É Tudo Verdade 2014: Curta intimista traz história de garota vietnamita que busca seu papel na vida do pai
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É Tudo Verdade 2014: Curta intimista traz história de garota vietnamita que busca seu papel na vida do pai

Adriana Plut

12 de abril de 2014 | 09h56

Pesquisa, roteiro, produção, fotografia, som, direção, edição… Essas são apenas algumas etapas de qualquer filme. Em um set de filmagem, cada um deve se preocupar com a sua função para que o trabalho de todos dê resultado. Cinema é trabalho em equipe. Mas há exceções. Prova disso é o novo curta do diretor Mauricio Osaki, “A Poeira de Suas Fotos”, exibido na Competição de Curtas Metragens do Festival É Tudo Verdade.
Foi graças a sua habilidade de trafegar por todas as áreas que Osaki conseguiu realizar o curta sobre uma garota vietnamita que busca encontrar seu papel na vida do pai. Prestes a completar 20 anos, a jovem fotógrafa Tien percebe que não tem fotos ao lado de seu pai, talvez apenas uma, em que ela mal consegue se reconhecer. Osaki acompanha a busca de Tien por sua identidade, registrando momentos da vida da menina: conversas com os parentes e amigos, suas voltas pela capital vietnamita e a preparação de uma exibição. Tudo de modo observacional, ou seja, sem a ação do investigador – Osaki, no caso. O resultado são momentos intimistas, como uma briga de Tien com seu pai durante um jantar ou uma conversa reveladora que tem com sua mãe enquanto esta a ajuda a tingir o cabelo. Cenas como estas não poderiam ter sido gravadas por uma equipe que não fosse de um homem só. Aí que reside a beleza de “A Poeira de Suas Fotos”.
Nesta entrevista, Mauricio Osaki conta como encontrou a história de Tien, fala sobre os desafios de gravar uma produção sozinho e de sua relação com a Ásia.

Este foi o seu segundo curta gravado no Vietnã. O primeiro foi a ficção “O Caminhão do Meu Pai”, selecionado para o Festival de Berlim de 2013. Você pode falar um pouco sobre a sua relação com o país? Por que escolheu o Vintes como locação de seus dois últimos filmes?
Eu estava fazendo meu mestrado na Universidade de Nova York (NYU) e além do campus em NYC eles têm também um campus na Ásia, na cidade de Cingapura. Eu achei que me mudar para o campus de Cingapura seria uma oportunidade única de viver na Ásia e poder viajar pelo continente de onde vieram meus avós. Então nestas viagens pela Ásia e em especial pelo sudeste asiático eu fui parar no interior de Vietnã. Foi uma surpresa enorme ver tantas similaridades pelo interior do país com o interior do próprio Brasil, onde as pessoas ainda vivem uma vida mais rural, com pouca infraestrutura, muita informalidade e muita dureza. Isso me motivou a escrever o roteiro do curta “O Caminhão do Meu Pai”, que rodamos no final de 2012. Durante o processo de preparação eu fiquei morando três meses no Vietnã e conheci pessoas incríveis que colaboraram no filme ou simplesmente circulavam na cena artística contemporânea do país. Uma destas pessoas foi a jovem fotógrafa Thuy Tien. Ela me contou que gostava muito do roteiro do “O Caminhão do Meu Pai” porque ela mesmo havia tido uma relação complicado com o pai. Quando ela me contou em detalhes sobre o desaparecimento do pai eu achei incrível e sabia que havia uma história ali que também merecia ser contada. E isso sempre me ficou na cabeça. No final de 2013 eu voltei à Hanói para apresentar o curta em uma sessão especial na cinemateca e estava também pesquisando para o projeto de longa “Os Caminhos do Meu Pai”, baseado no curta. Ao mesmo tempo a Tien estava fazendo uma exposição sobre o pai dela, e eu achei que foi o momento perfeito para filmarmos essa história.

