A casa natal de Beethoven, em Bonn

Alvaro Siviero

13 de janeiro de 2014 | 19h22

Beethoven nasceu em Bonn, uma pequena cidade comercial que gozava de certa prosperidade, mas inferior a Munique, Colônia e Frankfurt. Foi capital da Alemanha Ocidental desde o final da Segunda Guerra Mundial até o ano de 2000, quando Berlim passou a ser sede de capital reunificada. No entanto, sua importância era única, pelo fato de o arcebispo de Colônia residir, curiosamente, em Bonn. Pois bem, esse arcebispo, eleito pelos Habsburgos (dinastia vienense) – falamos aqui do Sacro Império Romano – era um dos eleitores do futuro imperador. A vida musical girava, em grande parte, em torno do palácio do arcebispo eleitor onde toda a aristocracia ali comparecia. Eram poucas as famílias abastadas que cultivavam a música em casa. Esse fato estreitava enormemente a ligação da Alemanha com a Áustria, explicando também a razão de Beethoven tão naturalmente se transladar de uma cidade a outra. Em Bonn residia o conde Waldstein, a quem Beethoven dedicou sua célebre “Sonata Waldstein”. Posso falar de tanta coisa que li e conheci, mas quero falar do que vi.

De todas as residências que a família Beethoven residiu, a Beethoven Haus, situada na rua Bonngasse 20, é a única que permanece. Dois outros endereços – Rheingasse 24 e Wenzelgasse 25 – onde a família também teria vivido já não mais existem. E por pouco o mesmo não ocorre em Bonngasse 20. Somente em 1840 (treze anos após a morte do compositor!) é que o local foi identificado como sendo o de seu nascimento. O novo proprietário, ao tomar conhecimento do fato, abriu ali um restaurante com o nome Beethoven Geburthaus (casa natal de Beethoven). Em 1888 foi comprada por um comerciante que a vendeu em menos de um anos. Em 1889 é definitivamente adquirida pela Associação Amigos de Beethoven que se prontificou a defender e preservar este patrimônio. Pouco antes desta última aquisição, a casa já estava definida para ser uma das demolidas. Invadiu-me um sentimento de indignação. Desinformação? Descuido? Descaso? A foto acima mostra os fundos da residência, onde residia a família Beethoven. A porta branca, de madeira e vidro, ao fundo, dá acesso à rua, onde se encontra a conhecida fachada principal verde-rosada (vide foto abaixo). Como pode ser percebido na foto acima, tratam-se de duas residências que, anos após a morte de Beethoven, foram unificadas, ampliando o que conhecemos hoje por Beethoven Haus.

A emoção tomava conta. Ali estava o teclado do órgão da igreja local onde Beethoven muitíssimas vezes tocou, assim como o fortepiano Broadwood. Estão ali diversos aparelhos que o músico utilizava para sanar parcialmente sua surdez. Está ali, também, a viola utilizada por ele (poucos, talvez, saibam que o instrumento de Beethoven era a viola e foi com esse instrumento que tocou por diversos anos na orquestra local). Está ali sua máscara mortuária. Una-se a isso todo o acervo de partituras, salas anexas ao jardim com modernos recursos áudio-visuais, entre muitas outras coisas. Mas, não nos esqueçamos, todo o excelente trabalho de divulgação, museológico e artístico promovido pela Associação Amigos de Beethoven (há inclusive uma sala para realização de recitais dentro da propriedade) não se equipara à energia e à força da propriedade em si, do local em si. Quando me aproximei do cômodo exato em que Beethoven nasceu percebi que minha mão gelava, tremia.  Um guarda, estaticamente posicionado na porta deste cômodo, atentamente me observava. Ao ver meu olhar e ao saber que eu era um pianista – confesso que esqueci-me completamente de qualquer modéstia com o intuito de alcançar meu objetivo, contando-lhe algumas de minhas façanhas artísticas – foi-me permitido adentrar. Coloquei-me de joelhos. Passei minhas mãos, de olhos fechados, naquele chão. Eu estava literalmente na hora certa, no local certo, diante do policial certo. A presença de qualquer outra pessoa certamente impossibilitaria esse ato de generosidade do oficial. Pude fotografar muita coisa.

Um pedestal, ao centro do cômodo, coroado por um busto de Beethoven em tamanho natural, reproduz a estatura que tinha o compositor e nos faz, de certa forma, senti-lo presente, vivo, ao nosso lado.

Ao sair, em loja de “souvenirs” localizada próxima aos jardins da Bonngasse 20, entre outras coisas, adquiri uma caixa com dezenas de CDs. São 86. Toda a coleção integral das obras de Beethoven. Durante a viagem Bonn-Colônia, ao volante, pouca atenção prestava à conversa das outras pessoas que estavam no carro. Poderia ser diferente?

Maiores informações: www.beethoven-haus-bonn.de

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