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Para Labaki, coprodução com TVs é a chave para estimular documentários

Adriana Plut

07 de agosto de 2013 | 03h59

Não haveria maneira melhor de estrear este blog, dedicado a quem gosta de cinema, mas tem uma quedinha especial pelo gênero não-ficcional (e sente falta de um lugar para se informar e discutir o assunto), do que o relato de alguém que acompanhou de perto a evolução dos documentários no Brasil. Amir Labaki é o criador e diretor do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. O evento criado há 18 anos é a principal vitrine desses filmes no Brasil e ajudou a popularizar o gênero – segundo Labaki, os documentários representam cerca de um terço das estreias nacionais em salas nos últimos cinco anos. Há desafios. As fontes de financiamento, como editais públicos, ampliaram-se nos últimos anos, mas a demanda continua grande. O ingresso das TVs brasileiras na coprodução de documentários (como acontece em outros países) seria a maneira mais efetiva de incentivar a produção, diz. Ele fala também sobre as principais mudanças no gênero (que ficou mais intimista e virou “cult”), avalia a produção do último ano e diz que não é um entusiasta das sessões de pitching na conjuntura brasileira, mas está atento à tendência de apresentaçoes de projetos à indústria em busca de financiamentos. Acompanhe abaixo a entrevista, concedida por e-mail.

.DOC – Nos últimos 18 anos você acompanhou de perto a evolução do documentário no Brasil. Quais foram as principais mudanças? Houve fortalecimento do gênero? Há mais receptividade ao documentário? 

Amir Labaki – A principal mudança me parece ter sido a quebra do estigma contra o gênero. Por um longo período o documentário era tido como um tipo de cinema monocórdico, didático, sisudo. Nas duas últimas décadas o cinema não-ficcional começou a ser reconhecido como pulsante, variado, instigante. O documentário se tornou cult. Além disso, aproximou-se de nós: com a revolução digital, tanto o registro se tornou ainda mais intimista quanto a produção se multiplicou e diversificou. Houve ainda um significativo avanço no acesso aos filmes, tanto brasileiros quanto internacionais. Documentários representam cerca de um terço das estreias nacionais em salas nos últimos cinco anos. Mas um dos principais desafios ainda é oferecer condições profissionais de distribuição e divulgação aos novos filmes, para evitar que as estreias sejam alavancadas por pouco mais do que voluntarismo.

.DOC – Como você enxerga o processo de criação dos documentários no Brasil? Considera que os realizadores, produtores e distribuidores são unidos/ organizados?

Amir Labaki – O documentário autoral no Brasil se desenvolve essencialmente a partir do empenho de seu realizador, em parceria com sua equipe e, no melhor dos casos, com um produtor. A liberdade formal, se comparada com a produção de outros países, deve-se muito à virtual inexistência de compromissos com financiadores como grandes produtoras ou canais de televisão. Uma força (estética) nasce assim de uma fragilidade (econômica).

 

Trailer de “Mataram Meu Irmão”, de Cristiano Burlan. Vencedor do prêmio de melhor documentário brasileiro no É Tudo Verdade 2013


.DOC – Acredita que faltam organizações/fundações que incentivem jovens realizadores? E quanto a locais onde discutir a produção documental?

Amir Labaki – Sim, ampliaram-se sensivelmente nas duas últimas décadas as fontes de financiamento, por meio de editais públicos, mas a demanda ainda supera de longe a oferta.  Isso vale tanto para jovens realizadores quanto para talentos consagrados. O debate sobre o gênero também se fortaleceu, sobretudo ganhando força nas universidades e em eventos reflexivos específicos como a Conferência Internacional do Documentário, realizado pelo festival há 13 anos.

.DOC – Existe algum projeto de tornar o É Tudo Verdade mais presente no calendário anual, com sessões mensais, por exemplo?

Amir Labaki – O festival há muito estende suas atividades para além do grande evento anual. Há uma década escrevo uma coluna com ênfase na cultura do documentário no diário Valor Econômico. Há nove anos realizamos uma parceria com o Canal Brasil numa sessão semanal de documentários nacionais. Desde 2010, estabelecemos também uma parceria com a TV Cultura, programando várias sessões semanais de documentários internacionais, num processo que desembocou na criação da faixa semanal É Tudo Verdade Internacional na TV Cultura (Veja a programação aqui: http://tvcultura.cmais.com.br/etudoverdade/programacao-do-mes), há poucos meses. No momento, não está nos planos estabelecer um novo projeto com sessões mensais em salas.

.DOC – E quanto à criação de sessões de pitching?

Amir Labaki –  Nunca fui um entusiasta da efetividade de sessões de pitching de documentários para a conjuntura brasileira, em que tem sido quase inexistente a participação das TVs na coprodução – o que é a base dos casos de sucessos de fóruns de fomento à coprodução, como o do IDFA e do Hot Docs no Canadá. Mas o cenário nacional está em transformação e estamos atentos a isso.

.DOC – Quais seriam maneiras efetivas de incentivar a produção de documentários?

Amir Labaki – A forma mais efetiva de mudar o patamar seria o ingresso empenhado das TVs brasileiras, abertas e por assinatura, na coprodução de documentários. É esta a realidade nos grandes centros produtores do mundo.

.DOC – Hoje na TV aberta existem muitos “realities”, mas pouco espaço para documentários. Como enxerga essa disputa?

Amir Labaki – “Realities” são ficções. Emprestam elementos não-ficcionais, como protagonistas estampando seus reais RGs, mas as regras do jogo são roteirizadas como na ficção clássica. Documentários apresentam, por sua vez, olhares sobre o mundo concreto de um realizador. São formas narrativas distintas.

.DOC – No É Tudo Verdade aparecem documentários que nunca chegariam às salas de cinema brasileiras. Como nem tudo pode ser exibido, muitas produções internacionais ainda assim nunca chegam ao público. Existe algum lugar onde você procura novos títulos? Algum site, por exemplo?

Amir Labaki – O processo de seleção de novos títulos se dá tanto pela inscrição direta de obras para o festival, no período de setembro a dezembro, como pelo acompanhamento de festivais e de circuitos de cinema mundo afora, por mim e por membros do comitê de seleção.

.DOC – Como avalia a produção não-ficcional do último ano? O que pode destacar?

Amir Labaki – Tem sido um ano forte, tanto para a produção brasileira quanto internacional. Acho incrível o rigor e a contundência do vencedor da competição brasileira do É Tudo Verdade deste ano, “Mataram Meu Irmão” de Cristiano Burlan, para ficar em apenas um exemplo. Na esfera internacional, abrindo mão de destacar títulos exibidos no último festival, nada vi que superasse o impacto do mais novo filme de Claude Lanzmann, o realizador de “Shoah”, que lançou em Cannes “O Último dos Injustos”, em que imbrica sua história pessoal à tragédia do Holocausto de uma maneira absolutamente original e simplesmente sublime.

 

Trailer do novo filme de Claude Lanzmann, “O Último dos Injustos”

 

.DOC – Pode adiantar alguma novidade do festival de 2014?

Amir Labaki – Ainda é cedo. As inscrições estarão abertas a partir do começo de setembro. Já trabalhamos nas retrospectivas, sempre projetos de maior fôlego, mas prefiro reservar a informação para uma data mais próxima da possibilidade do público acompanhar as mostras nas salas.

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