A história da Tien e da relação dela com o pai é contada de uma maneira muito poética e observacional. Chama a atenção as cenas íntimas que você foi capaz de gravar, como a briga dos dois durante o jantar ou aquela conversa da Tien com a mãe, enquanto tinge o cabelo. Como você conseguiu esse efeito tão intimista?
Isso foi possível graças à escolha do processo de gravação e minha amizade profunda com a Tien. Somos amigos desde que filmei o curta e sempre mantivemos contato. Eu falei que se fossemos gravar o documentário eu precisaria ficar o mais próximo possível e gostaria de ter acesso a vida dela. Isso exigiria confiança de ambas as partes. O fato de a equipe ser somente eu ajudou também. Eu já conhecia a família dela, e passávamos a tarde juntos quando possível. Eu a visitava durante a preparação da exposição e as vezes íamos jantar na sua casa.  Como meu equipamento era leve e cabia em uma mochila eu podia sacar a câmera e fazer imagens a qualquer momento. No começo talvez era estranho para ela, e as vezes a Tien me falava diretamente ; “Não quero que você grave isso!” , mas aos poucos fomos nos ajustando e ficou claro para ela que esta não seria a história dela, mas o meu ponto de vista.  Um fato que também ajudou por mais estranho que possa parecer, é que eu não entendo a língua, logo ela se sentia mais a vontade para discutir com o pai ou conversar com a mãe, sendo que eu só entenderia todo o contexto depois. No entanto, assim como no curta “O Caminhão do Meu Pai” eu acho que a linguagem corporal, os gestos e os sentimentos são sempre visuais e era totalmente possível eu compreender que tipo de interação estava ocorrendo na minha frente.
No total foram mais de 2 meses gravando, acompanhando-a no processo de criação da exposição dela, junto com a família e amigos.

Você foi para o Vietnã com outra ideia, não foi?
Eu também tinha um projeto com o Trung Anh, um dos atores de “O Caminhão do Meu Pai”, que era gravar a viagem que ele faz todo ano até o túmulo da família, que fica em uma cidade do interior. Ele foi um dos poucos sobreviventes de um bombardeio aéreo durante a guerra, e o túmulo da família virou o fio de conexão deles com o passado. Então eu já havia levado uma pequena câmera e um gravador de áudio.  Eu acabei gravando bastante material para a pesquisa do longa, e a estória da Tien faz parte deste material. Ainda vou cortar o material que fiz com o Trung Anh e algumas outras entrevistas.

Você foi o responsável pela fotografia e pelo som do curta. Considera que isso te ajudou a entrar na intimidade da família?
Isto foi fundamental. Se tivéssemos uma “equipe”, mesmo que fossem três pessoas, isso já destruiria toda a situação, além de fisicamente ser impossível gravar da maneira como eu gravei. Na cena que ela conversa com a mãe dela, eu me sentei ali atrás da banheira, coloquei a câmera apoiada no meu joelho e fiquei gravando, enquanto a Tien tingia o cabelo, por exemplo.

Você assina também o roteiro, montagem e, é claro, a direção. Quais as vantagens e desvantagens de trabalhar assim? Alguma área te interessa mais? Também trafega entre o documentário e a ficção. Algum gênero te interessa mais?
Eu gosto muito de contar histórias que acho necessárias e me identifico. A história da Tien era importante ser contada, me diz muito sobre o país onde seu pai nasceu e quão diferente é do que ela nasceu.  As estruturas familiares no sudeste asiático e no mundo. Eu também encontro uma ressonância em minha própria família parte ocidental, parte oriental.
As vezes é possível ter uma equipe de fotografia como no curta. Eu adoro trabalhar com o Pierre de Kerchove (fotógrafo), a gente se da super bem no set e com certeza ele vai fotografar meu longa. Mas é impossível eu pedir para ele ficar comigo dois meses no Vietnam gravando pesquisa para o longa. O mesmo vale para o som.
Cada projeto tem uma necessidade diferente. Neste eu acho que o estilo “um homem só” foi o mais adequado. Eu adoro fotografar também, o que vai no quadro é tão importante quanto o que fica fora e isso é um exercício de direção incrível. Eu gosto de pensar nas lentes que vou usar, qual vai ser o “design” do filme e tudo. Mas em um filme maior é necessário uma equipe, colaboradores em todas as áreas, então tudo vai depender do projeto.
Em relação a ficção-documentário, um alimenta-se do outro, as pessoas esperam uma certa lógica na ficção, já na vida, os fatos ocorrem ao acaso, e eu busco dar um sentido quando eu faço a montagem, não um significado final, apenas meu ponto de vista sobre aqueles eventos.

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