O gênio e o monstro

Estadão

19 de fevereiro de 2011 | 11h47

Dos filmes que estrearam em 2010, O Escritor Fantasma, de Roman Polanski,  foi meu preferido. O suspense lidera indicações para o Cesar, que será entregue na França no próximo dia 25, mas na cerimônia do Oscar, dois dias depois, não se verá menção a ele. Polanski é acusado de drogar uma menina de 13 anos e fazer sexo com ela quando morava em Los Angeles, nos anos 70, e sua obra se tornou non grata junto com sua persona nos EUA.

Gosto tanto dos filmes que ele dirige que já me peguei tentando minimizar a história, em parte influenciada pelo elogio ao diretor que é o documentário Wanted and Desired, em parte apoiada pela apuração de Peter Biskind em Easy Riders, Raging Bulls, cuja descrição da Hollywood dos anos 70, repleta de histórias pesadas envolvendo sexo e drogas (e ele mal toca no caso Polanski), faz entender por que tantos atores e diretores o defendem. Depois concluí que não tenho nada que defender o indefensável. Embora a própria vítima já o tenha perdoado (mais em nome de sua própria paz, já que a imprensa revirava sua vida toda vez que o assunto voltava à tona), é um assunto delicado e complexo demais para alguém que nem tinha nascido quando tudo aconteceu pensar que pode entender.

E aí cabe a pergunta: é possível celebrar a obra de alguém cujas atitudes ou convicções pessoais causem repulsa? Ou, olhando por outro ângulo: é justo desmerecer uma criação artística genial pelos desvios de personalidade de quem está por trás dela?

O assunto veio à tona com o cancelamento das celebrações dos 50 anos de morte de Louis-Ferdinand Céline na França, escritor considerado um dos maiores da língua francesa e também antissemita. A polêmica foi abordada por Mario Vargas Llosa num belíssimo artigo traduzido no Sabático de hoje. Para acompanhar esse texto, falei com três brasileiros ligados de alguma maneira à obra de Céline e me impressionei com o quanto as opiniões podem divergir num assunto como esse. Recomendo ler o texto do Llosa e, se sobrar um tempinho, dar uma olhada no meu, abaixo.

Update em 21/2: leia mais sobre a questão neste post.

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Intelectuais se dividem quanto à forma de encarar panfletos produzidos na ascensão do nazismo


Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

O escritor Milton Hatoum morava em Paris, no início dos anos 80, quando a obra de Louis-Ferdinand Céline passou por uma espécie de resgate, relançada com pompas após décadas de obscuridade. Na ocasião, imprensa e crítica foram unânimes em apontá-lo como um dos maiores autores em língua francesa. “A obra dele demorou a ser reavaliada após a 2.ª Guerra”, comenta. Foi com surpresa que o colunista do Estado acompanhou a atual rejeição ao romancista por parte de seus conterrâneos devido à militância antissemita. Hatoum arrisca uma análise: “A visão das artes mudou muito na França. As pessoas estão menos interessadas em literatura; a discussão ficou simplista.”

Tanto não é debate simples que o amazonense, admirador de obras como Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito, não tem o menor interesse em conhecer os virulentos panfletos antissemitas que Céline escreveu entre 1936 e 1941, em plena ascensão nazista. “É evidente que discordo visceralmente da posição dele nesse ponto. Mas também discordo de Borges, que apoiou os militares na Argentina e foi condecorado pelo Pinochet no Chile. E, no entanto, é impossível não lê-lo.”

Os panfletos – foram quatro – não são mais editados na França, embora estejam disponíveis para download na internet e possam ser encontrados na Universidade de Paris 7, onde há um centro de estudos celinianos. Pós-doutorada na obra do francês, Leda Tenório da Motta, professora de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, vê importância literária inclusive nesses textos. “Os panfletos de Céline são considerados pela melhor crítica francesa como uma fase intermediária, que leva ao auge da obra dele. Ali ele formula em definitivo seu estilo da ira, hiperbólico.” O fato de se tratar de convicção pessoal, em vez de representação ficcional, não reduz, para ela, o valor poético, “se for levado em conta o estilo”. “São textos mais sombrios que antissemitas. Apesar de carregarem um antissemitismo eminentemente francês da época, carregam também um clamor contra o capitalismo americano, por exemplo.”

O tradutor e professor da Unicamp Marcio Seligmann-Silva não vai tão longe na defesa à obra do autor, que pôs no papel frases como “os judeus racialmente são monstros, são híbridos, quistos que incomodam e devem desaparecer” (em Bagatelles Pour Un Massacre, de 1937). Mas faz coro com Leda na opinião de que, ao lado de Proust, Céline foi responsável pela melhor ficção da França do século passado. Seligmann avalia que uma característica não anula a outra. “É fácil dizer que tudo é literatura, mas há momentos em que a escrita se torna apenas política. É preciso perceber os limites.”

Para o tradutor, a solução está em manter a tensão entre a admiração pelo gênio e a repulsa ao antissemita. “Entendo que um governo tenha cuidado em enaltecer a memória de alguém que teve essa postura num momento recente da história. A obra de arte não machuca, mas um panfleto pode levar à morte.”

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