BBB?

Alvaro Siviero

24 de janeiro de 2012 | 09h15

Em Música, o símbolo BBB (freqüentemente citado em qualquer livro ou caderno de cultura) é uma referência direta a três gênios da música alemã: Bach, Beethoven e Brahms. Esse BBB, que foi o que sempre conheci, possui tal força que se perpetuará mesmo que você, caro leitor, não esteja mais neste mundo. Meu primeiro contato com este símbolo, faz anos, foi no programa Concertos para a Juventude, veiculado pela Rede Globo, que rompeu barreiras entre a música erudita e o grande público. Um verdadeiro sucesso. Inicialmente, o programa consistia na exibição de pequenos concertos didáticos, tudo ao vivo. Posteriormente, passou a apresentar até obras mais complexas, sempre com excelente audiência, chegando a ser apontado pela Unesco como modelo de divulgação de cultura. Permaneceu 19 anos no ar (1965-1984).

Hoje a sigla bbb (em letras minúsculas, propositalmente, pelo seu mérito) ganhou outro significado: o do vale tudo. A capa da revista VEJA desta semana (talvez buscando o mesmo ibope do bbb, quem sabe?) “veicula a notícia” nos mesmos moldes que o programa de TV. Tudo muito sutil (ou nem tanto). Afirmar, como o profissional entrevistado na edição o faz, de que a TV brasileira caminha junto com a sociedade, que reflete a sociedade atual é, no mínimo, uma falácia. É exatamente o contrário. A TV norteia o comportamento de toda uma sociedade que se imbecilizou, e da qual faço parte.

Para se cozinhar uma rã não podemos jogá-la em água quente: todos sabem que ela pula para fora da panela. No entanto, colocando-a em água agradavelmente morna, com fogo contínuo, a constante e sutil elevação de temperatura passa imperceptível ao animal, que morre cozido em plena água fervente, em ebulição. Faça a experiência. É assim mesmo. E assim também é a consciência humana. Existem, sim, consciências calejadas. Em nome da tolerância e do horror à qualquer tipo de discriminação, a garganta do brasileiro virou tubulação de esgoto. “Não falo por moralismo, tampouco senti reação negativa do público por questões morais”, afirma o ex-dirigente na entrevista. Sem dúvida, uma frase “politicamente correta”. Mas a reação nacional mostrou, como nos casos de corrupção política que vivenciamos, que existe, sim, moralidade. Depende de mim. De você.

Foi com o programa Concertos para a Juventude que senti a forte mordida da música dentro de mim. Foi aí que recebi o empurrão para escolher minha profissão. Estou falando aqui da minha vida, não de teorias, onde a  TV brasileira ainda exercia a cidadania. Agradeço o antigo programa da Rede Globo que me ensinou a admirar o genuíno BBB. Sou hoje um homem mais feliz por ser um profissional realizado e, de coração, espero estar fazendo neste momento, com este depoimento, uma contribuição à vida cultural de meu país.

 

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