A cultura de Sergipe ao alcance de todos

Alvaro Siviero

04 Setembro 2013 | 10h42

Contra fatos não há argumentos: a Orquestra Sinfônica de Sergipe foi a primeira da região nordeste brasileira a realizar uma turnê nacional pelas principais salas de concerto do país. Um mérito cultural. A orquestra abriu sua turnê em Aracajú (SE), no elegante Teatro Tobias Barreto, continuando por Brasília (Teatro Nacional Cláudio Santoro), Rio de Janeiro (Sala Cecília Meirelles), Curitiba (Teatro Guaira) e São Paulo (Sala São Paulo) onde, este último, absolutamente lotado.  Sergipe entrou em um seleto time. A desenvoltura apresentada pela ORSSE surpreendeu a classe artística nacional. Os investimentos em diversos setores culturais são a pauta desta conversa travada com Eloísa Galdino, secretária de cultura de Sergipe, uma mulher de opiniões formadas e que dialoga de modo direto e seguro.
1. Qual a motivação que impulsionou esta iniciativa? O que caracteriza hoje a cultura musical do Nordeste?
A turnê que a Orquestra Sinfônica de Sergipe realizou em 2009 tem relação direta com um movimento que começou em janeiro de 2007, quando o governador  Marcelo Déda assumiu o Governo do Estado. A Orquestra foi reestruturada. Os músicos foram valorizados e esse grupo musical passou a ter um espaço significativo na produção cultural e na propagação da nossa política de cultura, de modo que chegou  um determinado momento em que a própria relação e o intercâmbio que esse grupo de músicos realizava com vários nomes da música brasileira e internacional, permitiu criar as condições para que eles empreendessem a primeira turnê de uma orquestra sinfônica do Nordeste, passando por capitais de grande porte, como Brasília e Rio de Janeiro, finalizando na Sala São Paulo, ela que é um símbolo da música clássica brasileira. Para nós, essa turnê foi resultado desse investimento e permitiu que o público brasileiro entrasse em contato com a música sinfônica produzida na nossa região.

2. Antes de assumir a pasta da Cultura, em 2009, seu trabalho desenvolveu-se na pasta de Comunicação do Estado de Sergipe. Como comunicar a cultura musical a nível nacional? Quais são seus desafios à frente desta pasta?A ORSSE-Orquestra Sinfônica de Sergipe possui um plano de crescimento?
Existe uma relação muito próxima entre comunicação e cultura, de modo que todo o meu trabalho, desde o acadêmico à gestão pública, caminhou no sentido de promover essa interface na execução das atividades. Para nós, a música é uma das áreas que está melhor estruturada do ponto de vista da cadeia produtiva da cultura. Infelizmente, Sergipe, apesar de uma riqueza musical muito grande, ainda carece de investimentos na capacitação e no amadurecimento dessa cadeia produtiva. Nós temos estimulado isso, seja através das oficinas que realizamos junto ao  Sebrae, seja através dos editais para a área que permitem o diálogo da música produzida em Sergipe com a música produzida em outras regiões do Brasil, a música nacional propriamente dita, e o entendimento de que nós não estamos falando apenas de música sergipana, e sim de música brasileira produzida no território de Sergipe. Então esse processo acabou culminando, inclusive, com a ida de músicos sergipanos para outros países, participando de festivais na Argentina, Espanha, Bélgica, França, produzindo diálogos entre as duas linguagens melhor estruturadas na área da cultura do ponto de vista mercadológico, que é a música e o audiovisual, com produção de coletâneas mostrando essa diversidade musical do nosso estado. Em paralelo, nós fizemos algo que consideramos muito significativo, que foi produzir o diálogo da ORSSE, dos músicos que estão na academia e que trabalham com música clássica, com aqueles que produzem a música popular, seja através da relação com o forró, com a nossa cultura popular ou através da própria itinerância da ORSSE em outros territórios fora da capital e da Grande Aracaju, o que para nós tem um efeito significativo no fortalecimento da política cultural que abraçamos.

