumente encontradas naqueles que possuem clara consciência do sentido estético do dom recebido. Beethoven afirmava: “O verdadeiro artista não tem orgulho. Ele vê, infelizmente, que a arte não tem limites. Ele tem uma vaga percepção de quão longe ainda está do seu objetivo e, embora outros possam talvez admirá-lo, ele lamenta ainda não ter chegado ao ponto, caminho que seu melhor talento apenas ilumina como um sol distante”. Essa reação de humildade se encontra também em outra carta escrita à cantora Christine Gerhardi: “É um sentimento peculiar ver-se elogiado e, ao mesmo tempo, perceber a própria inferioridade, como eu percebo. Sempre encaro tais ocasiões como uma advertência para me esforçar mais na direção do objetivo inacessível que a arte e a natureza nos impuseram”.

Não é necessário nenhum conhecimento prévio para apreciar a boa música e gostar dela. Entretanto, conhecer a história dos compositores e as circunstâncias das composições traz novos elementos à escuta. A música é no domínio dos sons o que a literatura é no domínio das palavras. Desprezar a chance de ouvir os grandes compositores seria o mesmo que proibir a si mesmo a leitura de Shakespeare. Além disso, a música de Beethoven é o único grande acesso que temos para conhecer em profundidade, sem intermediários, esse gênio na sua pura fonte. Fica o convite.

Composições que aconselho a conhecer

Abertura Egmont Op.84
Abertura Coriolano Op.62
Sonata Op.27 n.2 em dó sustenido menor “Ao Luar”
Sonata Op.13 em dó menor “Pathetique”
Concerto para piano e orquestra n.05 Op.73 “Imperador”
Sonata para piano e violino Op.47 n.9 “Kreutzer”
Sonata para piano e violino Op.24 n.5 “Primavera”
Sinfonias (especialmente as de n.3, 5, 6, 7 e 9)
Quartetos de corda “Razumovsky”

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