Do Portugal Telecom

Estadão

10 de novembro de 2010 | 16h01

Dessas imagens que dizem mais que mil palavras, a foto abaixo, feita por Leonardo Soares, da Agência Estado, dá uma dimensão do que foi a entrega do Portugal Telecom na noite de segunda-feira – Jô Soares entregando o prêmio para Chico Buarque, mas parecendo tentar puxar para si próprio o troféu.

Como me escreveu um autor hoje pela manhã, após ler o texto que fiz para o Caderno 2 (e que segue abaixo), “aproveitar o Chico para fazer escada é demais mais mais”.

Sobre o resultado… Leite Derramado “não é mau”, como argumentou Chico. Vi muita gente fazendo críticas pesadas ao romance, do qual até gostei. O caso é que, levando em conta aspectos puramente literários, havia concorrentes mais fortes, como O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho (ainda não consegui parar para ler A Passagem Tensa dos Corpos, do Carlos de Brito Melo, nem Pornopopeia, do Reinaldo Moraes, dois que foram muito elogiados por pessoas cuja opinião respeito).

Mas prêmios nunca existiram para fazer algum tipo de justiça divina. E quem quiser discordar que faça parte da curadoria do próximo…

.

***

“Merecia estar entre os primeiros”

Chico Buarque, vencedor do Prêmio Portugal Telecom por Leite Derramado, diz que livro “não é mau”

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

“Não li todos, não sei se mereço o prêmio, mas merecia estar entre os primeiros, talvez”, disse Chico Buarque, ontem, após ganhar o Prêmio Portugal Telecom, um dos mais importantes para obras em língua portuguesa, por Leite Derramado (Companhia das Letras). “O livro não é mau.”

O resultado, anunciado em cerimônia comandada por Jô Soares, já era esperado entre os presentes na Casa Fasano desde que, no início da noite, soube-se que o músico confirmara presença. O mesmo havia acontecido na quinta passada, quando ficou em segundo lugar na categoria romance do Prêmio Jabuti, mas levou a honraria na categoria principal de ficção, de livro do ano.

Pelo Portugal Telecom, Chico recebeu R$ 100 mil. Em segundo lugar, ficou o romance Outra Vida (Alfaguara), de Rodrigo Lacerda, que levou R$ 35 mil, e, em terceiro, o volume de poemas Lar, (Companhia das Letras), de Armando Freitas Filho.

“Sou meio responsável por este prêmio. Falei: ‘Se o Chico não ganhar eu não vou'”, emendou Jô após o anúncio. Ansioso para chamar o músico ao cenário montado no formato de seu programa de TV, o apresentador nem citou os outros seis finalistas. Além dos vencedores, estavam indicados AvóDezanove e o Segredo do Soviético, do angolano Ondjaki (único não brasileiro entre os concorrentes), A Passagem Tensa dos Corpos, de Carlos de Brito e Mello, O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho, Pornopopeia, de Reinaldo Moraes, Olhos Secos, de Bernardo Ajzenberg, e Monodrama, de Carlito Azevedo.

O romance Caim, de José Saramago, foi retirado da disputa na semana passada a pedido da Fundação Saramago e da Companhia das Letras. A organização optou por homenagem, com a presença da viúva do escritor, Pilar del Río. Ao lado da escritora Nélida Piñon, ela foi chamada ao palco no início da noite para falar sobre o autor e a fundação antes da exibição de trechos do documentário José & Pilar.

Depois de anunciar os vencedores, Jô perguntou a Chico se ele não achava uma injustiça ter sido premiado por apenas dois (“três”, corrigiu o músico) de seus quatro romances. “Acho”, respondeu o autor, em tom de brincadeira. Jô então o questionou sobre o fato de se considerar ou não um escritor amador. “Eu não, mas as pessoas me consideram”, respondeu o músico, ao que o apresentador aproveitou para fazer propaganda em causa própria: “Pergunto isso porque lembro de uma crítica do Wilson Martins que dizia que você e eu éramos amadores. Só que àquela altura nossos livros já tinham vendido barbaridade!”

Chico disse achar natural que as pessoas tenham restrição a escritores que não escrevam em tempo integral – bissexto, ele lançou o primeiro romance em 1991 (Estorvo) e os outros vieram em 1995 (Benjamin), 2003 (Budapeste) e 2009 (Leite Derramado).

“É difícil dissociar o narrador da pessoa pública. As pessoas pensam que o livro faz sucesso porque o autor tem um programa de TV ou é compositor. Mas não acho chato isso, não. Se eu visse um outro compositor ou apresentador que escrevesse um livro, talvez eu desconfiasse de que não fosse bom. Isso é muito natural”, concluiu.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: