Uma questão de gênero

Estadão

24 de fevereiro de 2011 | 15h02

Não gosto muito de discussões de gênero, por isso demorei a tratar aqui do assunto deste post (embora tenha tuitado a notícia quando saiu): uma pesquisa, divulgada semanas atrás em sites gringos, sobre o fato de grandes suplementos literários em língua inglesa terem muito menos resenhistas mulheres que homens, e também resenharem muito menos livros delas do que deles.

Vamos à pesquisa, e depois explico por que resolvi abordar o assunto agora.

A organização Vida: Women in Literary Arts dissecou vários jornais e revistas dedicadas à literatura ao longo de todo o ano de 2010 e constatou diferenças gritantes. Por exemplo, o New York Review of Books teve 39 resenhistas mulheres ante 200 homens assinando resenhas no período; além disso, publicou resenhas sobre 59 livros delas ante 309 livros deles. A New Yorker, por sua vez, teve só 8 colaboradoras ante 29 colaboradores; e 9 títulos de mulheres resenhados ante 36 títulos de homens.

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Arrufos (1887), de Belmiro de Almeida

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A abordagem da qual senti falta na pesquisa: no que diz respeito ao número de livros resenhados, isso não é um reflexo da quantidade menor de obras publicadas por elas do que por eles? Não sei se é uma diferença grande de fato, mas se o levantamento englobasse a proporção de livros publicados por gênero ficaria mais fácil entender se a disparidade no número de resenhas resulta de algum preconceito de editores ou é apenas uma herança de um mercado editorial eminentemente masculino no passado.

Não tenho dados sobre isso, só uma experiência pessoal. No ano passado, quando fiz uma enquete com 60 autores brasileiros sobre o caminho até a publicação do primeiro livro, levando em conta autores já publicados por grandes editoras, foi bem mais fácil encontrar  exemplos masculinos que femininos (no total, participaram 41 homens e 19 mulheres. Uma minoria de homens e de mulheres não respondeu ao questionário que mandei, não lembro quantos foram).

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Enfim. Resolvi tratar da questão aqui porque anteontem saiu um artigo com respostas de vários editores sobre a pesquisa, e achei que os argumentos ajudam a entender a numeralha.

Seguem alguns trechos que me chamaram a atenção:

David Remnick, editor da New Yorker (e que participa da Flip deste ano):  “Você está certa (em artigo sobre o tema publicado no dia 2 na Slate). Certamente tem sido uma preocupação antiga entre os editores aqui, mas temos de melhorar ainda – é tão simples e gritante assim”

Ellen Rosenbush, editora da Harper: “A Harper sempre publicou grande escritoras mulheres, de Edith Wharton a Jane Smiley a Joyce Carol Oates, Sallie Tisdale, Susan Faludi, Lynn Freed, Rivka Galchen — e planejo solicitar mais textos de escritoras. Quando me tornei editora da Harper, no ano passasdo, uma das primeiras coisas que anunciei para a equipe foi que gostaria de ver mais escritoras na revista. A escassez de histórias femininas, no entanto, é uma questão da indústria como um todo. Deve haver uma espécie de ressaca do passado que resultou em termos menos textos de mulheres, e eu gostaria de mudar essa equação.

Robert Silvers, editor da New York Review of Books: “Posso apenas esperar que nossos leitores apreciem a qualidade dos trabalhos de mulheres que publicamos. Ouvi de mulheres assinantes que elas ficam particularmente agradecidas por nossas contribuições femininas. Certamente esperamos publicar mais.”

Jonathan Chait, editor sênior do New Republic: “A maior parte dos homens no nosso negócio quer ficar longe dessa questão, porque entrar nesse debate sem endossar a resposta feminista é como se voluntariar como réu num julgamento por sexismo (…). Estou me voluntariando para responder (como escritor, não em nome da revista, ele esclarece) porque é uma questão que me preocupa há muito tempo. Presenciei conversas nas quais editores se davam conta de que a lista de colaboradores era muito masculina e tentavam remediar isso. (…) Dito tudo isso, a revista permanece eminentemente masculina. Minha explicação, que não posso provar, é que garotos são mais predispostos a se interessar tanto por produzir quanto por consumir jornalismo opinativo (…).”

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E você? Tem alguma opinião sobre isso tudo?

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