Websérie sobre Dominguinhos começa nesta quarta; veja entrevista com produtora da série de encontros musicais e do documentário, que estreia em maio
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Websérie sobre Dominguinhos começa nesta quarta; veja entrevista com produtora da série de encontros musicais e do documentário, que estreia em maio

Adriana Plut

26 de fevereiro de 2014 | 11h24

A produtora e sócia da bigBonsai Deborah Osborn em uma das gravações do documentário “Dominguinhos”

“Vocês já conseguiram ficar com Dominguinhos numa roda de amigos, ele tocando a esmo o que quer? Não tem nada mais sensacional, ele é uma enciclopédia maravilhosa”. Quem diz isso é Djavan, em um encontro gravado inicialmente para o documentário “Dominguinhos”, mas que acabou virando parte da websérie “Dominguinhos +”que estreia nesta quarta-feira (26.2) com diversos artistas cantando e tocando com o sanfoneiro. O primeiro episódio traz Dominguinhos e Gilberto Gil, que foram parceiros em músicas como “Lamento sertanejo” (1975) e “Abri a porta” (1979). Serão oito episódios disponíveis na internet, postados semanalmente a cada quarta-feira, até o dia 16 de abril. Todos são acompanhados por uma playlist com duas músicas na íntegra (com Gil, as canções escolhidas foram “Abri a Porta” e “Tenho Sede”). Desses encontros, participam parceiros que marcaram época na carreira de Dominguinhos, como Elba Ramalho e Gal Costa, e a nova geração influenciada por ele, como Mayra Andrade, Yamandu Costa e Hamilton de Holanda. Todos os episódios são lançados na página do Facebook criada para o projeto.
No episódio com Djavan, Dominguinhos pede que o amigo toque uma música em sua homenagem. “Eu queria que ele fizesse uma coisa dele para mim”, diz. Meio nervoso, Djavan toca e canta “A Rota do Indivíduo”. Este encontro foi um dos mais emocionantes, na opinião da produtora-executiva Deborah Osborn. Dominguinhos já estava debilitado por um câncer, que seria a causa de sua morte em julho de 2013. “A gente nunca sabia se ele poderia ir ao encontro ou não, às vezes ele chegava abatido por causa do tratamento, mas quando começava a tocar tudo mudava”, conta.
O projeto começou quando a cantora Mariana Aydar e os músicos Duani e Eduardo Nazarian procuraram a produtora bigBonsai para fazer um documentário destinado a ser uma grande homenagem a Dominguinhos. A ideia inicial era contar a história do músico por meio desses encontros musicais, mas o primeiro corte do filme não satisfez. Os produtores optaram por uma nova versão, que valoriza imagens de arquivo e tem o próprio Dominguinhos contando sua história. O filme “Dominguinhos”, que estreia em maio, tem direção de Eduardo Nazarian, Mariana Aydar e Joaquim Castro. A direção da série de encontros musicais é de Felipe Briso.
O que fazer com o rico material gravado em estúdio? Surgiu a ideia de colocar este conteúdo gratuitamente na internet. No final, a websérie se tornou também uma estratégia de lançamento do documentário, como Deborah conta na entrevista a seguir.

Como se deu o processo de separação do documentário e da websérie? Porque inicialmente seria uma coisa só, certo?
Deborah Osborn – A websérie não surgiu do nada. Sempre houve a ideia de ter algum conteúdo para a internet e ao longo do processo a gente foi descobrindo a vocação do vasto e precioso material que tínhamos.
O filme foi idealizado pela cantora Mariana Aydar e pelos músicos Duani e Eduardo Nazarian. Há 6 anos, eles procuraram a bigBonsai para fazer um documentário, que seria uma grande homenagem ao Dominguinhos. Desde o começo, eles tiveram uma preocupação: mostrar um Dominguinhos que o Brasil não conhece. A partir de encontros musicais, o filme contaria um pouco sobre a vida e a obra dele, e a gente gravou isso em 2011. Os encontros ficaram lindos, e no final, foram as últimas entradas de Dominguinhos em estúdio. Mas durante a pesquisa encontramos um material de arquivo muito rico, com ele tocando com a Gal Costa na turnê “Índia”, com o Gilberto Gil em “Refazenda” e com Luiz Gonzaga em várias fases, por exemplo. No primeiro corte do documentário, os encontros ilustravam passagens da vida do Dominguinhos, mas achamos que não funcionava, faltava respiro, poesia, além de não mostrar ele jovem.

Foi aí que se deu a separação dos dois conteúdos?
Deborah Osborn – Aí aconteceu a entrada fundamental do Joaquim Castro (mesmo montador de “Olho Nu”, sobre Ney Matogrosso, que estreia em maio), que começou a montar o filme e também assina a direção, porque ele realmente trouxe um novo olhar e mudou o caminho do documentário. Ele e o roteirista Di Moretti assistiram a 60 horas de material bruto e deram esse novo recorte para a história. Agora, 80% do longa é material de arquivo e o Dominguinhos narrando sua própria história. Na websérie são os músicos falando sobre o Dominguinhos, então no final um conteúdo complementa o outro e quem assistir aos dois trabalhos vai saber muito não só da história do Dominguinhos, mas da música brasileira.


O primeiro episódio da série “Dominguinhos +” traz encontro do sanfoneiro com um de seus grandes parceiros, Gilberto Gil

O projeto levou cerca de 6 anos para ser concluído. A que você atribui tanto tempo?
Deborah Osborn – Primeiro, o documentário tem outro tempo, vários demoram muitos anos. Além disso, nós dependíamos do estado de saúde do Dominguinhos e da agenda de diversos músicos que são muito requisitados. Também teve a questão de não ficarmos satisfeitos com o primeiro corte e o processo até chegar nessa última versão, que é a oficial. Porque documentário a gente descobre mesmo é na ilha de edição. Mas agora estamos muito felizes com o resultado.

