As leituras das férias

Estadão

03 de maio de 2011 | 20h02

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Não deu nem uma semana desse retorno à Redação e quatro ou cinco livros já entraram sorrateiros na lista de leituras até o fim da semana que vem. Um deles, o preferido, até, com algo em torno de 700 páginas (não tive coragem de checar esse número, é uma estimativa com base no espaço que ocupa na pilha). Leituras a trabalho, importante dizer. O que significa que o que não devorei por vontade desinteressada durante as férias agora só no próximo feriado, que nem sei quando cai ou se cai em algum dia que não domingo, como teve o desplante de fazer este último 1º de Maio.

Ler a trabalho está longe de ser o pior dos dramas, mas o modus operandi tem desvantagens (escrevi sobre isso faz um tempo) A liberdade absoluta de escolher um título, ou mesmo abandoná-lo, ou reler capítulos, ou ler va-ga-ro-sa-men-te… Sem férias desde 2008, nem lembrava como era essa colher de chá. Se não é fácil para ninguém escolher o que ler no tempo livre, quem trabalha com livros não pode se dar ao luxo de errar: os títulos na fila de espera terão dobrado o quarteirão até a próxima oportunidade.

Mas a seleção para essas últimas férias já estava meio cantada. Como voltei a estudar francês no começo do ano, sabia que pelo menos nos primeiros nove dias de viagem, quando estivéssemos em Paris, aproveitaria para preencher minha imperdoável lacuna sobre a atual produção francesa de HQs (vergonha para uma fã de quadrinhos, faz de conta que não assumi) e ainda treinar meus rudimentos do idioma, básicos demais para a leitura de um romance sem que um dicionário precisasse ir junto na bolsa. Numa HQ, as imagens cumprem ali vez por outra um papel extra de tradução.

A situação colaborou com meus planos. No apartamento que alugamos para o período, uma estante incluía edições locais de PyongYang, do Guy Delisle, e Gorazde, do Joe Sacco. Elas não cabem no perfil “atual produção francesa de HQs”, ok, mas garantiram a passagem do tempo até esta desavisada visitante de primeira viagem a Paris conhecer a rue Dante, o paraíso das livrarias dedicadas às bandes dessinées, perdição também para colecionadores de souvenires de HQs – não resistimos a trazer da seção pega-turistas um pequeno Asterix com javali e um Obelix esticando as calças (“Gordo? Quem é gordo?”).

Foi na Dante que cheguei à livraria onde desisti da cara de conteúdo e pedi ao vendedor uma mão na escolha de bons quadrinistas locais para uma não-iniciada. E, já que tinha esquecido a vergonha em algum bistrô, aproveitei para pedir que o fizesse com base nas melhores pechinchas.

O resultado: Les Complots Nocturnes, de David B (o melhor dele é L’Ascension du Haut Mal, mas daí seriam seis volumes que eu não teria nem como carregar pra casa); Bureau des Prolongations, de Simon Hureau; Comme um Poisson Dans l’Huile, de Guillaume Long; e Sunnymoon Tu Es Malade, do Blutch, que somados deram menos de 20 euros. Por conta, peguei na bancada de superpechinchas um Cours, Camarade, do Baru, e um Blitz, do Floch & Rivière, um ou dois euros cada um. E ainda, em homenagem ao momento dois coelhos com uma cajadada, uma edição local do Bunny Suicides, do inglês Andy Riley (não, de cajadadas o coelhinho não morre, até porque a expressão em inglês é com pássaros e pedras).

Li as três primeiras em Paris. E ainda circulei pelas ruas com um velhinho Les Malheurs de Sophie debaixo do braço, tirando vantagem do risco quase zero de esbarrar em algum conhecido, porque não é sempre que você pode se deliciar com um título para pré-adolescentes no metrô impunemente.

Dali fui pra Londres, e os livros então já eram outros quinhentos…

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A foto no alto é da Enriqueta, gatinha de dois meses que há dois dias mata de ciúme (e de amor, embora ainda não assumido) a Whatever, nossa gata de sete anos. O nome dela é homenagem à personagem do Liniers que, por coincidência, ilustrou meu post sobre leituras a trabalho.

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