É Tudo Verdade 2014: “Bernardes” resgata a história de arquiteto brilhante, mas estigmatizado por trabalhar para o regime militar
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É Tudo Verdade 2014: “Bernardes” resgata a história de arquiteto brilhante, mas estigmatizado por trabalhar para o regime militar

Adriana Plut

04 de abril de 2014 | 10h54

Rio de Janeiro, anos 1970. Um casal ouve algo estranho vindo da sala. A mulher pede para que o marido veja o que está acontecendo e ele encontra um ladrão. Esta história poderia ter muitos desfechos, mas ninguém espera que o dono da casa sente e converse com o ladrão para saber suas histórias, quais são suas necessidades e, de quebra, aproveite para se desfazer de tudo aquilo que não gosta na casa. O arquiteto Sergio Bernardes, da mesma geração de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, não só fez isso como também conseguiu um emprego para o tal ladrão. Esta e outras histórias são contadas no documentário “Bernardes”, que participa da Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens do festival É Tudo Verdade.
Autor de projetos inovadores, como a casa de Lota Macedo Soares (primeira residência com estrutura metálica do País), Sergio Bernardes abre mão de uma bem sucedida carreira como arquiteto de residências e se torna um inventor social, que começa a criar cidades mais inteligentes e soluções para as metrópoles. Também fica marcado pela decisão de trabalhar para a ditadura militar instalada em 1964. A trajetória profissional é associada a sua vida pessoal, também repleta de altos e baixos, com um rompimento brusco com a família.
A história de Sergio Bernardes se revela por meio da busca de seu neto, Thiago, também arquiteto, que sentia a necessidade de conhecer melhor a vida e a obra do avô. “O Thiago já havia dado o primeiro passo, no impulso de gravar depoimentos de contemporâneos do Sergio que estavam envelhecendo”, conta Gustavo Gama, diretor do filme. “Ele tinha medo que a história do avô – que ele próprio desconhecia em detalhes – desaparecesse”. Para Gama, ter Thiago como condutor faz de “Bernardes” uma história universal de busca por raízes. Para o também diretor Paulo Barros, existia há muito um desejo de fazer um registro sobre Sergio Bernardes dentro da família, mas “curiosamente, duas pessoas de fora do círculo familiar acabaram ajudando a conduzir esse processo”.

Trailer Documentário Bernardes 2014 from 6D on Vimeo.

.DOC- Como começou o projeto do documentário “Bernardes”?
 Gustavo Gama – O documentário partiu de uma iniciativa do Thiago, que passou a sentir a necessidade de conhecer melhor a vida e obra do avô e, o mais importante e corajoso de tudo: compartilhar sua busca e suas descobertas com outras pessoas através de um filme. O Thiago já havia dado o primeiro passo, no impulso de gravar depoimentos de contemporâneos do Sergio que estavam envelhecendo. Ele tinha medo da história do avô – que ele próprio desconhecia em detalhes – desaparecesse. Para mim e pro Paulão foi uma grande honra e ainda maior responsabilidade termos tido o acesso que tivemos ao acervo de Sergio e ao mergulho profundo que fizemos dentro da vida passada e presente de uma família.
Paulo Barros – O projeto teve início através de uma necessidade do Thiago de revisitar e porque não dizer, finalmente conhecer a obra do avô. Eu e o Gustavo estávamos trabalhando em parceria com a 6D filmes na época em que esse assunto, que já existia, voltou à tona. O nosso interesse no personagem foi imediato. Passamos por um período longo de pesquisas e conversas com o Thiago e com a última esposa de Bernardes, Kykah. Esse momento foi muito especial para que pudéssemos iniciar o nosso mergulho no universo Bernardes.

Antes disso já conheciam o Sergio Bernandes?
Gustavo Gama – A busca do Thiago foi uma busca minha também. Eu conhecia muito pouco a respeito do Sergio e acho que este distanciamento, esta posição de não-especialista, foi muito importante para o meu mergulho nesta história.
Paulo Barros – Infelizmente não. Ao mesmo tempo, o frescor da descoberta desse homem incrível teve um gosto especial. Foi como abrir um baú de tesouros que poucas pessoas conheciam.

Qual foi a vantagem de ter o Thiago envolvido no projeto?
Gustavo Gama – Não é uma questão de vantagem; o filme só existe por conta desta iniciativa do Thiago. Alguém até poderia fazer um documentário biográfico sobre o Sergio, mas este filme vai muito além disso. É uma história universal de busca por raízes.
Paulo Barros – Acredito que sem o Thiago, teríamos um filme técnico sobre um brilhante arquiteto. Com o Thiago, temos um filme sobre um grande homem, que entre outras coisas, era um brilhante arquiteto.

Isso deu a vocês acesso irrestrito ao espólio do Sergio Bernardes e também a confiança da família?
Gustavo Gama – Esta confiança da família foi conquistada pouco a pouco, ao longo dos anos. O acesso ao acervo é parte da história contada: o filme viabilizou a pesquisa e organização de parte das mais de duzentas caixas com os projetos, esquetes e manuscritos que o Sergio não destruiu em vida. Filmamos muitas destas caixas sendo abertas e revelando aspectos importantes da sua vida e do seu legado. O filme ganhou muita força por conta deste acesso. É importante ressaltar a importância da Kykah Bernardes, última esposa do Sergio e espécie de guardiã de tudo que restou da obra do Sergio. Ela foi uma grande colaboradora para o filme, viabilizando o uso do acervo pessoal da família; sugerindo e contatando entrevistados; sempre dando a maior liberdade para que nós, diretores, pudéssemos seguir adiante com uma investigação verdadeiramente isenta.

Paulo Barros – Poderia dizer que o Thiago nos deu as chaves das portas principais e a Kykah, nos mostrou os mapas de como encontrar os tesouros escondidos. A confiança de todos foi conquistada aos poucos. Há muito, existia um desejo de fazer um registro sobre Bernardes dentro da família. Curiosamente, duas pessoas de fora do circulo familiar acabaram ajudando a conduzir esse processo. Foi um processo bastante cuidadoso e delicado. Frequentemente, estávamos abordando temas que eram tabu dentro da família, mas a honestidade e abertura com que todos nos receberam foi incrível.

A vida de Sergio Bernardes – tanto na esfera familiar como profissional – foi cheia de reviravoltas e fatos marcantes. Ele vivia – e criava – intensamente. Qual parte dessa história mais interessou vocês?
Gustavo Gama – Eu me emociono especialmente com a mudança de escala do seu pensamento e da sua obra. Quando ele rompe com a família e assume uma posição mais radical como pensador e inventor social.
Paulo Barros – Muito difícil destacar uma parte específica da história de Sergio. O que mais me impressiona na trajetória dele é a força com que ele promove as mudanças de rumo em sua vida.

Vocês têm algum trecho favorito no documentário?
Gustavo Gama – Quando Sergio fundou, dentro do seu bem sucedido escritório de arquitetura, o LIC: Laboratório de Investigações Conceituais. Ele corajosamente viabilizou um ambiente multidisciplinar para pensar soluções para o homem no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo.
Paulo Barros – Todas as viradas de rumo que conseguimos contar são especiais. O momento de ruptura com a instituição familiar e momento em que percebemos que o tempo dele vais se acabando sempre me emocionam. Gosto muito desses trechos não só pelo conteúdo, mas principalmente pela forma que a montagem foi feita. Yan Motta, nosso editor,  foi brilhante no equilíbrio entre a emoção e os fatos. Mas tenho que confessar que o caso do ladrão, foi a primeira coisa que li sobre Sergio e apesar de ser quase folclórico, acho muito simbólico sobre a força da personalidade e a capacidade de enxergar a realidade com uma ótica própria, livre de qualquer tipo de regra pré-estabelecida.

Qual aspecto da personalidade de Bernardes mais encantou cada um?
Gustavo Gama – O que mais me encanta na trajetória do Sergio é sua coragem para levar uma vida em busca da liberdade para ser que ele realmente é. A mudança de escala entre o bem sucedido arquiteto de residências para a aristocracia e o inventor social é algo que não estamos habituados a ver por aí. E tudo isso com um humor ácido e extremamente inteligente.
Paulo Barros –  Eu daria um título especial a essa característica: Inventividade magnética infinita!

Foi difícil abordar a fase em que Bernardes trabalhou para os militares?
Gustavo Gama – Percebemos que ali existia um tabu. Tratar desta fase era algo muito sensível mas de extrema importância na busca do Thiago e no nosso mergulho como realizadores. Muita gente evitava abrir esta gaveta e sequer tocar no assunto, mas fico feliz por termos conseguido chegar a uma rica exposição dos fatos daquela época.

