Uma última olhadela nas areias do Paraíso

Eu bem que botei a cabeça pra funcionar e encontrar outro tema que não fosse o último capítulo de Paraíso Tropical (ou o primeiro último, porque, no sábado, eles mudaram umas coisinhas). Uma semana depois, eu pensava, ninguém mais vai agüentar ler sobre essa novela. Nem vão lembrar quem eram Taís, Paula, Daniel, Gustavo ou Belisário. Mas a vida real foi mais forte, falou mais alto. E eu venho aqui hoje falar do desfecho de Paraíso Tropical. Gilberto Braga não mentiu. Mais forte que o assassino, a motivação para o crime foi uma sacada muito boa. Não vou nem falar na obviedade de o assassino ser o vilão, isso já está virando marca registrada do autor e seus parceiros. Talvez convenha mudar na próxima. De todo modo, desta vez valeu e muito. Taís morreu por querer demais. Ou por ter se mostrado na hora errada. Mais do que saber quem matou, o que interessava era imaginar que fim teria a vida-fácil Bebel (Camila Pitanga). Ao longo do capítulo, o mistério permanecia. E a mulata brejeira perdia seus homens. Primeiro, morreu Jader (Chico Diaz). Depois, Olavo (Wagner Moura), que morre assassinado pelo irmão, que na verdade, nem irmão era. As relações familiares ficaram confusas nesse final de trama, mas toca o barco. E a Bebel? O que seria feito de Bebel? A garota de programa aparece, linda e safada, como amante de um senador, convocada a depor numa CPI, na qual não faltavam clones de senadores pendurados ao celular. Tal como a vida real. Houve quem se ofendesse, quem se escandalizasse. Houve quem lamentasse por não haver mais um final tão acachapante, quanto a cena em que Reginaldo Farias dava uma banana para o Brasil e fugia, em Vale Tudo (1989). Gilberto Braga, Ricardo Linhares e sua excelente equipe deram, sim, um final tão forte quanto o da antiga novela. O cinismo da cena de ficção ganhou outros contornos com o noticiário da semana. A ex-amante de um senador convocou a imprensa para explicar porque posou nua e para anunciar que prepara um livro de memórias. No mesmo dia, senadores batiam boca como dois arruaceiros no pátio do colégio. Triste, muito triste. Pensando bem, Braga e Linhares pegaram leve. Eles sabem que novela é só diversão.

Mário Viana, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2007 | 22h25

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