Matemática literária

Estadão

05 de outubro de 2010 | 18h38

Dias atrás, li um tweet sobre o nome então mais cotado para o Nobel de Literatura deste ano, o poeta sueco Tomas Transtromer. Nunca tinha ouvido falar na peça, então antes de tudo fiz busca básica nos sites da Folha, do Globo e do Estadão para saber o que tiveram os principais cadernos literários a dizer sobre ele. Para constatar que pelo menos desde 1996 o nome dele só saiu na grande imprensa nacional quando apareceu como candidato provável ao Nobel nas casas de apostas.

O fato de ser pouco conhecido por aqui não tira nada do mérito dele, dadas as nossas lacunas editoriais, mas a recorrência do nome no topo da lista há mais de uma década prova que essas cotações com antecedência são quase tão certeiras quanto chutes na Mega Sena. Descontado o meu exagero, é claro.

O que aconteceu, nos últimos anos, foi de informações privilegiadas vazarem. Daí que a vencedora do ano passado, a alemã de origem romena Herta Müller, escalou de forma vertiginosa do pé da lista para o primeiro lugar na véspera de ter o nome anunciado, mais ou menos como aconteceu em 2008 com o francês Jean-Marie Le Clézio. De resto, apesar de toda a matemática especulativa que se faz acerca do Nobel (há quanto tempo um poeta não é agraciado, há quantos anos um asiático ou um latino-americano não é lembrado, qual nome seria politicamente interessante etc), ela nunca bate com os resultados da matemática diplomática feita pela Academia.

A dois dias do anúncio do prêmio de Literatura, Tomas Transtromer já não está em primeiro na Ladbrokes, posição ocupada agora pelo queniano Ngugi wa Thiong’o. Mais uma vez, nenhuma referência a ele na Folha nem no Estadão, e uma única no blog do Carlos Alberto Mattos, no Globo: o autor foi personagem de um documentário exibido no É Tudo Verdade de 2007, Quem Tem Medo de Ngugi, sobre seu retorno ao Quênia após anos de exílio (imagem abaixo).

O segundo e o terceiro lugares entre as apostas ficam com Cormac McCarthy e Haruki Murakami – a última americana a ganhar foi Toni Morrison, em 1993, e o último japonês, Kenzaburo Oe, no ano seguinte, o que teoricamente depõe a favor dos dois. De resto, o que se tem é uma lista com os suspeitos de sempre.

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Update em 6/10: Cormac McCarthy é o novo líder nas apostas da Ladbrokes para o Nobel. Mais ou menos como foi nos últimos anos, com informações vazadas sobre Herta e Le Clezio fazendo os dois subirem de última hora. A ver.

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