Para fundador do Anima Mundi, uso de animações para retratar eventos reais é tendência forte
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Para fundador do Anima Mundi, uso de animações para retratar eventos reais é tendência forte

Adriana Plut

13 de agosto de 2013 | 13h55

Animação e documentário podem parecer, a princípio, gêneros paradoxais. Mas não é bem assim. Nos últimos anos, muitos diretores usaram a animação para representar fatos da vida real. Exemplos bem conhecidos são “Valsa com Bashir” (2008), em que o diretor israelense Ari Folman entrevista antigos veteranos que lutaram ao seu lado na Guerra no Líbano em 1982, em busca das suas próprias memórias, e “Persepólis” (2007), baseado no romance autobiográfico da iraniana Marjane Satrapi. Nos dois filmes, o recurso da animação faz com que temas difíceis e controversos sejam abordados de forma lúdica, tornando sua compreensão mais fácil. Para Marcos Magalhães, nesses casos “a animação suaviza a violência e distancia o espectador para assim conseguir mostrar o fato”. Ele é um dos fundadores do Anima Mundi (o Festival Internacional de Animação do Brasil, criado há 21 anos) que ocupa salas do Espaço Itaú de Cinema e o Cine Olido, de 14 a 18 de agosto.  Nesta entrevista, ele fala sobre o uso de desenhos animados para retratar eventos reais, uma tendência cada vez mais presente na produção de documentários, avalia a indústria da animação no Brasil – que para ele “está melhorando a cada ano” – e indica o que os documentaristas não podem deixar de ver na 21a edição do Anima Mundi.

.DOC – Desde quando os documentários estão presente no Anima Mundi? 

Marcos Magalhães – Sempre houve essa tendência, mas ela ficou mais forte nos últimos cinco anos. Criamos até uma sessão formada apenas por animações que são documentários. Quando o número de curtas de animações não ficcionais é suficiente, juntamos e fazemos uma sessão.

“Aprovado para Adoção” é sessão obrigatória para os amantes do documentário neste Anima Mundi

Qual é o papel da animação no documentário? 

Marcos Magalhães – Nos documentários de guerra, por exemplo, a animação suaviza a violência, distancia o espectador para assim conseguir mostrar o fato. Muitos documentaristas estão começando a usar este recurso, que também é útil para resgatar a memória. E hoje em dia há também uma tendência de animadores mostrando fatos das suas vidas que não poderiam ser contados de outra maneira. Nesta edição, por exemplo, a diretora coreana joon-Su Seong (“Haegeumni”, 2012) narra fatos da sua própria vida e conta uma história que, por razões políticas, jamais poderia ser filmada. A animação também pode ser útil nos casos em que não houve registro fotográfico. Ou simplesmente porque o diretor prefere mesmo, pois fica mais plástico.



O curta “Haegeumni” conta a história de uma menina levada para um campo de refugiados na Coreia do Norte

O uso de desenhos animados para retratar eventos reais tende a crescer? 

Marcos Magalhães – É uma tendência bem forte e nós vemos aumentar a quantidade de filmes que têm esse tratamento, não só no Anima Mundi. O documentário “Valsa com Bashir”, por exemplo, estava no Festival de Cinema de Cannes e não passou no Anima Mundi por uma questão de datas, mas caberia muito bem. Também há um bom exemplo na competição deste ano, o longa “Aprovado para Adoção”, que conta a história de uma criança sul-coreana adotada na França. É uma história que realmente aconteceu e que se repete (há mais de 200 mil crianças coreanas adotadas pelo mundo), mas contada por meio da animação.

Trailer do documentário “Valsa com Bashir”, um exemplo do uso da animação para retratar fatos reais

Tem também um documentário que conta a historia da animação, ‘Luz, anima, ação!’. Pode falar um pouco dele?

Marcos Magalhães – É um filme de um diretor jovem, Eduardo Cavet, que traça a trajetória da animação e a solidificação da indústria no Brasil. Um trabalho muito sério, caprichado e bem documentado. É mais comum em relação ao formato, a animação está ali como tema e não como a linguagem escolhida pelo diretor.

O documentário ‘Luz, anima, ação!’ traça a trajetória da animação no Brasil. Em cartaz no Anima Mundi

E como você vê a indústria da animação no Brasil? 

Marcos Magalhães – Está melhorando a cada ano. Sempre há um fato novo, uma nova iniciativa. Nós comemoramos algo novo a cada edição: o primeiro edital público, o lançamento de um longa. Este ano a sessão Longa Especial traz “Uma História de Amor e Fúria” (2012, do diretor Luiz Bolognesi), que conquistou o prêmio máximo do Festival de Annecy, na França, um feito inédito. Estávamos felizes só pelo filme ter sido selecionado pelo festival (Annecy é considerado o “Cannes da animação”), então a premiação tem que ser comemorada. E não deixa de ser um documentário animado, porque a história se baseia em fatos reais.

“Uma História de Amor e Fúria” ganhou o festival mais importante do setor

A animação ainda é vista como um recurso caro. Ainda mais por documentaristas, que normalmente trabalham com orçamentos apertados. É isso mesmo?

Marcos Magalhães – Você pode ter uma animação feita por uma pessoa só com lápis e papel, e isso não vai sair caro. Mas se quiser uma super computação gráfica a coisa muda de figura. A questão do custo varia muito.

 

O que os documentaristas não podem deixar de ver nesta edição do Anima Mundi? 

Marcos Magalhães – O longa coreano “Aprovado para Adoção” e a sessão inteira do Panorama Documentário. (Mais informações sobre a sessão Panorama Documentário aqui)

 

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