A vida útil de um ebook na biblioteca

Estadão

03 de março de 2011 | 14h55

O Boing Boing publicou um vídeo bem curioso a respeito desse imbróglio envolvendo empréstimos de e-books da HarperCollins.

Pra quem não acompanhou: já faz algum tempo que a gigante editorial HarperCollins vende a bibliotecas e-books a serem emprestados a leitores. Há poucos dias, a editora causou alvoroço ao anunciar a imposição de um limite. Cada biblioteca poderá emprestar um livro comprado até 26 vezes a usuários. Depois, o e-book se tornará indisponível, como um velho livro de papel que não aguentasse tanto manuseio.

A resposta de bibliotecários foi forte, com direito à criação da página Boycott HarperCollins, nada sutil.

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“Até essa política ser revogada, junte-se a nós não comprando nenhum livro em papel ou digital publicado pela HarperCollins ou por qualquer um de seus selos”, convoca a manifestação. O site lembra que já existem limitações na política de empréstimo, como o fato de o usuário não poder ficar mais de duas semanas em posse do e-book e de a biblioteca não poder emprestar a mais de um usuário por vez. Cita que há uma grande chance de os arquivos digitais das bibliotecas se tornarem obsoletos em poucos anos, o que as obriga a renovar o “estoque” digital de tempos em tempos.

Em carta à editora, o site diz que “a crescente popularidade dos ebooks dá às bibliotecas a chance de alcançar pessoas de novas maneiras, espalhando o amor pela leitura. A política que vocês propõem vai limitar as opções disponíveis para milhares de leitores em potencial”.

No último dia 1º, a editora publicou uma carta aberta aos bibliotecários dizendo que não voltará atrás.

Diz a editora: “Passamos meses examinando a questão antes de realizar a mudança. Falamos com agentes e distribuidores, tivemos reuniões com bibliotecários, participamos de conferências. Vinte e seis circulações garante um ano de disponibilidade para títulos com demanda mais alta, e muito mais para outros livros. Se um bibliotecário decide renovar o ebook depois disso, o preço será significantemente mais baixo. Nossa esperança é tornar o preço por circulação de ebooks menor que o correspondente de um livro físico. Lembrando que o preço de um livro digital já é 20% menor que o de uma versão impressa.”

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Daí que o Boing Boing foi investigar a situação de livros impressos muito emprestados por bibliotecas. Caso de um exemplar com garantia “de longa duração” (aliás, da Harper) de Coraline, de Neil Gailman, em ótimo estado, sem páginas amareladas nem nada, após retirada por 48 pessoas. Se fosse um ebook, a biblioteca já deveria ter feito a segunda compra. Uma edição de Swimming to Catalina, de Stuart Woods, aparece com a lombada descolando (o que pode ser reparado, segundo a bibliotecária) e páginas amareladas após retirada por 120 pessoas. No caso do ebook, a biblioteca já deveria tê-lo comprado cinco vezes.

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Os responsáveis pelo boicote à HarperCollins admitem que o livro em papel não tem vida ilimitada, embora muitas bibliotecas tenham volumes centenários nos acervos. É questão complicada. Eu não saberia dizer seria o caso de pensar outro tipo de limitação, de deixar a critério dos bibliotecários o interesse por comprar edições mais recente… Uma editora ganha tanto assim a mais com reposição de acervos? Era uma briga que valia a HarperCollins comprar? Sempre bom lembrar que dois outros dos maiores grupos editoriais do mundo, a MacMillan e a Simon&Schuster, nem sequer têm a opção de ebooks emprestáveis…

Se há alguma conclusão, é que ninguém sabe da missa um terço no que diz respeito à revolução digital no mercado editorial.

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Um comentário meio não-relacionado: depois de ver o vídeo, eu me lembrei do quanto ganhavam um ar de importância livros com páginas amareladas que eu pegava na biblioteca em Petrópolis, quando era criança. Saber que os livros eram tão antigos e já tinham sido lidos por tanta gente me fazia redobrar o amor por eles. Mas agora já acho que isso é nostalgia de gente velha que nem eu…

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