É Tudo Verdade 2014: na competição de curtas, um documentário construído com memórias e sensações
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É Tudo Verdade 2014: na competição de curtas, um documentário construído com memórias e sensações

Adriana Plut

03 de abril de 2014 | 00h05


O cinema documental não precisa necessariamente retratar a realidade por meio das chamadas “talking heads”, ou cabeças falantes, com discursos coerentes, que contam uma história do início ao fim. Na Competição Brasileira de Curtas-Metragens deste ano do festival É Tudo Verdade – que começa nesta quinta-feira em São Paulo (3.4), com uma sessão para convidados – há um documentário que prova isso.
“A geografia é algum lugar entre o coração e aquilo que já foi”, de Letícia Simões e Ricardo Marques, foi construído a partir de filmagens feitas em viagens pelo casal. Prepare-se para deixar o raciocínio lógico de lado por alguns minutos e concentre-se nas sensações que o filme lhe traz. “Estivemos produzindo ficções a partir das nossas realidades”, dizem. “Uma vez o filme feito, montado e entregue, a sensação final depende tão somente do outro, do espectador”.
Ela pergunta, ele responde. Depois o jogo se inverte. Um “jogo fílmico”, como ambos dizem nesta entrevista que responderam por e-mail a quatro mãos, assim como produziram o curta.

.DOC – Por que vocês consideram “A geografia é algum lugar entre o coração e aquilo que já foi” um documentário? O que há de verdade nele? O que há de ficção?
Letícia Simões e Ricardo Marques – A verdade que há nesse filme é a nossa ficção mirada por essa câmera que, ora na mão de um, ora na mão do outro, de alguma maneira nos revela. Somos personagens desse jogo fílmico chamado “a geografia é algum lugar entre o coração e aquilo que já foi”. A partir dessas imagens, criamos as nossas realidades: nesse específico caso, realidades criadas a partir de memórias. Procuramos estabelecer uma conexão entre o que ali aparecia com as nossas lembranças, as nossas memórias individuais, lembrando da nossa oposta (e complementar) posição. ”a geografia é algum lugar entre o coração e aquilo que já foi” é feito dessa ficção que se desdobra quando, diante de uma câmera, alguém escolhe revelar algo. Como não chamá-lo de documentário?

a geografia é algum lugar entre o coração e aquilo que já foi – trailer from letitbleed on Vimeo.

.DOC – Como surgiu a ideia do filme? Por que decidiram compilar as imagens de viagens e transformá-las nesse curta?
Letícia Simões e Ricardo Marques – Há uma frase lindíssima com a qual a cineasta Agnès Varda começa seu último filme, “As Praias de Agnès”, que pode muito bem resumir a nossa intenção: “If we opened people up, we’d find landscapes”(se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens). O nosso filme possui essa prerrogativa de partirmos de memórias pessoais para criarmos um discurso mais amplo, capaz de atravessar essa dimensão individual. As viagens serviram como partida para pensarmos procedimentos cinematográficos; a eclosão dessas imagens com o nosso texto, com a nossa reflexão, com as nossas experiências carregadas pelo encontro com esses lugares, produzem a textura do curta-metragem. Produzem a textura da vida. Como escrevemos estas respostas a quatro mãos, assim fizemos o filme. Através do diálogo e de um encontro na mesa de montagem decidimos o caminho. Como fazemos destas imagens um filme? – foi a nossa primeira pergunta. Ainda que durante as filmagens já se notasse uma vontade, foi mais tarde que tudo se começou a desenhar.

.DOC – Os discursos que estão no filme estavam nesses registros de viagem ou vocês inseriram depois? Como foi o processo do roteiro? 
Letícia Simões e Ricardo Marques – O texto surgiu à medida que montávamos as imagens filmadas, ainda que algumas questões tenham sido levantadas no momento em que um de nós decidíamos ligar a câmara. Transformou-se num jogo de pergunta e resposta, sem que se tornasse isso uma obrigatoriedade inquisitiva. Muitas vezes se perguntava uma coisa e a resposta em pouco ou nada se relacionava com a questão. O sentido das coisas é tardio, e a experiência que temos neste filme chega dessa forma. Não filmamos compulsivamente, mas em determinados momentos era um imperativo, era absolutamente necessário filmar. As partes do texto que surgiram na montagem foram também escritas em diálogo: pergunta, resposta. A atribuição de um rumo ao que estávamos fazendo se foi clarificando à medida que íamos avançando. Sabíamos que mais tarde ou mais cedo teríamos o nosso filme.