3 . Sua posição de Secretária Estadual de Cultura levou-a a presidir nacionalmente o trabalho desenvolvido por todas as Secretarias de Cultura brasileiras, o que certamente lhe trouxe uma visão da cultura nacional. Quando isso ocorreu? Quais os frutos desta experiência? Quais os maiores desafios atuais na área cultural?
Considero o fato de ter sido presidente nacional do Fórum de Secretários e Dirigentes de Cultura uma vitória do Estado e da Região Nordeste. Isso ocorreu exatamente em 2010, em um processo em que, primeiro assumi interinamente, após a saída da secretária de Santa Catarina, e posteriormente fui eleita duas vezes pelo colegiado de secretários do Brasil. Isso, naturalmente, me permitiu ter uma visão mais abrangente do trabalho que eu realizo em Sergipe conseguindo maiores  referências na área de gestão pública, tanto em Brasília quanto em outros lugares do Brasil. É uma experiência que marca o resto da vida, pois foi um trabalho de representação política em  âmbito nacional, sobretudo em um período em que a política pública de cultura passava por uma consolidação e de amadurecimento.
Quando olhamos o que ocorreu nestes dez anos na área de política pública de cultura vemos que construímos as leis, mas muitas delas ainda tramitam no Congresso Nacional, o chamado marco regulatório da cultura. O Sistema Nacional de Cultura existe enquanto projeto de Lei e está no Congresso Nacional. Hoje o grande desafio é consolidar essa política de cultura a partir da aprovação desse conjunto de leis e materializá-las no trabalho que realizamos nos Estados, consolidando aquilo que é o grande desejo dos secretários de Cultura do Brasil: o fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura.
Na escola nós aprendemos a entender cultura como um conjunto das várias manifestações e traços que caracterizam a sociedade. Quando trabalhamos a área da cultura, e, sobretudo, nesse momento histórico do Brasil, nós aprendemos a entender a cultura em três dimensões: como valor simbólico, econômico e cidadão.

 

4. Em 2012, o Governo de Sergipe reinaugurou seu conhecido Teatro Atheneu – um de seus patrimônios culturais, talvez o mais antigo espaço cênico de Sergipe – que, conjuntamente com o Teatro Tobias Barreto, oferece excelentes condições de oferta para maiores e mais frequentes apresentações. Existe interesse na criação de outros grupos musicais – orquestras de cordas e conjuntos de câmera – para maior difusão da música de concerto no Estado?

É importante registrar que para nós a entrega do Atheneu representa uma vitória muito grande, sobretudo pelo momento que Sergipe vive de reencontro com as suas raízes e de recuperação do seu patrimônio. O Estado ganhou Campus da Cultura na Universidade Federal, palácios e prédios históricos foram restaurados e transformados em importantes museus, como são os casos do Palácio Museu Olímpio Campos e do Museu da Gente Sergipana, ambos em Aracaju. Tudo isso revitaliza a cena cultural, oxigena, dá novo ânimo aos agente de cultura.

 Então nossa perspectiva é que surjam novos grupos e eles já estão proliferando. Nós temos, inclusive, do ponto de vista tradicional, as liras, que remontam o século XIX, e que estão presentes em todas as cidades. Hoje, com a entrada dos nossos jovens na universidade, nos cursos da área da cultura e principalmente no de música, esse movimento tem se fortalecido e nós temos estimulado cada vez mais o fortalecimento dessas liras e o surgimento de novos grupos que trabalhem coma música de câmara.
5. Um músico que cresce é aquele que não vive com reservas educacionais do passado. Como oferecer aos músicos bons orientadores, cursos de extensão e masterclasses? Como a ORSSE tem enfrentado – dada a distância geográfica dos grandes centros de ensino musical – esse desafio?
No próprio desenho das temporadas da Orquestra Sinfônica temos a produção de intercâmbio com nomes como Nelson Freire e Maria João Pires, além de muitos outros que  já vieram interagir e se apresentaram com a ORSSE. Todos os anos nós produzimos esse intercâmbio e estamos também nos preparando, após esse momento financeiro difícil pelo qual passam os estados brasileiros,  para a produção de uma nova turnê para a Orquestra Sinfônica
6. Nas vezes que estive em Aracajú, observei o enorme interesse do público sergipano em frequentar as salas de concerto. O que está sendo feito para canalizar esta substancial demanda? Que iniciativas estão sendo desenvolvidas na área cultural para maior democratização da cultura (também musical)?
A Orquestra Sinfônica virou um símbolo da cultura sergipana. Um dos mais significativos produtos da política cultural empreendida no Governo Marcelo Déda. Ela saiu do espaço que é a sede dela,  o Teatro Tobias Barreto, e foi para o interior, foi para as praças. Nós criamos grupos, quintetos e quartetos que se apresentam nos mais diferentes eventos. Tudo isso fez com que nós conseguíssemos ter um público cativo, que acompanha nossa ORSSE  pra onde ela vai,  e isso fez com que, naturalmente, a orquestra seja vista como um símbolo e um reprodutor deste interesse pela área da música.

7. Quais são os novos projetos da Cultura Sergipana?
Na área da música nosso grande projeto, aprovado pela Lei Rouanet, é a Orquestra Jovem, que vai permitir a educação na área da música a partir de um trabalho já realizado pela Orquestra Sinfônica. Depois, é o Encontro Nordestino de Cultura, que Sergipe deverá sediar no ano que vem. Este encontro tem mobilizado não só a nossa secretaria de Cultura, mas todas as secretarias da região, uma vez que é um espaço de fechamento de um ciclo, da política de cultura realizada nesses estados, para que possamos dar visibilidade nacional a este trabalho realizado em nosso Nordeste.