É Tudo Verdade 2014: Curta-metragem “E” reflete sobre lógica urbana que prioriza maquinas, e não pessoas
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É Tudo Verdade 2014: Curta-metragem “E” reflete sobre lógica urbana que prioriza maquinas, e não pessoas

Adriana Plut

08 de abril de 2014 | 10h06

A sinopse de “E”, curta-metragem que participa do Festival É Tudo Verdade (em cartaz até o dia 13 de abril em São Paulo), não deixa claro o que será encontrado no filme: “estacionamento. Do latim, statio. Ficar de pé, ficar parado”. Um filme sobre estacionamentos? Não é bem assim. Partindo deste tema, “E”, escolhido melhor filme (entre os curtas) pelo júri da Mostra de Cinema de Tiradentes deste ano, inicia uma reflexão sobre a cidade que prioriza as maquinas e destrói espaços de convivência e lembranças.
Um trunfo do filme é a contraposição entre depoimentos sem nome, lembranças perdidas, e imagens que mostram no que aqueles espaços da memória se transformaram. É o caso de um antigo cinema de bairro, na Penha, que hoje abriga um estacionamento. Ou de um apartamento que atraiu a moradora por contar um elevador para carros, assim ele já fica parado ao lado da sala. São as maquinas tomando o espaço das pessoas. Para reforçar esta questão, há apenas vozes, mas quase não há imagens de pessoas no filme. “Nosso esforço formal foi o de estranhar os espaços, fazer com que fossem notados de forma diversa da que geralmente são. Para isso, optamos justamente por fazer um filme sem pessoas”, explica Miguel Ramos. ”Se nosso interesse era a fantasmagoria desses espaços, nos carros tomando os lugares das pessoas, optamos por justamente não ter ninguém em quadro nunca, a cidade foi abandonada e só ficaram os carros”.
Nesta entrevista, os diretores Alexandre Wahrhaftig, Helena Ungaretti e Miguel Ramos falam sobre a perda de memória da cidade, a busca por uma maneira criativa de retratar a vida urbana e o efeito cômico causado pelo estranhamento de uma cidade das maquinas.

E – trailer from mira filmes on Vimeo.

 “E” não é sobre estacionamentos. Eles são apenas o ponto de partida para uma reflexão sobre a cidade que prioriza as maquinas e destrói espaços de convivência e lembranças. Vocês concordam? Sobre o que é “E” para cada um de vocês? 
Miguel Ramos – Sim, é exatamente isso. O “E” é um filme sobre estacionamentos, mas também (e justamente por isso) sobre a cidade e sobre o papel do carro e da publicidade nela. Desde o princípio tínhamos a intenção de tratar da perda de memória da cidade, o cinema que virou estacionamento, a casa onde hoje há carros. Mas também não queríamos fazer um filme nostálgico. Nos interessava tentar um olhar mais contemporâneo, procurando mostrar até onde vai a loucura privada no que se refere aos carros, com estacionamentos de shoppings que são verdadeiras cidades, com prédios onde o carro para na sala. Começamos fazendo um filme sobre estacionamentos e sobre carros, depois percebemos que estávamos fazendo também um filme sobre publicidade. A cidade dos carros, a cidade que só pode ser acessada através do carro, é justamente a cidade publicizada, a cidade dos conjuntos de prédios, da segurança privada, a cidade do não-espaço público. A São Paulo da especulação imobiliária é essa cidade.
Helena Ungaretti – Concordo. O filme é sobre escolhas, prioridades. É sobre como utilizamos o espaço.
Alexandre Wahrhaftig – Acrescentaria que é um filme mais sobre a experiência dessa vida urbana na qual os estacionamentos proliferam do que sobre o problema dos estacionamentos em si. O nosso interesse não estava nas minúcias de como funcionam os estacionamentos (burocracias para abrir o negócio, custo de manutenção etc.), por mais que, no processo (pesquisa e filmagem), tenhamos nos deparado com essas questões. Da mesma forma, quando falamos da cidade que prioriza máquinas e destrói espaços de convivência, o filme não busca transmitir isso por dados estatísticos. “E” busca uma forma de dimensionar a experiência do caos urbano ao nosso redor.

Como surgiu a ideia de realizar este curta?  
Miguel Ramos – “E” foi um filme que se construiu no processo. Nossa primeira motivação era uma atração pelos estacionamentos enquanto espaço, uma atração que era temática, por enxergarmos aí um sintoma de algo mais amplo, mas também estética, o que foi um dado fundamental do processo. Havia uma potência ali, uma estranheza de lugares de certa forma à margem, que queríamos captar.
Alexandre Wahrhaftig – A ideia realmente só ganhou forma após começarmos o processo de escrita do projeto para o edital do Estado (Prêmio Estímulo de Curta-Metragem). Antes disso havia apenas um desejo vago que unia a atração estética de que o Miguel falou com essa sensação de sintoma de algo maior da cidade. A necessidade de escrever algumas páginas sobre o filme e de apresentar o projeto a uma banca (do edital) forçou-nos a passar de uma ideia vaga para um projeto de filme de fato, processo que só se aprofundou com as etapas de filmagem e edição. É curioso ver quantos filmes possíveis surgiram para nós no processo; cogitamos incluir até uma história fictícia sobre um viajante no tempo que se depara com um futuro dominado por carros. Não havia, de início, uma ideia fechada do que seria o filme. Só sabíamos que deveria ter estacionamentos.

