“Setenta” mostra os destinos dos presos políticos libertados em troca do embaixador da Suiça durante a ditadura; na Mostra
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“Setenta” mostra os destinos dos presos políticos libertados em troca do embaixador da Suiça durante a ditadura; na Mostra

Adriana Plut

23 de outubro de 2013 | 00h37

A diretora Emilia Silveira durante uma gravação do documentário “Setenta”

“O exemplo, a experiência, o sofrimento e a memória dos personagens do ‘Setenta’, estampados no filme, são o meu jeito de fazer política”, diz Emilia Silveira, diretora do documentário, em exibição nesta quarta e quinta-feira (23.10 e 24.10) na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ex-militante e ex-presa política durante a ditadura militar, a jornalista decidiu contar a história e mostrar como estão hoje alguns dos personagens do grupo de 70 presos políticos libertados em troca do embaixador da Suiça, Giovanni Bucher, sequestrado por organizações da luta armada no início dos anos 70. Eles falam sobre os anos de militância, a prisão, a ida ao Chile governado por Allende (até o golpe de Pinochet, quando voltaram a ser criminosos políticos), e o exílio na Europa. Mas, mais que fatos, relembram seus ideais, sonhos e se perguntam – 40 anos depois – se valeu a pena. A experiência, é claro, deixou marcas em todos. Em Emilia, um incômodo, uma “mosquinha do passado”, lembrava que era preciso fazer alguma coisa. O resultado é “Setenta”. Ela explica: “dizem que quando todas as esperanças terminam, está na hora de abrir um bar. Eu achei que estava na hora de fazer um filme”.

SETENTA Trailer 02-C (1) from Rosane Hatab on Vimeo.

.DOC – Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre grupo dos 70?
Emilia Silveira – Tive a ideia em 2003, logo que eu soube, pelo Marco Maranhão, um dos personagens do “Setenta”, que o grupo se reunia de tempos em tempos e que teria um encontro no Restaurante Lamas, no Rio. Me atraiu a ideia de que eles se mantinham como um grupo, que algum elo comum tinha se mantido, mesmo depois de 30 anos. Então, convidei a Sandra Moreyra para tocar o projeto comigo. Gravei o encontro do Lamas e começamos a organizar umas conversas com alguns deles: Chico Mendes, Jean Marc, Marco Maranhão, Jaime Cardoso. O primeiro roteiro indicativo partiu dessas conversas.

.DOC – A ideia surgiu em 2003, mas o filme só foi lançado 10 anos depois. Por que?
Emilia Silveira – O dia-a-dia de muito trabalho e a falta de respostas positivas por parte dos produtores foi adiando o projeto. Nesse período soubemos pelo diretor Jom Tob Azulay que existiam imagens desses personagem num filme – hoje histórico – sobre a chegada dos 70 no Chile: “Brazil, a Report on Torture”, do Haskall Wexler e do Saul Landau. Nesse momento tive a certeza de que teria de fazer o filme. Coincidências não são por acaso.
Anos se passaram até que o mesmo Jom Tob me procurou dizendo que tinha achado um produtor. Um jovem, ousado e com uma carreira de produções alternativas, feitas com pouco dinheiro e muita disposição. Foi aí que o Cavi Borges entrou na nossa vida. Logo conseguimos que o Canal Brasil apoiasse o projeto e começamos a pré-produção, escolha de personagens, e as filmagens. Era março de 2012. Um dos 70, o Chico Mendes, me ajudou a localizar a maioria deles. O filme estava nascendo ali. Cavi bancou um promo (vídeo explicando o projeto) e foi assim que chegamos na Globofilmes. Ali percebemos que seria possível fazer um filme. De baixo orçamento, mas um filme.

.DOC – Você lutou contra a ditadura e foi presa política. Pode falar rapidamente sobre esta fase da sua vida? Como este passado influenciou seu trabalho como diretora no documentário?
Emilia Silveira – Como diz um dos personagens do “Setenta”, passamos por tantas derrotas que um dia, ou você se transforma num Stalin, ou vai cuidar da sua vida. Eu fui cuidar da minha. Virei jornalista – uma das profissões possíveis para ex-prisioneiros políticos, simplesmente porque os jornais admitiam perseguidos pela ditadura como empregados. Fui repórter do Globo e do Caderno B do Jornal do Brasil. Mais tarde, passei a ser diretora e autora de programas na Globo. Mas a mosquinha do passado estava ali. Eu tinha certeza que era preciso fazer alguma coisa, contar as histórias de um tempo marcado pela institucionalização da violência policial e da tortura, pelo obscurantismo e pelo medo. Dizem que quando todas as esperanças terminam, está na hora de abrir um bar. Eu achei que estava na hora de fazer um filme.

