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Entrevista. Thiago Lacerda

Ator vive mártir da Inconfidência na novela ‘Liberdade, Liberdade’ e encena textos de Shakespeare no teatro

Um novo herói para a carreira de Thiago Lacerda

O rol de heróis acumulado pelo ator Thiago Lacerda, de 38 anos, ao longo de sua carreira é bastante significativo. Nele, estão figuras notáveis, como Capitão Rodrigo Cambará, que ele interpretou no filme O Tempo e o Vento, Giuseppe Garibaldi, na minissérie A Casa das Sete Mulheres, Matteo Battistella, na novela Terra Nostra, entre tantos outros.

Agora, a lista traz outra agregado: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que ficou conhecido como mártir da Inconfidência Mineira. Seu personagem histórico, enforcado logo no primeiro capítulo em Liberdade Liberdade, novela das 11 que estreia no dia 11, dá o pontapé inicial à trama do autor Mario Teixeira. O restante da história, fictícia, é conduzida pela filha de Tiradentes, Joaquina (vivida por Mel Maia e, depois, Andreia Horta).

O ator Thiago  Lacerda, que estará na novela 'Liberdade, Liberdade'
O ator Thiago Lacerda, que estará na novela 'Liberdade, Liberdade'

No teatro, o ator, que já viveu Hamlet nos palcos, planeja voltar a São Paulo com o Repertório Shakespeare, com as peças Macbeth e Medida por Medida, após temporada no Rio. Em entrevista ao Estado, por telefone, do Rio, Thiago Lacerda, que já tem novos projetos na TV e no cinema engatilhados, fala sobre a atualidade dos textos shakespearianos, defende a aprovação das dez medidas contra a corrupção e diz que seu discurso “não é partidário, é de cidadão”.

Você só vai participar do primeiro capítulo de 'Liberdade, Liberdade' como Tiradentes. Como ele vai desencadear toda a história? 

A trama gira em torno da Joaquina, que é protagonista absoluta. Essa história existe porque essa menina herda uma jornada em tributo do pai: quem ele foi, o que representa. Era importante dar para o público, em algum momento, a dimensão mítica, histórica desse personagem. Acho que esse primeiro capítulo serve para fazer com que as pessoas entendam um pouco dessas questões que vão acompanhar a personagem da Joaquina até o final. E também a gente fez questão de tentar encontrar uma figura que não está contida nos livros de história, investigar quem foi esse homem controverso, misterioso, muitas vezes questionável.

Que virou essa figura do mártir.

Os livros oficiais constroem esse personagem que inaugura o mito do herói brasileiro e, na verdade, alguns estudiosos depois publicaram a ideia de que não era bem assim. Não era propriamente um herói, mas que, em algum momento, se comportou como um, e isso fez com que esse mito fosse possível. Acho que não podemos abrir mão de nenhuma das duas figuras. Então, a dificuldade é conseguir contar para o público sobre esses dois homens: esse mítico que faz parte do imaginário coletivo e esse homem perdedor, meio anti-herói. Eu, particularmente, acho uma pena que seja só um capítulo. Acho que seria muito interessante que a gente tivesse, pelo menos, mais dois ou três capítulos desse clima de Inconfidência, de conspiração.

Mesmo sua participação sendo pequena, como você se preparou para o papel? Você colocou lente para mudar a cor dos olhos...

A caracterização é fundamental, mas ela entra lá na frente. O que é interessante no meu trabalho como ator é o momento antes de se chegar a esse ponto de cabelo, maquiagem, roupas, em que a gente toma certas decisões: vamos investigar esse homem, as coisas todas que a gente tem hoje à disposição, os estudos, as entrevistas. Esse é o apoio principal do trabalho sobre Tiradentes nesse primeiro capítulo. Sobre ele, o que me surpreendeu foi a ideia de que era um homem ingênuo, que acreditava que era por liberdade, por igualdade, e se deu conta que não. Essas vítimas do discurso manipulador. A gente vive isso até hoje. É o vil metal que comanda essa bagunça toda. E quem acredita que é por liberdade, por direitos iguais, que é para distribuir a renda, essas pessoas são perseguidas. É muito duro constatar isso ao longo da história.

É um exemplo de séculos atrás que continua atual, certo?

Sim, acabei de sair do teatro (no último dia 18, no Rio), onde encenei Shakespeare, e nós usamos, numa peça que foi escrita no século 16, 17, termos como coercitivo, foro privilegiado, delação premiada, ou seja, Shakespeare explica tudo. É a invenção do homem moderno e o homem moderno está aí.

'Medida por Medida' e 'Macbeth' falam de corrupção, ética...

Hoje, Macbeth é uma peça que pode ser tratada dessa forma, mas estou especificamente falando do Medida por Medida, que pouca gente conhece e que é a história de um governante que perde a mão do seu próprio governo, e precisa sair e colocar no lugar dele uma outra pessoa, que normalmente reestabeleceria a ordem, mas a pessoa está corrompida. 

E como a plateia reagiu?

Nunca vi uma apresentação como a de hoje, porque teatro é instrumento político, girar o espelho para a sociedade é o nosso trabalho. