A Cidade da Música, ontem. A Cidade das Artes, hoje. Uma polêmica.

Alvaro Siviero

17 de janeiro de 2012 | 12h59

Escolhi o Rio de Janeiro – cidade maravilhosa – para ser cenário e fonte de inspiração para meu início de 2012, onde ainda me encontro.  Em um dia ensolarado, passeando pela Barra da Tijuca, deparei-me com as obras da Cidade da Música. Atualmente denominada Cidade das Artes. Gostaria de dividir algumas informações com vocês. Somente fatos.

1. O projeto da obra, apoiado em desejo do prefeito César Maia e idealizado pelo arquiteto francês  Christian de Portzamparc, foi apresentado em outubro de 2002, com inauguração prevista para o final de 2004 e custo total de R$ 80 milhões de reais. Em agosto de 2008, quatro anos após a previsão do projeto, a prefeitura do Rio de Janeiro decide inaugurar o complexo. O desejo é vetado pelo Corpo de Bombeiros da cidade (assista ao vídeo). Neste momento, o investimento já havia chegado a R$431 milhões de reais. Enfrentando críticas da opinião pública e de seus opositores, César Maia estabelece o mês de dezembro como nova data para inauguração do complexo cultural, quando o prefeito já apagava as luzes do seu período de mandato. “Ficará para a posteridade da cidade. A polêmica foi exagerada por politicagem. É isso que gravará meu nome nela. Se tivessem inaugurado quatro meses depois (ou seja, já no mandato do atual prefeito Eduardo Paes) ninguém se lembraria da autoria”, declarou o antigo prefeito. A “inauguração”, ocorrida há mais de 3 anos, teve direito, inclusive, a tombo do entusiasmado prefeito (assista ao video).

2. A Cidade da Música receberia o nome do jornalista Roberto Marinho, recém-falecido. O decreto (n° 23243), que dava o nome à Cidade da Música, teve que ser alterado, a pedido da própria família Marinho, que não queria ver o nome do empresário das Organizações Globo associado ao complexo.

3. No início de sua gestão, o novo prefeito Eduardo Paes não poupou críticas ao projeto milionário. Contratou-se uma auditoria que levantou indícios de fortes irregularidades. Esfriada a polêmica criada, a atual gestão da prefeitura retomou as obras. Até o final de 2011 já foram investidos na obra, aproximadamente, R$515 milhões de reais. No dia 15 de dezembro de 2011, um princípio de incêndio, em uma das salas, é controlado por bombeiros. Ninguém ficou ferido.

Entre os espaços da Cidade das Artes – um gigante faraônico de 90 mil metros quadrados – encontram-se estão 13 salas de ensaio, 13 salas de aula, 3 lojas, videoteca, 3 salas de cinema, sala de eletroacústica, restaurante, cafeteria, 738 vagas de estacionamento, entre outros, além de sua sala principal de concertos, com capacidade de até 1.800 lugares, uma sala secundária, com capacidade de 800 lugares.  A Cidade das Artes demandará 35 milhões de reais anuais para sua manutenção.

Conversando com um dos funcionários, fui informado que muita coisa foi refeita, em uma tentativa de seguir o projeto inicial. Entre outras coisas, alguns funcionários comentaram que as poltronas importadas tiveram que ser todas retiradas, dado que algumas etapas da construção haviam sido suprimidas. Houve mudanças também no palco, antes fixo e agora automatizado, além de toda a questão acústica que havia sido, praticamente, abortada. O importante era “inaugurar”.

É razoável que a construção chegue a seu final algum dia, colocando um ponto final a toda essa discussão, até mesmo por motivos políticos: o governo atual não pode e nem quer ser responsabilizado pela degradação.  O que surpreende é que, com a Jornada Mundial da Juventude, com as Olimpíadas e Copa do Mundo, o Rio certamente estará na vitrine do mundo, com muitas prioridades. Alguns afirmam que a conclusão da obra trará mais prejuízos aos cofres públicos. Segundo estudos, a Cidade das Artes tende a ser deficitária.

Com inauguração prevista para 2012, o complexo poderá trazer um forte impulso cultural ao Rio de Janeiro, já tão desgastado depois de tantas crises em seu meio artístico. Resta agora torcer.

 

 

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