É Tudo Verdade 2014: Curta mostra manifestações de junho de 2013 pelo olhar de fotógrafos e cinegrafistas
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É Tudo Verdade 2014: Curta mostra manifestações de junho de 2013 pelo olhar de fotógrafos e cinegrafistas

Adriana Plut

10 de abril de 2014 | 09h46

Quando começou a filmar as manifestações de junho do ano passado no Rio de Janeiro, o estudante de cinema Ravi Aymara percebeu uma presença constante em suas imagens: cinegrafistas e fotógrafos, amadores ou não, que também registravam aquele momento. Foi assim que nasceu “Com uma câmera na mão e uma mascara de gás na cara”, que faz parte da Competição Brasileira de Curta-Metragem do É Tudo Verdade. No filme, um fotógrafo, um ninja, um jornalista recém-formado, um repórter cinematográfico e um jovem cineasta falam sobre os problemas com a polícia, a resistência dos manifestantes (que muitas vezes não querem ser gravados, principalmente pela grande mídia) e relembram como foi fazer a cobertura desse momento histórico.

O documentário retrata as manifestações de 2013 por meio dos profissionais que as registraram. Por que você escolheu esse recorte?
Ravi Aymara – Quando comecei a registrar as manifestações, no dia 13 de junho de 2013, não tinha esse recorte pré-estabelecido. Aos poucos reparei que era muito difícil captar uma imagem sem enquadrar uma pessoa com câmera, então decidi aproveitar esse personagem. Foi assim que surgiu a ideia de conversar com outras pessoas que também estavam registrando os atos.

As imagens que aparecem no documentário foram todas gravadas por você ou  também usou registros das pessoas que entrevistou? Qual é a sua relação com as manifestações?
Ravi Aymara – Eu gravei todos os vídeos mas utilizei algumas fotos de outras pessoas. Assim como estudantes de medicina prestavam socorro aos feridos e estudantes de direito prestavam assessoria jurídica, como estudante de cinema queria registrar tudo que acontecesse ao meu redor. Não conseguia me imaginar em uma manifestação segurando um cartaz ou tentando impedir o avanço das tropas militares. Não desqualifico quem se manifesta dessa maneira, pelo contrário, todos têm muita importância nos atos, tanto o mais pacífico que segura cartazes ou flores, quanto o mais agressivo que carrega coquetéis molotov, estão revoltados com o sistema social em que vivem e agem da maneira que acham melhor. Nos primeiro atos gritava “Sem vandalismo!” mas logo aceitei a resposta “Sem moralismo!” e parei de tentar impedir essas ações mais radicais, tão legítimas quanto a minha.

Você aborda os abusos policiais com cinegrafistas e repórteres, mas fala também sobre a dificuldade que a grande mídia teve para registrar os manifestantes.
Ravi Aymara – A grande mídia omitiu muitas informações e tentou minimizar os fatos ocorridos nas manifestações. Era de se esperar que sofressem alguma retaliação por parte dos manifestantes.

Como foi a sua relação com a polícia e com os manifestantes? Pode contar alguma história que ilustre isso?
Ravi Aymara – No dia da Independência (7.9) fiquei 12 horas na rua e vi muita gente sendo detida sem motivo aparente. Quando anoiteceu houve um confronto no bairro Laranjeiras, onde fica o Palácio Guanabara, sede do governo estadual. Por um momento me afastei de outras pessoas filmando – algo que não deve ser feito por quem registra ações policiais -, eu estava com um lenço cobrindo o rosto uma bomba de gás explodiu. Um policial mandou eu encostar na parede. Me apoiei na portaria de um prédio que abrigava transeuntes e moradores curiosos. Achava que na frente dessas pessoas estaria seguro. Perguntei ao policial se poderia filmar ele abrindo a mochila e ele não negou. Até coloquei um trecho no filme. Agi tranquilamente e mostrei o que levava: equipamentos de filmagem. Isso para mim não era novidade, acontece até fora de uma manifestação. O que me assustou no ocorrido foram as pessoas que estavam na portaria que sequer sabiam o que eu estava fazendo ali e durante a revista gritavam frases como “prende ele!” e “revista mesmo esse black bloc”. Se dependesse do julgamento deles, tinha sido detido. Além disso, vi muitos moradores jogarem gelo e outros objetos em cima dos manifestantes e gritando “Vai queimar lixo no seu bairro!”. Em relação aos manifestantes, não tive problemas.

Como você, que estava presente em várias manifestações, enxerga o legado dessa fase? Acha que foi algo que passou ou considera que elas voltarão com força em breve, com a Copa e eleições?
Ravi Aymara – Acho que continua acontecendo, mas só os mais politicamente ativos tem participado. É muito difícil prever o que acontecerá na Copa do Mundo. Aqui no Rio de Janeiro, no dia 21 de junho do ano passado, mais de um milhão de pessoas protestaram na Av. Presidente Vargas. No dia 30 de junho, final da Copa das Confederações no Maracanã, foram uns dois mil manifestantes e 15 mil militares protegendo o Estádio. Com certeza os protestos irão acontecer em maior escala do que neste início de ano, mas creio que não serão tão grandes quanto as de junho do ano passado.

Horários de exibição de “Com uma câmera na mão e uma mascara de gás na cara” no Festival É Tudo Verdade 2014/ Competição Brasileira de Curta-Metragem (Programa 1)

São Paulo
Cine Livraria Cultura – 04/04/2014 às 15h
Reserva Cultural – 07/04/2014 às 18h

Rio de Janeiro
Espaço Itaú de Cinema Botafogo – 08/04/2014 às 17h
Instituto Moreira Salles – 11/04/2014 às 14h

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