Ainda sobre obra vs. biografia

Estadão

21 de fevereiro de 2011 | 11h53

Depois de muito ler aqui, no Facebook e no Twitter opiniões as mais variadas possíveis sobre o post O gênio e o monstro, pensei em alguns pontos sobre a questão:

1) Ela ficaria mais bem colocada da seguinte maneira: é justo celebrar um autor cujas atitudes ou convicções causem repulsa, mas cuja obra seja genial? (Lembrando que eu complementava: é justo desmerecer uma criação artística genial pelos desvios de personalidade de quem está por trás dela?).

Afinal, toda a polêmica sobre Céline está na celebração do autor, não da obra – a efeméride que motivou a discussão na França não é relacionada a algum livro dele, mas à biografia, já que diz respeito aos 50 anos de sua morte. Mesmo quem prefere analisar a obra sem pensar na biografia há de convir que a celebração por efeméride envolve a imagem do autor. É claro que essa homenagem pode ser feita com a contextualização de pontos positivos e negativos do pensamento do autor. A homenagem a Gilberto Freyre na última Flip, por exemplo, deu margem para uma boa discussão nesse sentido.

2) Meu editor colocou na sexta-feira uma questão (já analisada na ficção, como lembraram) que cheguei a levantar no Facebook, mas para a qual não tive resposta: Hitler, como muitos sabem, era escritor e desenhista frustrado. Se, em vez disso, tivesse deixado junto com seu legado político uma criação literária ou artística absolutamente genial… seria possível fazer essa separação?

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