Documentário “Dominguinhos” mostra vasta importância musical do sanfoneiro; estreia nesta quinta (22.5)
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Documentário “Dominguinhos” mostra vasta importância musical do sanfoneiro; estreia nesta quinta (22.5)

Adriana Plut

21 de maio de 2014 | 22h33

Dominguinhos compôs canções que se tornaram clássicos e expandiu as possibilidades da sanfona, do forró, da música nordestina e sempre permaneceu humilde e fiel às suas raízes. Apesar de já ser um artista consagrado, os jovens músicos Eduardo Nazarian, Mariana Aydar e Duani sentiam que o grande publico ainda não tinha ideia da importância musical de Dominguinhos e resolveram contar a história do sanfoneiro em um documentário. De lá para cá seis anos se passaram, e nesta quinta-feira (22.5) finalmente estreia “Dominguinhos”, um filme que mostra a relevância da obra de um músico que não fazia distinção entre tocar em uma sala de concerto ou uma casa de reboco. “Queríamos mostra-lo fora da ‘prateleira’ da música regional ou nordestina”, explica Nazarian, que assina a direção do filme ao lado de Mariana Aydar e Joaquim Castro.
O filme mudou muito ao longo do processo. Inicialmente, a história de Dominguinhos seria contada por meio de encontros com grandes nomes da música brasileira. Participaram parceiros que marcaram época na carreira do artista, como Elba Ramalho e Gal Costa, e a nova geração influenciada por ele, como Mayra Andrade, Yamandu Costa e Hamilton de Holanda. Depois os produtores chegaram à conclusão que para mostrar a importância musical de Dominguinhos seria preciso usar mais imagens de arquivo, e foi feito um novo corte que prioriza Dominguinhos contando sua própria história. “Nossa ideia inicial sempre foi mostrar o Dominguinhos na sua abrangência, revelar sua trajetória de mais de 60 anos de carreira, de maneira musical, poética e subjetiva, sem depoimentos de terceiros”, diz Nazarian. “Nossa maneira inicial de tentar construir isso, foi realizando encontros musicais, mas no processo de montagem fomos percebendo que para traçar essa narrativa, dar conta de toda essa trajetória de 60 anos de carreira, não poderíamos utilizar predominantemente seus 3 últimos anos de vida, que é o que tínhamos filmado”. Os encontros foram transformados em uma web série que complementa o filme, chamada de “Dominguinhos +”.
A versão final ou a websérie nunca foram vistas por Dominguinhos, que morreu em julho de 2013 em decorrência de um câncer. “Mostramos um trecho do documentário para ele. Ele ficou muito emocionado, chorou e pediu para parar”, conta. Nesta entrevista, Eduardo Nazarian revela como foi conviver com o sanfoneiro em seus últimos anos de vida, fala sobre a mudança narrativa do documentário e também sobre seus trechos favoritos do filme, “feito de maneira muito generosa, colaborativa e não autocentrada, características marcantes do próprio Dominguinhos”.

Joaquim Castro, Mariana Aydar e Eduardo Nazarian, diretores do documentário “Dominguinhos”

Como foi a construção do documentário para você? Qual foi o papel de cada um dos diretores nesse processo?
Eduardo Nazarian – Foi uma ideia que surgiu quase como um sonho ingênuo, de três jovens músicos, eu Mariana e Duani de mostrar a música de Dominguinhos no lugar em que acreditávamos que ela deveria estar.
Ele representava um pedaço fundamental de uma história, de uma tradição e de uma cultura musical que apesar do enorme legado, e de inúmeros seguidores, completa e encerra uma tradição, e não deixa herdeiros.  Sua trajetória musical dialogou intimamente com aspectos cruciais da história musical brasileira, como a popularização da música nordestina no sul do país, a urbanização do forró, o apogeu e declínio das orquestras de rádio, o surgimento da geração de grandes músicos nas noites cariocas dos anos 1960, o ostracismo da sanfona e da música nordestina com o surgimento da bossa nova, e sua redescoberta pelas gerações posteriores.
Ele compôs canções que se tornaram clássicos do nosso cancioneiro, tocava em feiras nordestinas, rodas de choro, clubes de jazz, salas de concerto ou casas de reboco com a mesma naturalidade, era referência e ídolo de várias gerações e criou uma obra ao mesmo tempo regional e universal, que encantava pela mais singela beleza e impressionava pelo virtuosismo os mais experimentados músicos mundo afora. Expandiu as possibilidades da sanfona, do forró e da música nordestina.
Apesar de já ser um musico consagrado quando surgiu essa ideia, sabíamos que sua musica e sua figura artística estavam para o grande publico muito aquém do que ela significava. Queríamos mostra-lo fora da “prateleira” da música regional ou nordestina. Mostrar o homem por baixo do chapéu de couro.
Foram seis anos de pré-produção e produção propriamente dita, sem contar alguns anos do amadurecimento e viabilização da ideia, que ocorreu com a entrada da produtora Big Bonsai na historia.
Originalmente a direção seria assinada coletivamente. No decorrer do processo e com as mudanças conceituais e estéticas que estabelecemos a partir de 2013, assumimos a direção, eu, a Mariana Aydar e o Joaquim Castro – a quem chamamos naquele momento como montador, e que acabou assumindo a direção também. Foi uma equipe que contou com músico, roteirista, montador, fotógrafos, pesquisador, produtor e etc. Cada um trazendo o seu saber, e dando sua contribuição para chegarmos ao que temos hoje. É um trabalho essencialmente coletivo. Um trabalho feito de maneira muito generosa, colaborativa e não autocentrada, características marcantes do próprio Dominguinhos.
Nesse processo vale destacar a entrada do Di Moretti, figura fundamental que deu forma, colocou no papel literalmente, a leitura mais poética e subjetiva que tínhamos idealizado como narrativa, e do Felipe Briso que foi diretor de cena da maior parte das imagens gravadas para o documentário, e da Deborah Osborn, produtora que conduziu esse trabalho.

O projeto existe há seis anos, e nesse tempo a estrutura narrativa do documentário mudou bastante. Qual era a ideia inicial de cada um de vocês? E por que decidiram priorizar as imagens de arquivo?
Eduardo Nazarian – Nossa ideia inicial sempre foi mostrar o Dominguinhos na sua abrangência, revelar sua trajetória de mais de 60 anos de carreira, de maneira musical, poética e subjetiva, sem depoimentos de terceiros. Nossa maneira inicial de tentar construir isso, foi realizando encontros musicais com músicos que fossem representativos de momentos da trajetória do Dominguinhos, e através desses encontros ir construindo sua historia. Assim tínhamos Hermeto representando a infância, em comum, no nordeste, de autodidatas, Joao Donato, que representa os anos 1950 e 1960 no Rio de Janeiro, e assim por diante.
No processo de montagem e já em contato com diversas imagens de arquivo – aqui vale destacar o trabalho da Eloa Cheouzal – fomos percebendo que para traçar essa narrativa, dar conta de toda essa trajetória de 60 anos de carreira, não poderíamos utilizar predominantemente seus 3 últimos anos de vida, que é o que tínhamos filmado.

Qual é o seu trecho favorito do documentário? Quanto às imagens de arquivo, existe alguma que considera especialmente significativa?
Eduardo Nazarian – Difícil escolher uma imagem de arquivo só. Dominguinhos foi relativamente bem retratado a partir do final dos anos 1960 e tivemos até que deixar de lado coisas muito boas por não ter espaço no filme. Mas as imagens dele com Luiz Gonzaga que temos em diversos momentos do filme – desde um de seus primeiros shows juntos, até uma das últimas apresentações de Gonzaga –  são muito tocantes.

Como foi a convivência com Dominguinhos nos últimos anos de vida dele? Conseguiram mostrar algum corte do documentário para ele?
Eduardo Nazarian – Foi bonita, intensa , nem sempre fácil.  Durante três anos o acompanhamos continuamente, de salas de concerto à casas de reboco. Testemunhamos alguns dos momentos mais marcantes de uma das manifestações mais inspiradas que a musica brasileira já produziu. Presenciamos encontros e despedidas, esplendores e misérias, ouvimos historias, lembramos saudades. Vimos Juazeiros, Assuns Pretos e Asas Brancas e todo o Sertão Nordestino brotar em uma tarde musical com Hermeto Paschoal. Escutamos historias de amizade, da estrada, da vida, de morenas e xodós na conversa com Gilberto Gil. Revivemos o balanço dos inferninhos, das noites cariocas dos anos 60 no trio formado com João Donato e Wilson das Neves. Vimos com Lenine, luzes e arrebóis produzindo seu brilho mais intenso ao mesmo tempo que iam se apagando. Fomos no começo, no Sertão, e acompanhamos até o final, a sua travessia. Presenciamos sua luta contra a doença, sua vontade de viver e de fazer musica.
Mostramos um trecho do documentário para ele. Ele ficou muito emocionado, chorou e pediu para parar.
Ele era muito humilde, nunca se viu como “artista”. Aprendeu musica em casa, na rua, nas festas, nas rodas e trios nordestinos, onde não há distinção clara entre improviso e composição, brincadeira e trabalho, e independentemente de onde e como, o que importa é cumprir seu sagrado ofício, seja ele esquentar uma noite de São João, levar a alguém um alento ou alegrar uma festa.
Fico muito triste por ele não ter tido a chance de se ver dessa maneira, inteira, como o grande artista que foi.

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