Em “E”, o humano dá lugar às máquinas. Não há pessoas, só carros, elevadores, ruas, avenidas, obras e estacionamentos. Os depoimentos não têm nome. Para vocês, como foi fazer um filme assim, sem pessoas? No que se inspiraram? 
Miguel Ramos – No processo de pesquisa, de aproximação dos espaços concretos, fomos complexificando a atração pelos estacionamentos, buscando a melhor forma não apenas de filmar os espaços, mas, em certo sentido, de revelá-los. Há algo a ser revelado neles. Nosso processo foi de descotidianizar – os estacionamentos são vistos cotidianamente, são, em nossa experiência urbana, normais. Nosso esforço formal foi o de estranhar os espaços, fazer com que fossem notados de forma diversa da que geralmente são. Para isso, optamos justamente por fazer um filme sem pessoas. Se nosso interesse era a fantasmagoria desses espaços, nos carros tomando os lugares das pessoas, optamos por justamente não ter ninguém em quadro nunca, a cidade foi abandonada e só ficaram os carros. As pessoas aparecem no google ou em fotos publicitárias. A principal referência pra isso foram filmes de ficção científica, no sentido de que na ficção científica há uma forma ímpar que constrói algo que nunca está lá, a luz verde do ovni que não é visto. No nosso caso, nos inspiramos um pouco nisso no sentido de estranhar a cotidianidade dos estacionamentos, nosso ovni sendo a fantasmagoria dos espaços vazios, a ausência de pessoas da cidade tomada por carros.
Helena Ungaretti – Os próprios espaços que filmamos sugeriam um filme sem pessoas. Decidimos gravar apenas o som das entrevistas para reforçar essa ideia, essa atmosfera. Se quiséssemos filmar nossos entrevistados teríamos que forçar uma cena pouco comum – levá-los até os estacionamentos. Ou então incluir no filme outros espaços que não nos interessavam.

No apartamento “contemporâneo” que tem até um elevador de automóveis que encantou a moradora, e também no antigo cinema de bairro, quando ao relembrar as pessoas que ocupavam cada área, aparecem apenas os carros que hoje estão no lugar, a ironia é palpável. Como foi a construção do filme, a preparação da filmagem e a edição, para que vocês conseguissem alcançar esse efeito? 
Miguel Ramos – Pra mim ironia é uma palavra difícil. Difícil porque muitas vezes a ironia resulta em um esvaziamento do objeto, ou então em uma posição da enunciação (nossa) muito superior ao personagem, ao que está sendo mostrado; essas duas possibilidades me incomodam. Acho que tivemos uma preocupação formal de ressaltar a surrealidade, por exemplo, de carros ocuparem o lugar de cadeiras de cinema, e o tom mais pro cômico foi uma forma de evitar um tom denuncista ou nostálgico, que não nos interessava. Talvez faça sentido pensar que isso que você chama ironia aconteça em momentos em que queremos mostrar a surrealidade que cerca o tema do uso do carro em São Paulo sem sublinhar um ponto de vista marcado sobre isso. De certa forma, a comicidade parece vir de uma suposta adesão formal nossa ao objeto (como mostrar os carros como se fossem pessoas, ritmado com as falas da narração que descreve como era o cinema), mas que acaba por exibir justamente a desconexão, o absurdo, carros não são pessoas, a justaposição dos dois evidencia o absurdo. No caso do apartamento “contemporâneo”, por exemplo, existe um absurdo no objeto, o carro que estaciona na sala; nosso cuidado foi no sentido de deixar o absurdo falar por si só, sem que nós precisássemos ressaltá-lo, sublinhá-lo. A comicidade que resulta da cena acho que está mais no objeto em si do que na nossa enunciação.
Alexandre Wahrhaftig – Desde as primeiras discussões sobre o filme, quando a Helena trouxe, na pesquisa, imagens do Cine São Geraldo (na Penha), o cinema que virou estacionamento, ou quando víamos ruínas de casas em estacionamentos pela cidade, sabíamos que queríamos contrapor passado e presente. A forma desse dispositivo (som sobre o passado, imagem do presente) já estava prevista no projeto. Acho que, no início, era uma coisa com menos humor, apesar de o absurdo dos lugares sugerir algo de tragicômico. No caso do cinema, acho que foi só na montagem, quando a Lia (montadora do filme) escolheu o trecho específico da entrevista e montou a cena, que o humor veio à tona.

Horários de exibição de “E” no Festival É Tudo Verdade 2014/ Competição Brasileira de Curta-Metragem (Programa 2)

São Paulo
Cine Livraria Cultura – 05/04/2014 às 15h
Reserva Cultural – 08/04/2014 às 18h

Rio de Janeiro
Espaço Itaú de Cinema Botafogo – 09/04/2014 às 17h
Instituto Moreira Salles – 10/04/2014 às 14h

 

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