A Música que transforma

Alvaro Siviero

23 de setembro de 2012 | 15h46

 

Aliar Música e Educação é redundância. A Música educa. Nesta última semana, em um tour de energia, interpretei os dois concertos para piano do mestre húngaro Franz Liszt. A experiência artística foi única, mas o que mais me tocou foi a iniciativa na realização de um recital dirigido exclusivamente para algumas centenas de alunos da rede pública de ensino.  Falei-lhes sobre o piano, sobre Liszt, sobre música. Interpretei diversas obras como recheio desta conversa. Tudo muito dinâmico.

Minha surpresa, a primeira delas, foi verificar as respostas que esses alunos deram às perguntas que fiz durante este “bate-papo”. Perguntei-lhes, após executar a primeira obra ao piano: “O que vocês sentiram?”.  Inesperadamente, todos levantaram as mãos oferecendo-se para dar a resposta:

– “Senti uma emoção muito grande”, afirmou um deles.
– “Lembrei-me da minha tia”, afirmava uma garotinha loira.
– “Deu vontade de chorar”, comentou um garoto tímido.
– “Eu senti uma tranquilidade”…  e as respostas vieram todas. Uma avalanche.

Enquanto a conversava continuava, por diversas vezes, perguntei à atenta platéia mirim que me respondesse algumas perguntas formuladas sobre a conversa que até então havíamos tido. “Onde e quando nasceu Liszt?”, “O que é um piano?”, “O que é música?”. As respostas precisas mostravam que nunca se pode desmerecer a capacidade cognitiva e de aprendizagem de uma criança. Pensei também na pureza e na sinceridade dos sentimentos manifestados. Eu ouvia tudo surpreso.

Quase uma hora depois, quando disse que tocaria a última obra, a reação foi de desaprovação geral: aqueles garotos queriam que a experiência continuasse. Eu também.

Após aplausos entusiasmados, aos quais agradeci, e enquanto iniciava descontraída conversa com um grupo de amigos, uma professora trouxe-me um de seus alunos, cego, perguntando se o rapaz poderia aproximar-se do piano para apalpá-lo. Foi aí que engoli seco. Acompanhei o rapaz que, de modo entrecortado, me disse: Muito obrigado!

Em realidade, fui eu quem o agradeci.

A proliferação de músicas no estilo “bate-estaca”, tão promovidas pela Cultura e pela Educação, bem que poderiam dar espaço a mais experiências como essa.

 

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