Cidade fictícia, mas real

Estadão

25 de janeiro de 2011 | 16h45

[publicado no Caderno 2 de 25/1]

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Em Entre Assassinatos, Aravind Adiga mostra dramas da sociedade na Índia

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

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Kittur é uma cidade localizada entre Goa e Calcutá, ali na beirada do mar Arábico, e que, pelas paisagens e riquezas históricas, merece no mínimo uma semana de atenção do turista interessado em conhecer o sudoeste da Índia. A partir dessas informações, é importante para o leitor saber também que Kittur é uma localidade fictícia, cenário inventado pelo escritor Aravind Adiga para interligar os contos de seu mais recente livro, Entre Assassinatos. Mas uma cidade que, por sua diversidade de religiões, raças e línguas, poderia ser qualquer outra no país.

É assim, como destino turístico, que a cidade-personagem é apresentada no volume pelo premiado escritor de 36 anos, destaque da atual literatura indiana. Após recomendar a estadia de uma semana no local, Adiga passa a descrever como podem ser aproveitados esses sete dias, em trechos no estilo de um guia turístico que aparecem intercalados com os contos propriamente ditos. Entre uma e outra história, ficamos sabendo, por exemplo, que o local tem 193.432 habitantes segundo o mais recente censo, dos quais apenas 89 declaram não ter religião ou casta.

“A sobreposição do guia turístico em relação aos contos é em parte funcional, já que nos ajuda a ver essa cidade, e em parte irônica, porque as histórias contadas são sempre mais sombrias do que o tom claro dos parágrafos introdutórios poderia sugerir. Foi uma tentativa de explorar a diferença entre as versões oficiais da história do que realmente acontece em uma cidade”, afirma, em entrevista ao Estado por e-mail, o autor que, em 2008, venceu o prestigioso Man Booker Prize por seu romance de estreia, O Tigre Branco.

Embora tenham sido publicados bem depois do livro que tornou Adiga conhecido, os contos de Entre Assassinatos surgiram de forma simultânea à história do romance. “Muitos dos temas de O Tigre Branco estão presentes nos contos, de formas diferentes. Por exemplo, no conto em que o chofer de uma madame que, para mudar de vida, está tentado a cometer um crime”, diz.

A diferença maior está nos períodos em que transcorrem as histórias. Os assassinatos a que se refere o título da coletânea de contos são os dos líderes indianos Indira Gandhi, em 31 de outubro de 1984, e seu filho Rajiv Gandhi, em 21 de maio de 1991. É uma fase anterior à da abertura da economia da Índia, que aconteceu no ano do segundo crime, de modo que refletem os desafios da população na era socialista. A narrativa de O Tigre Branco se passa nos dias atuais, de capitalismo consolidado.

“A Índia hoje é muito diferente da velha Índia socialista da era pré-1991. No entanto, se as histórias são boas, o leitor deve sentir como se fossem atuais. Os leitores na Índia responderam bem aos contos, então devem sentir que são histórias ainda relevantes para o que eles vivem hoje.”

Castas e religiões. Os personagens apresentados em Entre Assassinatos têm em comum, na maioria dos casos, uma vontade intrínseca de mudar de vida, que esbarra em tanto em barreiras sociais quanto psicológicas – sempre descritas com a característica ironia do autor.

Um exemplo é a história do menino Ziauddin, no conto que abre o livro. Muçulmano, o garoto batalha para se firmar profissionalmente num bairro de maioria hindu, mas não resiste a pequenos deslizes que comprometem seu discurso de que “muçulmanos não fazem safadeza”. E, no entanto, é justamente um momento de reflexão que o coloca num dilema quando, enfim, alguém o trata com o respeito que ele tanto acredita merecer.

Conceitos estabelecidos localmente sobre as diferentes castas e religiões, aliás, movem a maior parte dos contos. Em outra história, uma velha cozinheira virgem de origem brâmane, a casta mais alta da sociedade, tenta mostrar para o patrão que tem mais valor que a jovem empregada de origem hoyka, casta desfavorecida à qual pertence a grande maioria da população: “Não sou eu quem está fazendo barulho, patrão: é aquela menina hoyka. Ela não conhece os nossos modos brâmanes!”, argumenta, a certa altura.

Apesar da forte crítica social que desfia ao longo das narrativas, Adiga destaca o caráter democrático da Índia, onde a população pode expressar por meio do voto a raiva e o sentimento de injustiça alimentados pelo cotidiano. “Para mim, o evento-chave que mostra essa força da democracia foi a derrota do governo em Délhi, nas eleições gerais de 2004. Num momento em que a economia estava crescendo, o governo perdeu de forma inesperada. Foi um sinal claro de que a maioria dos indianos não estava se beneficiando do tão falado boom econômico. Isso forçou os políticos a prestar atenção aos pobres.”

Mas ele admite que não só o governo tende a esquecer a pobreza. Até o início da vida adulta, conta, conheceu apenas personagens como aqueles de classe média retratados no livro. “Só fui conhecer a realidade dos pobres depois que me tornei jornalista. Até então, eles eram pessoas invisíveis: meus serviçais e cozinheiros.”

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