A escolha de um maestro

A escolha de um maestro

Alvaro Siviero

09 de abril de 2015 | 10h21

Orquestra_sinfonica_PR

Um maestro é um gestor. A mera competência artística é fundamental, mas não suficiente. Exige-se para a função competência técnica e humana, capacidade de gestão. A antiga figura caricata do maestro “prima donna”, cheio de exigências e lero-leros, deu espaço à figura do empreendedor que alia seu conhecimento artístico não somente à necessária burocracia na busca patrocínios, mas na reinvenção de métodos que aproximem seu produto do grande público e na busca de melhores condições de trabalho para os músicos que lidera. É o que hoje se conhece como service leadership, a liderança do serviço, tão bem retratada no livro Inteligência Musical, de Iñigo Pirfano. Conta-se do excelente Daniel Barenboim,  ex-maestro titular da Chicago Symphony durante 15 anos (1991 – 2006), que abriu mão de seu posto por não aceitar trabalhar em outras questões que não as meramente artísticas. Já o venezuelano Gustavo Dudamel, figura da regência mundial atualmente à frente da Los Angeles Philharmonic e cotado a assumir o posto em Berlim, abriu mão do convite por entender que sua missão artística em LA ainda não havia se encerrado. Dudamel já renovou seu contrato com a cidade-meca do cinema, deixando em espanto aqueles que estavam seguros de que sua meta era Berlim. Uma atitude de um líder paizão, que traça e guia rumos. Diz o ditado que quem não vive para servir não serve para viver. E é assim mesmo: quando não há serviço à música e aos músicos que lidera, o maestro acaba certamente servindo-se a si mesmo, gerando efeitos colaterais desastrosos, em todos os sentidos. 

Para os que nunca presenciaram a entrada de um maestro no palco, fechem agora seus olhos e imaginem o maestro, elegantemente vestido, dirigindo-se ao seu pódio ladeado de aplausos enquanto sorri aos presentes, abaixando a cabeça em atitude humilde de agradecimento. Esses aplausos, em realidade, são o reconhecimento não ao trabalho daquele momento, certamente meritório, mas ao outro, anterior, escondido, exaustivo, de ensaios e dedicação. Em realidade, em muitos casos, a presença física do maestro em uma apresentação é totalmente dispensável, prescindível, desnecessária.

A OSP – Orquestra Sinfônica do Paraná busca seu maestro titular para sua temporada de 2016, posto esse que está vago desde a saída de Osvaldo Ferreira, no final de 2013, quando a orquestra optou por trabalhar com regentes convidados. A comissão dos músicos, que decide quem será o convidado para cada apresentação, movia-se pelo desejo de libertar-se de ingerências artísticas mal sucedidas. Uma espécie de processo de desintoxicação. A decisão é compreensível, porém questionável, pois dificulta o ganho de uma identidade sonora própria para a orquestra (um bom maestro sempre imprime caráter). Pior: os músicos acabam se dedicando a tarefas administrativas que roubam tempo do que realmente importa e que, em realidade, é o trabalho que lhes compete na dedicação diária de horas de estudo. Quem não estuda acaba vivendo de reservas. E depois de trapaças.  

O novo maestro titular a ser escolhido deverá reunir uma série de atributos que atendam as particularidades da orquestra paranaense: qualidade musical, traquejo para conhecer a realidade local, atração de patrocínios e, acima de tudo, habilidade política para melhorar as condições de trabalho do grupo, dado que os recursos destinados pelo Governo do Paraná são mais que insuficientes. Como termo de comparação, a OSESP, em 2015, está trabalhando com um orçamento de 100 milhões; Porto Alegre com aproximadamente 12 milhões; a OSP, que atualmente depende de um projeto da Lei Rouanet elaborado por um de seus músicos para conseguir montar uma programação artística relevante, com R$ 3 milhões, aproximadamente.

Uma análise ampla e ventilada desta dança de cadeiras na regência nacional revela a necessidade de novos talentos que ocupem posições de liderança. Chegou o momento de que competentes figuras carimbadas abram espaço para novos ares e sangue oxigenado com a vinda de uma nova geração de regentes. Explico-me: em ambientes fechados, de ar rarefeito, pouco ajuda a presença de um ventilador. Para que entrem correntes de ar fresco temos que abrir portas e janelas. E é disso que se trata. E são muitos os exemplos. O jovem e experiente maestro Victor Hugo Toro, regente titular da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, é uma das forças vivas da atualidade. Leandro Carvalho, titular da Orquestra do Estado do Mato Grosso, é outro nome que tem desenvolvido intensa e prestigiosa atividade cultural de service leadership à comunidade local, o que o levou a assumir o comando da Secretário Estadual de Cultura do Estado. Guilherme Mannis é outro nome que abraçou o desafio de desenvolver um intenso trabalho de formação de plateia e crescimento da música de concerto em terras mais afeitas à música voltada ao regionalista popular. Cláudio Cruz, igualmente, tem desenvolvido um trabalho de regência memorável à frente da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. Os bons nomes se multiplicam, assim como essas brisas volumosas que refrescam os que estamos no continente.

Com um público ávido de boa cultura, um teatro de grife e uma mídia local sempre aberta à divulgação de bons espetáculos, a tradição cultural da ecológica Curitiba não deve ser relegada a um segundo plano, apesar do aparente desinteresse cultural das autoridades competentes. A OSP tem tudo para conquistar o cenário nacional musical. Cultura não é despesa. É investimento.

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