Por que vocês decidiram lançar a série na internet, e não em algum canal de TV a cabo, por exemplo?
Deborah Osborn – A ideia de disponibilizar esse material de graça na rede reflete muito como o Dominguinhos era, muito generoso e sempre aberto a compartilhar seu conhecimento. Ele nunca dizia não. Então a gente achou que teria tudo a ver disponibilizar o conteúdo na internet, para que mais pessoas tivessem acesso.

“Vocês já conseguiram ficar com Dominguinhos numa roda de amigos, ele tocando a esmo o que quer? Não tem nada mais sensacional”, diz Djavan na websérie “Dominguinhos +”. Foto: Ding Musa

Djavan, Elba Ramalho, Gilberto Gil e Gal Costa são apenas alguns dos nomes que fazem parte da websérie. Como se deu essa escolha? Vocês escolheram os nomes ou foi Dominguinhos quem propôs com quem gostaria de tocar e cantar?
Deborah Osborn – A escolha dos nomes partiu da direção musical do projeto, da Mariana Aydar, Duani e Eduardo Nazarian. Eles como músicos e conhecedores profundos do Dominguinhos escolheram as pessoas para os encontros, buscando fugir do óbvio, e também artistas que representassem diferentes fases da carreira. O Hermeto Pascoal, por exemplo, representa o nordeste e também o autodidatismo e improviso – são amigos de longa data. O Gilberto Gil relembrou a fase da turnê de “Refazenda” e foi um grande parceiro. O Lenine é um artista mais contemporâneo e tem também Yamandu Costa e Hamilton de Holanda, que fazem parte de uma nova geração que foi influenciada pelo Dominguinhos.

A websérie ajuda também a divulgar o documentário, que estreia em maio?
Deborah Osborn – Estamos tentando uma estratégia diferente para o lançamento, por meio da  mobilização social e da internet. A campanha começou no dia 12 de fevereiro, aniversário do Dominguinhos. No dia 26 de fevereiro é a vez do primeiro episódio da websérie, com o Gilberto Gil, e depois disso vamos soltar oito episódios, um a cada quarta-feira, com a opção de mais duas músicas na íntegra, na playlist. Estamos fazendo o lançamento assim, nesse esquema de guerrilha, porque depois de tanto tempo de projeto não sobrou dinheiro para investir em mídia. Mas está sendo interessante fazer essa mobilização pela internet e mobilizando também os músicos que participaram. O Djavan, por exemplo, compartilhou uma foto no Facebook e a imagem foi novamente compartilhada por cerca de 850 pessoas! Também faremos uma ação chamada “Dominguinhos + você”, pedindo para os internautas contarem suas histórias relacionadas ao Dominguinhos. Tem também o crowfunding (financiamento coletivo) e estamos promovendo debates e encontros pelo Brasil afora. O objetivo é chegar diretamente no público que gosta do Dominguinhos e música brasileira e espalhar que existe a websérie e o filme.

Qual é o seu episódio/encontro preferido da websérie?
Deborah Osborn – Eu gosto muito todos. Cada um tem sua história, nós saíamos emocionados de cada gravação. Era lindo ver o Dominguinhos tocando. A gente nunca sabia se ele poderia ir ao encontro ou não, às vezes ele chegava abatido por causa do tratamento, mas quando começava a tocar tudo mudava.Mas até hoje me emociona o encontro com o Djavan. Neste dia gravaríamos também com a Mayra Andrade, com o Yamandu e Hamilton de Holanda e fiquei sabendo que o Djavan estaria no estúdio ao lado – foi um daqueles presentes da vida. Então eu liguei para a empresária dele e deu certo. O Dominguinhos estava muito emocionado e o encontro foi muito bonito, muito verdadeiro.


Teaser que apresenta o projeto “Dominguinhos +”, lançado em 12 de fevereiro, quando o sanfoneiro completaria 73 anos

Cronograma da websérie:

26 de fevereiro: Lançamento da websérie – episódio 1: Dominguinhos + Gilberto Gil

5 de março: episódio 2: Dominguinhos + João Donato, Wilson das Neves e Luiz Alves

12 de março: episódio 3: Dominguinhos + Djavan

19 de março: episódio 4: Dominguinhos + Hermeto Pascoal

26 de março: episódio 5: Dominguinhos + Lenine

2 de abril: episódio 6: Dominguinhos + Mayra Andrade, Yamandu Costa e Hamilton de Holanda

9 de abril: episódio 7: Dominguinhos + Orquestra Jazz Sinfônica

16 de abril: episódio 8: Dominguinhos + Elba Ramalho

Deborah Osborn é formada em marketing pela ESPM, realizou o curso de extensão em cinema na New York University e um Mestrado em Cinema na Goldsmith College–University of London. É sócia-fundadora da bigBonsai, onde atua como produtora-executiva. Em 2007, foi indicada para o prêmio IYSEY 2007 – International Young Screen Entrepreneur of the Year e ficou entre os 3 finalistas. Foi integrante de importantes comitês de seleção e júri de festivais, como o Festival de Gramado, o Festival de Recife e o Kinoforum – Festival Internacional de Curta-Metragens de São Paulo.  Finaliza o projeto multiplataforma “Dominguinhos” com previsão de lançamento comercial em maio de 2014, sobre a obra e a vida do músico brasileiro. Em desenvolvimento, trabalha no projeto de longa-metragem de ficção “A Origem da Primavera”, adaptação da obra literária Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, com direção de Marcela Lordy.

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