.DOC – As imagens que aparecem no filme são registros de viagens. Pode falar mais sobre a origem delas? São viagens de vocês juntos ou também há imagens gravadas por outras pessoas? O que elas significam para vocês? Como foram escolhidas?
Letícia Simões e Ricardo Marques – Estas imagens foram produzidas em duas viagens que fizemos juntos. A primeira, em maio de 2013, para Portugal, e a segunda, em julho do mesmo ano, para Inhotim, em Minas Gerais. Todas as imagens foram filmadas por nós. O que elas significavam para nós, antes de se tornarem filme, era o registro das nossas viagens, como um álbum de família, digamos. Claro que a determinada altura o modo de filmar, o que filmar, começa a levantar questões. Por que escolhi filmar isto? O que tem isto a ver com esta viagem? E a partir do momento em que nos começamos a questionar começamos também a criar. Nossa compulsão é essa, no sentido de observar as possibilidades perante o ato de filmar que ocorria naquele momento.

.DOC – O resultado do filme é pessoal e até sensorial. Era esse o objetivo de vocês?
Letícia Simões e Ricardo Marques – Queremos que o espectador, a partir dessa experiência, também construa o seu filme; também acesse suas lembranças e embates a partir desses registros. Enquanto montávamos, tínhamos certeza que queríamos abrir espaço para a memória, seus contornos e seus encontros. Para as paisagens que criamos e mais ainda, que gostaríamos de criar. O cinema carrega essa potência, essa possibilidade de penetrar no íntimo das coisas, de desvelar o véu que as encobre e conceber a essência que as constitui. E claro que a própria ideia de essência não é consensual; entre nós dois existe essa discussão, como se pode chegar a ela, ela existe de fato? “A geografia é algum lugar entre o coração e aquilo que já foi” é um pequeno exercício sobre essas possibilidades. Como Jean Rouch escreve, no momento em que se liga a câmera, os objetos filmados, as pessoas, transformam-se em personagens; é teatro. É verdade e é teatro. Estivemos produzindo ficções a partir das nossas realidades. Uma vez o filme feito, montado e entregue, a sensação final depende tão somente do outro, do espectador. Estamos no meio; habitamos o meio; é o nosso país. Falar em objetivo é desviar do que o nosso filme possa ser, pois a forma como ele foi feito não pressupunha o dito objetivo. Se falarmos em amor, por exemplo, no conceito de amor, é impossível falar em objetivo ou objetividade. Agora, se falarmos em objeto já estamos entrando noutro campo. Nós, Letícia e Ricardo, aparecemos no filme de forma a interferir um na visão do outro. É um idílio onde viagens, expectativas e conversas se encontram e às quais sempre acabamos por voltar. O objetivo, a existir, é dar continuidade ao nosso constante diálogo seja através de imagens ou palavras.

Letícia Simões nasceu em Salvador, em 1988. Formou-se em Comunicação na PUC-Rio e estudou Cinema na London Academy of TV and Media e Artes Plásticas na University of London. Em 2011, publicou o livro de poemas “Pessoas de quem roubei frases” pela Editora 7 Letras. No mesmo ano, dirigiu seu primeiro longa-metragem, o documentário “Bruta Aventura em Versos”, selecionado para o Festival do Rio de Janeiro, a Mostra de Cinema de São Paulo e a Mostra de Cinema de Tiradentes, entre outros festivais. Em 2013, publicou seu segundo livro de poemas, “Daqui, em 1976, acenei para você”, pela Editora Patuá. Ainda esse ano, teve o video “Cesariny” como integrante da exposição Noite Azul Elétrico, de curadoria de Ricardo Sardenberg, na galeria Mendes Wood, em São Paulo. Atualmente, trabalha como roteirista dos filmes “Construindo Pontes”, dirigido por Heloisa Passos e “Mestre Cupijó e seu Ritmo”, dirigido por Jorane Castro e selecionado pelo Programa Petrobrás Cultural 2012. Também trabalha em seu segundo longa-metragem, “Tudo vai ficar da cor que você quiser”, acerca do universo do escritor Rodrigo de Souza Leão, com estreia prevista para o segundo semestre de 2014.

Ricardo Marques formou-se em Dramaturgia pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e estudou cinema na Universidade da Beira Interior. Trabalha como dramaturgo, artista visual e performer com vários artistas entre Portugal e Brasil. Em Portugal, entre 2003 e 2012, desenvolveu trabalhos entre a performance, o happening e a dramaturgia. Em 2010, foi selecionado pela Fundação Calouste Gulbenkian com o espetáculo “Antes de descobrir a garganta”.  Em 2012, encenou em São Paulo “Primeira Valsa – um espetáculo ao abandono”, onde assina a dramaturgia e direção. No mesmo ano, apresentou também “TRAUMATHEATRE – um espetáculo sobre a desintegração do coletivo e o fim das utopias”, onde também assina a dramaturgia e direção.

Horários de exibição de “A geografia é algum lugar entre o coração e aquilo que já foi” no Festival É Tudo Verdade 2014/ Competição Brasileira de Curta-Metragem (Programa 1)

São Paulo

Livraria Cultura

04/04/2014 às 15h 

Reserva Cultural

07/04/2014 às 18h

 

Rio de Janeiro

Espaço Itaú de Cinema Botafogo

08/04/2014 às 17h

Instituto Moreira Salles

11/04/2014 às 14h

 

 

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