Bach, Mozart, Chopin, Beethoven: comunicação em fase fetal?

Alvaro Siviero

04 de setembro de 2011 | 01h31

Peço perdão por me prolongar na análise mas, após recital que realizei faz pouco, uma amiga, grávida de nove meses, veio efusivamente cumprimentar-me. O marido, orgulhoso, a acompanhava. Ao encontrá-la fiquei sem ação: eu tinha clara consciência de que o teatro poderia se transformar em maternidade a qualquer momento. Eufórica, ela descrevia todas as reações do bebê durante minha execução: os fortes “chutes” que o bebê havia dado durante as Polonaises Op.44 e Op.53 de Chopin, a tranqüilidade e calmaria durante a interpretação do Noturno de John Field… Confesso que não consegui prestar muita atenção no restante, tal minha aflição, perplexidade.

Estudos comprovam que, a partir do 4º mês de gestação, o feto já pode escutar. A batida do coração da mãe é o primeiro contato com o som rítmico, auxiliando-o a formar-se harmonicamente. Sabe-se hoje que sons de baixa freqüência tranqüilizam o bebê e que, por outro lado, a agitação vai em crescendo diante de sons agudos: o cérebro da criança assimila tudo isso, ao mesmo tempo que se estrutura. A voz aguda, por exemplo, é captada com maior facilidade pelos bebês, explicando o timbre agudo cômico que muitos adultos utilizam para conversar com recém-nascidos: tudo científico. Surge assim, além da comunicação pelo tato, uma nova forma de comunicação da gestante com o filho: a música (processo conhecido por Estimulação Precoce).

Em Londres, com o método da Estimulação Precoce, uma gestante utilizou a obra Primavera, de Vivaldi, para comunicar-se com o filho. No 5º mês de gestação o bebê já começava a responder aos estímulos. Surpreendentemente, quando a obra atingia o movimento Inverno, a resposta cessava. Outras vezes, aumentando-se o volume, o bebê começava a “chutar” com mais força. Anos mais tarde, já no período escolar, verificou-se a enorme facilidade lingüística desta criança, assim como sua invejável capacidade de reter palavras complicadas. Hoje é um orador e leitor voraz. A música que ele mais gosta? A Primavera, de Vivaldi. Em Madrid, uma professora utilizou música clássica nos momentos de troca de conteúdos das aulas, bem como durante intervalos entre atividades pedagógicas. Ao final do 3º trimestre era possível deixar a sala de aula por alguns breves minutos: todos os alunos permaneciam nos seus locais, serenamente trabalhando.

Uma criança possui milhões de neurônios ainda não inteiramente conectados nas zonas de sinapses nervosas, à espera de estímulos que os integrem no circuito neuro-cerebral. Através do método da Estimulação Precoce influenciamos diretamente no desenvolvimento da mente, não somente no aspecto físico (o som que incide no ouvido e provoca uma reação psicomotora), mas na ativação e desenvolvimento do próprio pensamento.   As estatísticas mostram que, como tendência geral, os bebês expostos à música tendem a ser mais tranqüilos, com um sentido de curiosidade mais aguçado e com inteligência e imaginação mais criativas. Facilitando as conexões neuronais facilitamos a aprendizagem. Músicos como Bach, Mozart e Beethoven, a título de exemplo, asseguraram que seu amor à música era proveniente, em grande parte, do ambiente musical em que viveram.

A ciência define os hemisférios direito e esquerdo do cérebro como locais onde se hospedam, respectivamente, a capacidade musical e de linguagem. Como aprendemos a falar ouvindo, existe, como é razoável, uma relação entre esses hemisférios. Dom Campbell, em sua obra O efeito Mozart para crianças, vai além afirmando que, além da relação lingüística, a música conecta a parte racional do homem com a sua vertente emocional: alegramo-nos com a música alegre e protestamos diante da música desagradável, assim como trabalhamos de modo mais dinâmico e ágil com música rápida. Aos que tocam algum instrumento, afirma também o estudo, há maior facilidade de manifestar opiniões e pontos de vista. A influência musical comprovou, em adultos,  um desenvolvimento lingüístico e habilidade motora superiores à média, maior desenvolvimento da capacidade espacial, maior desenvolvimento e educação afetiva entre a parte racional/emocional e ampliação da capacidade de concentração.

Minha amiga está perdoada!

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