Da interatividade

Estadão

13 de abril de 2010 | 01h16

Vi, enfim, Fahrenheit 451, a adaptação do Truffaut pro romance do Ray Badbury em que bombeiros queimam ficções, biografias e afins num governo totalitário para o qual livros são nocivos para a sociedade – e no qual uns so-called “homens-livros” precisam resgatar as histórias do esquecimento por meio de suas memórias, decorando-as palavra por palavra (o que, aliás, me faz pensar o quão perigoso seria depender da memória de uma Raq-livro para eternizar um romance).

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Não tenho habilidade crítica para comentar o quanto é lindamente filmado, mas, num primeiro momento, tudo ali no roteiro me lembrou um episódio de Monty Python, tão bizarra e ostensiva a premissa, com a diferença da intenção do filme de passar uma mensagem séria. É nos detalhes que transparece a genialidade.

Por exemplo, a cena em que Linda, mulher do protagonista, Montag, “participa” de um programa de TV – ela na sala de casa, dois atores na tela. A ideia é que ela tenha falas no programa. Dois personagens discutem como organizar uma festa e lançam, olhando para a câmera, perguntas como: “Devemos deixar Madeleine na cabeceira na mesa, não é? O que você acha, Linda?”. Ao que ela responde variações de: “Sim, claro! Absolutamente!” .

É visionário, por vários motivos. Pra começar, o filme é de 1966 (e o livro, de mais de uma década antes, 1953) e, quando ninguém falava disso, o casal Linda e Montag tem em casa uma espécie de home theater. Modesta em proporções, vá lá, mas um home theater em 66! E daí que a cena é toda baseada na interatividade – que nós, brasileiros, viríamos a conhecer em 1992, com o Você Decide, e que só viria a ser entendida mesmo em tempos de internet. Que tal o poder de se sentir parte daquilo?

Mas nada tão bom como o modo como a tal interatividade acontece.

Os diálogos me fizeram lembrar do Eduardo Vicente, o melhor professor de matemática que já passou por Petrópolis. Que, depois de meses conseguindo respostas certas dos alunos para as perguntas mais cabeludas, comentou: “Vocês já notaram que só respondem certo porque termino as perguntas com um ‘não é’? Tipo: ‘O xis do vértice é menos B sobre 2A, NÃO É?’. Agora, se dissesse: ‘Parem para pensar, dois mais dois NÃO É igual a quatro, É??’, aí vocês teriam dúvida”.

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