Diretor de “Mentiras Sinceras” fala sobre seu documentário, exibido nesta quarta pelo Canal Brasil
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Diretor de “Mentiras Sinceras” fala sobre seu documentário, exibido nesta quarta pelo Canal Brasil

Adriana Plut

25 Setembro 2013 | 02h58

Quando o ator Malvino Salvador convidou Pedro Asbeg para registrar os ensaios e apresentações da peça “Mente Mentira”, desde o início o cineasta teve o cuidado de não transformar o filme em apenas um making of da montagem teatral. Entre o desafio de fugir de um formato “careta e chapa-branca” e a dificuldade de tornar a equipe o mais invisível possível para os atores, Asbeg foi criando a linguagem de seu primeiro longa-metragem, que combina imagens dos bastidores da peça (gravadas ao longo de 14 meses) a depoimentos reais e fictícios dos atores, além de imagens de seu arquivo familiar gravadas em Super-8. É assim, aos poucos, que o espectador vai descobrindo a história de “Mente Mentira”, do dramaturgo americano Sam Shepard, e o processo de construção da peça, com os atores evoluindo dentro de seus papéis. Depois de estrear na Première Brasil do Festival do Rio de 2011 e ser exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, “Mentiras Sinceras” será exibido pela primeira vez na TV nesta quarta-feira, dia 25 de setembro, às 22h, no Canal Brasil. Nesta entrevista, concedida por e-mail, Pedro Asbeg fala sobre os desafios de “Mentiras Sinceras” e também de seu novo longa-metragem “Democracia em Preto e Branco”, que retrata o período da redemocratização do País e o início do Rock Brasil tendo como fio condutor o movimento ideológico que marcou o Corinthians nos anos 80.

.DOC – Você foi convidado pelo ator e produtor Malvino Salvador para registrar os ensaios e apresentações da peça “Mente Mentira”, e foi assim que surgiu o documentário “Mentiras Sinceras”, certo?

Pedro Asbeg – Sim. Trabalho há muitos anos com o diretor de “Mente Mentira”, Paulo de Moraes, e há tempos pensávamos num documentário que mostrasse o processo de construção de uma peça. Quando o Malvino disse ao Paulo que gostaria de registrar a montagem de “Mente Mentira”, o Paulo sugeriu meu nome e assim fui convidado.

.DOC – Como foi ter sido escolhido para dirigir este filme e não ter escolhido o tema você mesmo? Como acredita que essa “inversão” afetou seu trabalho?

Pedro Asbeg – Realmente esse processo foi uma novidade, afinal geralmente eu escolho os assuntos sobre os quais quero tratar nos meus filmes. No entanto, esse era um tema que já me interessava há muito tempo e não senti grandes dificuldades para seguir este caminho menos ortodoxo, até porque tive liberdade total desde o primeiro minuto. A certeza de que estávamos com o pensamento na mesma direção veio no primeiro encontro com o Malvino, quando levamos pra reunião o mesmo filme que tínhamos como referencia: “Ricardo III”, espetacular filme do Al Pacino.

.DOC – Qual foi o papel do Malvino Salvador na produção do documentário?

Pedro Asbeg – O Malvino, produtor executivo do filme, além de propor e idealizar o documentário, foi muito importante para conseguirmos parcerias que viabilizaram o trabalho e, claro, trouxe opiniões a respeito do caminho que seguimos durante a montagem do filme, assim como todo o elenco.

.DOC – Como foi o trabalho com os atores da peça?

Pedro Asbeg – A relação foi crescendo aos poucos, afinal quase ninguém me conhecia e os atores estavam muito expostos, principalmente no início do processo, quando a peça ainda estava sendo descoberta. Lentamente, eles foram se acostumando com a presença da equipe até que a partir de um determinado momento tínhamos a certeza de que estávamos invisíveis para eles.

.DOC – Qual foi o maior desafio que você encontrou em “Mentiras Sinceras”? Foi fugir do formato making of ou de teatro filmado?

Pedro Asbeg – Acredito que o maior desafio tenha sido construir a relação de confiança com os atores. Sem isso, o filme não existiria. Depois, claro, vêm todos os percalços inerentes à produção de um longa-metragem. Questões técnicas de captação de áudio de dez canais ao mesmo tempo, câmera na mão o tempo todo, montagem não linear e orçamento ultra apertado são algumas dificuldades que fizeram parte de todo o processo. Além disso, desde o início eu tinha a preocupação em fazer um filme e não um making of, um formato careta e chapa-branca. Conforme as filmagens foram avançando e as ideias aparecendo, o filme foi nascendo naturalmente, principalmente no conceito da fotografia e da montagem. Quando encontrei um material perdido de arquivo familiar rodado em Super-8 e resolvemos testar na montagem, percebemos que tínhamos certamente um filme nas mãos.

.DOC – No documentário, você faz um jogo entre realidade e ficção. Como conseguir este efeito? Se inspirou em filmes como “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho, por exemplo?

Pedro Asbeg – O tema central de “Mente Mentira” é a construção da realidade dentro de nossas mentes. Ou seja, muitos são os momentos na peça em que não sabemos o que é real ou não. Usei a mesma premissa em “Mentiras Sinceras” e fiz um documentário em que essa dúvida continua existindo. Além de me aproveitar do texto da peça, que já dá muito espaço para variadas interpretações, durante a rodada de entrevistas com os atores pedi que eles respondessem certas perguntas “interpretando” seus personagens. Quando misturamos as respostas “reais” com as “ficcionais”, começou a nascer um filme híbrido que lembra um pouco o artifício usado em “Jogo de Cena”.

.DOC – Fale um pouco sobre o seu novo projeto, o “Democracia em Preto e Branco”. Pode contar como foi a escolha deste tema, que é totalmente diferente do seu documentário anterior?

Pedro Asbeg – Sou fanático por futebol, já fiz (e continuo fazendo) muitos trabalhos que têm este esporte como tema central. Acho inclusive que o futebol deveria estar mais presente na filmografia nacional, dada a relevância cultural que ele tem no Brasil. Felizmente, aos poucos, esse desequilíbrio vai se desfazendo, com mais filmes e programas de televisão sendo produzidos. A história da Democracia Corintiana, seus personagens principais e o período em que ela aconteceu são muito ricos e sempre me instigaram a fazer uma pesquisa mais profunda sobre o tema. Aos poucos, percebi que ainda não havia um filme que contextualizasse a “Democracia” dentro do Brasil, que existiu justamente num momento em que a ditadura balançava e o rock brasileiro nascia. Em 2010, decidi correr atrás desse trabalho e três anos depois o filme está quase pronto.

.DOC – Você entrevistou diversas personalidades para seu novo filme. Pode citar algumas? Qual foi a mais emocionante? E a mais relevante?

Pedro Asbeg – Para esse filme realmente tive a chance de conversar com muitas pessoas que admiro. Foram mais de 30 entrevistas e entre as mais legais eu destacaria a dos músicos Edgar Scadurra, Frejat e Paulo Miklos, do ex-jogador Zé Maria, do jornalista Ricardo Kotscho e do escritor Marcelo Rubens Paiva. As mais emocionantes, sem dúvida, foram as dos ex-jogadores Magrão (Sócrates) e do Casão (Walter Casagrande). Não posso deixar de mencionar o momento em que gravamos a locução do filme com a Rita Lee. No fim, muitas emoções nessa que sem dúvida é uma das grandes recompensas da profissão.

.DOC – “Democracia em Preto e Branco” está em qual fase de produção? Quando o filme será lançado?

Pedro Asbeg – Terminamos a montagem do filme há um mês e estamos agora no longo e caro processo de compra de material da arquivo. Nossa vontade é estrear o documentário no “É Tudo Verdade” do ano que vem. Precisamos ter o filme pronto e, claro, agradar os curadores…

Pedro Asbeg

Cineasta, formado na Westminster University, de Londres. Em 1997, ao lado do amigo Felipe Nepomuceno, fundou a produtora Raça Filmes na qual, ao longo de 10 anos, produziu mais de 30 documentários de curta-metragem. Em 2005, filmou o documentário “Geraldinos” (em processo de montagem, com lançamento previsto para 2014), que registra os dez últimos jogos disputados no Maracanã antes da extinção do setor da geral. Em 2009, montou “Cidadão Boilesen”, vencedor do festival É Tudo Verdade daquele ano. Em 2011, montou os documentários de longa-metragem “Vou rifar meu coração”, de Ana Rieper e “Carta para o futuro”, de Renato Martins, que estrearam nos festivais de Brasília e do Rio, respectivamente. No mesmo ano, “Mentiras Sinceras”, seu primeiro longa-metragem como diretor, estreou no Festival do Rio.