.DOC – Como foram escolhidos os personagens entre o grupo dos 70?
Emilia Silveira – A escolha dos personagens foi totalmente pessoal e intransferível. O roteiro passou por muitas fases mas tínhamos – eu e Sandra – a certeza de que queríamos fazer um filme sobre vidas, sobre lembranças, sobre as impressões sensíveis que, no presente, reportam ao passado. Fomos eliminando a “aula de história” e ficando com o olhar, o coração dos personagens.  Entrevistamos cerca de 25 pessoas. Todas as entrevistas foram fortes e marcantes. Ficaram no filme as falas que “colaram” nas outras. Que formavam uma sequencia de sensações, muito mais do que de fatos. Como se a montagem reproduzisse um bordado, um costura tirada das mais de 70 horas de gravação, Nisso, a nossa montadora, Joana Collier, foi fundamental. Muitas histórias impressionantes acabaram não entrando.

.DOC – No filme os ex-combatentes falam sobre seus sonhos, o que buscavam naquela época. Como vê a diferença entre os anseios dos jovens que viveram os chamados “anos de chumbo” e os de hoje?
Emilia Silveira – Os anseios são os mesmos. Melhorar o mundo, basicamente. A diferença é que nós vivíamos sob uma ditadura militar e hoje vivemos numa democracia. Relativa, mas numa democracia. A semelhança é que o poder policial é truculento. Não importa a época.

.DOC – O ano que vem marca os 50 anos do início da ditadura militar no Brasil. Para você, este período foi/está sendo suficientemente retratado no cinema ou ainda há muito para contar?
Emilia Silveira – Há grandes filmes sobre o período da Ditadura. Mas são muito poucos. Gostaria de citar “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski, “Batismo de Sangue”, do Helvécio Ratton, os filmes do Silvio Darin, da Lúcia Murat e, mais recentemente, da Flavia Castro, “Diário de uma Busca” e “O Dia que durou 21” anos, do Camilo Tavares. Mas ainda há muito o que contar.

.DOC – Como avalia o trabalho das Comissões da Verdade, hoje espalhadas por todo o País? Por que o documentário não mostra a expectativa dos ex-combatentes em relação às comissões?
Emilia Silveira – É fundamental o trabalho da Comissão da Verdade. Pra mim, esse é o primeiro passo, junto com a abertura dos arquivos da ditadura, para conhecermos o nosso passado. Mas esse não era o foco do meu filme. Como já falei, me interessam hoje, como diretora e até como ex-militante e ex-presa política, o que foi feito dessas vidas. O que sobrou dos ideais e dos sonhos da juventude. Os que ficaram no caminho não podem ser esquecidos. Suas histórias têm de ser contadas. Triste da sociedade que não conhece a sua história. Em nenhum momento eu quis defender teses ou fazer catequese política com meu filme. O exemplo, a experiência, o sofrimento e a memória dos personagens do “Setenta”, estampados no filme, são o meu jeito de fazer política: dar ao público a chance de julgar por si mesmo o que significou essa luta, a sua consequência na história de cada um e, talvez, ajudar a pensar sobre os acontecimentos de hoje.

“Setenta”, de Emilia Silveira, na Mostra Internacional de São Paulo 

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA 1  –  23/10/2013 – 22:05

RESERVA CULTURAL 1  –  24/10/2013 – 16:20

Emilia Silveira é jornalista de formação, trabalhou como repórter e editora-chefe em veículos como Jornal do Brasil, O Globo e TV Globo, e conquistou um prêmio Esso de Jornalismo. Também atua como roteirista, documentarista, e desenvolvimento de novos formatos para programas de televisão, projetos institucionais  e eventos corporativos. É diretora e produtora do documentário “Setenta”, em coprodução com a Globofilmes, a Cavideo, a 70 filmes e a AeB Produções.

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