A paixão pelo ensino da música

Alvaro Siviero

28 de novembro de 2011 | 15h30

As educadoras musicais Stefanie Correa e Andrea Miccoli

 

Tive a oportunidade, não faz muito tempo, de conhecer Andrea Cristina Tozzi Miccoli e Stefanie Menz Correa, duas profissionais que se dedicam, em corpo e alma, ao ensino da música, na cidade de Campinas. O brilho que pode ser visto dentro dos olhos dessas profissionais, unido a uma atitude pró-ativa e repleta de amor pelo trabalho que realizam, foi o motor que me empurrou a realizar esta entrevista. Pessoalmente, nunca encarei a música como uma maravilhosa habilidade, mas como meio inerente de expressão humana, um catalisador do emocional. Uma experiência física onde a nossa alma é transportada. A música fala! As notas parecem falar, muitas vezes, numa mistura de alegria e tristeza que o ouvinte poderia perfeitamente ter sorrido ou chorado, sentimentos que experimentamos tantas vezes ao longo da nossa vida, e que nenhuma arte pode expressar com tanta habilidade como a música. Quando a música lamenta, suspira ou se agita, nós lamentamos, suspiramos e nos agitamos com ela.

Como profissionais da educação musical, qual importância dela na infância? O estudo da música trouxe aos alunos mudanças comportamentais perceptíveis? Quais?

Stefanie: Como educadora e pianista, considero ser importante a inserção da música na vida da criança como uma atividade prazerosa. Quando um professor ama o seu trabalho – no meu caso a Música -, e ensina com prazer, com a consciência do seu papel na sociedade e na vida de seus alunos, ele acaba atingindo seu objetivo e, acima de tudo, fazendo a diferença na vida de muitos. Pude verificar, ao meio de tantos desafios próprios da atividade, um sólido crescimento em valores essenciais como disciplina, ordem, valorização da auto-estima, desenvolvimento da percepção auditiva e musical. Tive, também, a oportunidade de ministrar aulas a crianças inseguras, com dificuldade de socialização e, ao longo dos meses, foi notável o crescimento em segurança, em confiança própria: tornaram-se mais serenas, calmas e concentradas. A aprendizagem de um instrumento musical é, sem dúvida, uma terapia. Neste processo, ao meio de aulas prazerosas, criam-se laços de amor, de amizade e respeito que favorecem o aprendizado e perduram pela vida.
Andrea: A educação musical, quando cedo iniciada, desenvolve não somente os aspectos próprios da música, como ritmo, afinação, sensibilidade, mas também o crescimento humano: em capacidade de foco no trabalho e concentração, desinibição e aumento da capacidade de relacionamento, disciplina, desenvolvimento motor, … Quando o aluno é muito jovem – tenho alunos que iniciaram sua vida musical aos 4 anos de idade – saliento que esse crescimento no comportamento está em grande parte associado à influência do professor que, no início do aprendizado, deve buscar falar a linguagem do aluno e de suas circunstâncias, provocando uma aproximação, uma estima mútua, transformando a aprendizagem em aventura gostosa, gratificante. Cada aluno é uma pessoa única, diferente das demais, e as aulas devem ser ministradas de acordo com as potencialidades de cada um, assim como a escolha do repertório a ser desenvolvido, o respeito à velocidade da aprendizagem individual e dos caminhos adequados à aquisição de técnica, utilizando o desafio como estímulo constante. Uma das alavancas mais poderosas para as mudanças comportamentais são as apresentações (audições) onde a criança, ao enfrentar um público, torna-se mais segura, desinibida, confiante.

O que leva alguém a querer aprender música? Qual a influência dos pais no processo?

Stefanie: Muitos pais têm a intenção inicial de agregar, além do conhecimento musical, uma maior socialização, disciplina e desenvolvimento emocional para seus filhos. A Música proporciona isso. Com o apoio e a valorização da família, a criança se sente mais segura e motivada a manter a rotina de estudos. Professores competentes, pais motivadores e estudo pessoal é o segredo para qualquer pessoa, através da Música, tornar-se um ser humano mais completo.
Andrea: Verifico a ação de pais que, ao observarem que algum seus filhos gosta de cantar, dançar, escutar música ou produzir ritmos e sons (batidas em panelas, batidas no prato com garfos, etc.) enxergam nisso uma busca da criança por musicalização. Outras vezes a iniciativa vem da própria criança que segue a influência de amigos que já tocam algum instrumento. Independentemente da gênese do processo, para que haja sucesso no aprendizado é necessário que haja o seguinte tripé: a criança gostar, os pais apoiarem e o professor incentivar. No início, o papel da família é fundamental: ouvir a criança, elogiá-la nos momentos de sucesso e estimulá-la quando vem o desânimo.

Qual conselho deve ser dado aos alunos que pretendem seguir carreira profissional?

Stefanie: Muito estudo e perseverança. Somente talento pessoal não é suficiente. É de extrema importância que encontrem um professor que saiba valorizar as qualidades do aluno, bem como acrescer conhecimento teórico e musical. Música é vida, é paixão. Isso é o que o verdadeiro músico deve trazer no coração, pois é isso o que deverá passar aos outros.
Andrea: Perseverança, estudo pessoal, disciplina, atenção à técnica e busca da excelência, através do apoio de professores experientes, que lhes proporcionem participação em masterclasses e festivais, além do cultivo de sua própria personalidade musical.

O que é Música?

Stefanie: Música é a maneira pela qual consigo, unindo notas, ritmos, sons e idéias, expressar meus mais profundos sentimentos.
Andrea: É a vida, a paixão, a arte, a expressão mais nítida da divindade.

 

“A música expressa o que não pode ser dito em palavras, mas não pode permanecer em silêncio.” Victor Hugo

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