O documentário tenta afastá-lo dessa culpa?
Paulo Barros – Não consigo enxergar que Sergio tenha culpa por ter trabalhado para os militares. Ele precisava colocar pra fora suas ideias. Sergio tinha os seus ideais muito fortes e acreditou que poderia mudar aquela realidade se estivesse inserido dentro daquele contexto. Ele, na verdade, foi muito corajoso de enfrentar o poder cara a cara. A única culpa que teve, foi por ter uma certa dose de ingenuidade de acreditar que algo poderia de fato ser alterado dentro daquela máquina cinzenta que foi a ditadura militar.

Foi um meio de redimir a memória do arquiteto?
Gustavo Gama – Nunca tivemos este objetivo e nem acredito que o filme busque cumprir este papel. Mas sem dúvidas acabamos conseguindo apresentar diferentes argumentos que explicam certos avanços e certos recuos que Sergio corajosamente assumiu na sua vida e que acabaram fazendo dele um ser adoravelmente maldito.
Paulo Barros – Não falaria em redenção porque a conotação da palavra nos leva a um entendimento de que algo errado foi feito por ele. O objetivo do filme é manter viva a capacidade de transformar tudo e todos que Sergio tinha. As pessoas que tiveram a oportunidade de conviver com ele sempre relatam algo como se tivessem sido atingidos por um furacão. O filme é uma mínima amostra do poder criativo e revolucionário de Bernardes que merecia ser mostrado para o maior numero de pessoas possível.

Horários de exibição de “A Bernardes” no Festival É Tudo Verdade 2014/ Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens

São Paulo – Livraria Cultura
05/04/2014 às 21h
06/04/2014 às 15h

Rio de Janeiro – Espaço Itaú de Cinema Botafogo
08/04/2014 às 21h
09/04/2014 às 15h

Paulo de Barros e? formado pela UCLA (Los Angeles, CA), em “Film & TV”. Trabalhou como artista de composic?a?o e editor na Casablanca Finish House de Sa?o Paulo e atuou como diretor, editor e coordenador geral de finalizac?a?o da produtora Conspirac?a?o Filmes por sete anos. Como diretor, esteve à frente de projetos para clientes como Tim, Vivo, Natura, Grendene, Coca-Cola, Multishow e GNT, ale?m de vi?deo clipes de Gilberto Gil, Legia?o Urbana e Marisa Monte. Dirigiu as seis u?ltimas edic?o?es do projeto “Xuxa So? Para Baixinhos” e assinou a edic?a?o e o roteiro do longa metragem “B1 – Teno?rio em Pequim”. Em 2013, foi um dos diretores do projeto “Mundo Sem Mulheres”, uma coprodução BBC / Globo / GNT. Em 2014, Paulo finalizou seu primeiro documentário de longa metragem como diretor e roteirista – “Bernardes”, selecionado para a mostra competitiva do festival É tudo Verdade 2014. Atualmente, dirige a primeira temporada da série “Ateliê Urbano” para o canal +Globosat. Filmada em NY, SP e no RJ, a série mostra um panorama da arte de rua nessas três cidades.

Gustavo Gama Rodrigues é mestre em documentário pela University of London. Escreve, dirige e produz conteúdo de não-ficção para clientes como BBC, Channel 4 UK, National Geographic US, History Channel, Arte France, Red Bull Media House, HBS/FIFA, TV Globo e Globosat desde 1996. Foi nomeado ao Emmy Awards em 2004 pelo trabalho realizado no reality show “The Amazing Race” para a CBS norte-americana. É produtor executivo dos documentários de longa-metragem “B1- Tenório em Pequim”, lançado comercialmente em 2010 e exibido em inúmeros festivais internacionais, e “Democracia em Preto e Branco”, coproduzido pela ESPN Brasil e Tv Zero e selecionado para a Mostra Competitiva do festival É Tudo Verdade 2014. Como diretor, está lançando em 2014 o documentário de longa-metragem “Bernardes” também na Mostra Competitiva do É Tudo Verdade; a webserie “O Coroado” sobre o jogador de futebol Neymar Jr. e a serie “Embarcados”, filmada em Papua Nova Guiné para o canal OFF / Globosat.

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