“Histórias de Arcanjo – Um documentário sobre Tim Lopes” será exibido nesta segunda-feira na Mostra; veja entrevista com o diretor e com o roteirista, filho de Tim
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“Histórias de Arcanjo – Um documentário sobre Tim Lopes” será exibido nesta segunda-feira na Mostra; veja entrevista com o diretor e com o roteirista, filho de Tim

Adriana Plut

20 de outubro de 2013 | 20h29

O diretor Guilherme Azevedo e o roteirista Bruno Quintella, filho de Tim Lopes. Crédito: Marcela Amodio

Vencedor do prêmio de melhor documentário pelo júri no Festival do Rio, “Histórias de Arcanjo – Um documentário sobre Tim Lopes”, dirigido por Guilherme Azevedo, será exibido nesta segunda-feira (21.10) na Mostra de Cinema de São Paulo. O filme relata a trajetória do jornalista – morto em 2002 por traficantes quando fazia uma reportagem sobre prostituição infantil na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro – por meio do seu filho Bruno Quintella, roteirista do documentário, que se reencontrou com amigos, colegas de profissão e personagens de matérias que marcaram a vida de Tim. Para Bruno, “Histórias de Arcanjo” é “um filme de um filho sobre seu pai” e foi isso que trouxe tranquilidade para que escrevesse o roteiro. Mas é claro que o processo de filmagem abriu velhas feridas: entre os momentos mais marcantes do filme, Bruno visita a Pedra do Sapo, onde seu pai morreu. Nesta entrevista, Bruno e Guilherme contam como foi gravar no local, falam sobre o processo de escolha das reportagens mostradas no documentário e explicam que a doçura foi a característica mais marcante de Tim Lopes – e foi esta qualidade que fez dele um jornalista excepcional.

Tim Lopes foi morto em 2002, a ideia de fazer o documentário surgiu em 2004, mas vocês só começaram a gravar em 2009. Por que demoraram 5 anos para começar?
Guilherme Azevedo – Foi o tempo de amadurecimento do Bruno. Na época, em 2004, ele tinha 22 anos, tinha acabado de perder o pai e não se sentia preparado para enfrentar e remexer as histórias de Tim Lopes.

No filme, Bruno refaz os passos de Tim Lopes, se reencontrando com amigos, colegas de profissão e personagens de matérias. Como surgiu a ideia de contar a história do jornalista por meio da busca do filho?
Bruno Quintella – O Guilherme me sugeriu isso de primeira, quando a gente se conheceu: “Por que você não conta essa história?”. Ele tinha uma produtora, equipamento, etc. A ideia era ele dirigir, eu escreveria o roteiro e faria as entrevistas. Cinco anos depois, batemos o martelo, me senti pronto para dar o mergulho. Ou seja, ao aceitar eu já estava remexendo a ferida. Entendi que deveria ser um filme de um filho sobre seu pai. E não um filme sobre o jornalista Tim Lopes. Dessa maneira, fiquei mais tranquilo para escrever o argumento e montar o roteiro. Conversávamos bastante e sabíamos que o filme seria uma homenagem ao meu pai. Isso nos motivava: falar da vida do Tim.

O documentário mostra diversas investigações de Tim Lopes. Como foi o processo de escolha das reportagens? Como decidiram o que priorizar?
Bruno Quintella – Decidimos que a prioridade seriam as matérias de jornal impresso. Porque era esse o Tim que a gente queria mostrar, o texto dele. Nelas encontramos um Tim Lopes operário do metrô (jornal Repórter), um Tim Lopes mendigo (Jornal do Brasil), um Tim Lopes maratonista (Repórter)… Com um detalhe: o texto sempre em primeira pessoa. Isso era incrível! Nas reportagens de TV, priorizamos o mesmo Tim travestido de outros personagens: dependente químico, vendedor ambulante. Nossa ideia era mostrar um Tim investigador social e não policial.

Quais são os momentos mais emocionantes no documentário?
Guilherme Azevedo – Para mim, foi levar Bruno na Pedra do Sapo, local onde o Tim foi assassinado, onde ele nunca tinha ido. Esse processo de filmagem foi uma mistura de tensão, envolvimento de toda equipe e procurei não interferir no sentimento dele, nos passos que ele dava. O resultado final foi um desabafo emocionante e revelador: ele disse que se sentia enterrando o pai e que o lugar – que era um campo de futebol – trouxe lembranças felizes dele com Tim Lopes, que adorava futebol.

Bruno, e para você, como foi ir até a Pedra do Sapo, onde hoje há um cruzeiro no lugar do antigo “forno de microondas”?
Bruno Quintella –  Ir até a Pedra do Sapo e a Vila Cruzeiro foram, sem dúvida, os momentos mais tensos. Refazer os últimos passos do seu pai não é fácil. É bem complicado, ainda mais com uma câmera. Mas fiquei firme e deixei a emoção fluir. O Guilherme foi muito sensível naquele momento, soube respeitar com silêncio, mas soube, também, interferir na hora certa.

Teve algum outro momento marcante no processo de gravação?
Bruno Quintella –  Houve outro momento emocionante: no Rio Grande do Sul, na estrada, saindo de Pelotas, lugar onde meu pai nasceu. Paramos o carro, saltamos, montamos tudo e começamos a conversar no meio de um descampado imenso… Foi a única vez que chorei pra valer. Não entrou no filme, mas foi fundamental para seguir em frente em todo o processo. Isso faz pouco mais de um ano. Ou seja, você ir onde seu pai morreu e depois onde ele nasceu, lugares que eu nunca havia ido. Essa inversão me ajudou. Porque era o percurso do filme.

Tim Lopes dedicou sua vida ao jornalismo investigativo. O filme mostra que ele fazia questão de ser mais que um observador. Para vocês o que fez de Tim um repórter tão especial?
Bruno Quintella – Ele era, acima de tudo, um homem doce. Um repórter que convivia com pessoas desassistidas pela vida, esquecidas pela sociedade. Presidiários, prostitutas, drogados, mendigos, operários, todos eles, lhe interessavam. E, apesar vivenciar as agruras de cada um, mantinha seu sorriso, sua ternura para encarar a vida. Ela sabia viver.

“Histórias de Arcanjo – Um documentário sobre Tim Lopes” na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo:

21/10/2013-18:10 – CINEMATECA – SALA BNDES

30/10/2013-17:10 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2

31/10/2013-14:00 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 5

Bruno Quintella é produtor e repórter da Globo News. Está desde 2004 na Globo, onde trabalhou na Editoria Rio por sete anos. Foi um dos coordenadores da cobertura ao vivo da ocupação policial no Complexo do Alemão, premiada com o prêmio Emmy Internacional, em 2011.

Guilherme Azevedo é diretor de fotografia e documentarista da Avexi Filmes. Assinou a fotografia de diversos documentários, entre eles: “Tiago de Mello – 70 anos de Amazônia”, “O Brasil é o Bicho”  (série de documentários para televisão e cinema) e “Ecos do Brasil” (documentário que resgata a memória ambiental do País). No jornalismo, Guilherme participou de grandes reportagens e coberturas como “A Fantástica Volta ao Mundo”, da TV Globo, com o apresentador Zeca Camargo. “Histórias de Arcanjo” marca sua estreia como diretor.

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