A Música como necessidade

Alvaro Siviero

27 de abril de 2012 | 14h57

Os seres humanos possuem características comuns que o identificam como tal. A filosofia grega, jogando luz sobre a realidade humana, verificou serem a Unidade (Unum), Bondade (Bonum), Verdade (Verum) e a Beleza (Pulchrum) categorias do ser humano, o que não é difícil de verificar. Uma pessoa que fere, a título de exemplo, a unidade – comportando-se com duplicidades de atitude – arranha a imagem esperada do ser humano íntegro, assim como uma pessoa que falte com a bondade ou a verdade. No entanto, a tão almejada estabilidade de comportamento, também no terreno emocional, só é possível quando há ajuste em nosso centro vital, quando há calma, paz e serenidade suficientes para entender a vida como ela é. Esse sentido de perspectiva só se consegue com a reflexão e contemplação: com interiorização. Não é por acaso que o contato com o Belo, com a Beleza, transforma-se em necessidade.

O vazio de muitos – essas autênticas neuroses de vazio – é muitas vezes erroneamente combatido com trabalho e, tantas outras vezes, com a diversão e suas variantes: o jogo, a bebida, as drogas, as relações fúteis, festas e reuniões superficiais, a boa mesa, o “corre-corre” frenético, as viagens que nos levam a ver tudo sem se deter em nada, a vontade quase irracional de mudar de lugar e de sentir sempre novas experiências. E acabam matando a sede com água do mar. Saem de uma fuga – o trabalho – para entrar noutra – a diversão. Ou melhor: enchem o vazio com um vazio ainda mais denso. É o que relata o psiquiatra judeu Viktor Frankl: “Nós, os psiquiatras, mais do que nunca, nos encontramos com pacientes que se queixam de um sentimento de futilidade. Permitam-me citar – continuava Frankl – uma carta que recebi de um jovem estudante americano: “Tenho 22 anos, um diploma, carro, previdência social e a disponibilidade de mais sexo do que necessito. Agora, apenas preciso explicar a mim mesmo qual o sentido de tudo isso”.

A verdadeira arte, o verdadeiro artista e a Música – estou convencido disso – devem transcender e nos tornar capazes de ouvir e enxergar, com maior sensibilidade e riqueza, o sentido último e profundo das coisas. E a resposta não está fora: está dentro. Faz falta olhar para dentro de si. O artista erudito (“ex-rude”) deve ser um instrumento catalisador desta transformação, deste desembrutecimento ao que se propõe. Uma nova visão da cultura: ser uma ponte entre o mundo da Beleza e a realidade diária, tendo consciência de sua verdadeira vocação e responsabilidade. O artista, quando corrompido em sua essência, perverte seu verdadeiro fim e acaba comprometendo sua própria arte. O artista foi feito para as alturas. E como diz o ditado: “Quanto maior a altura, maior pode ser o tombo”.

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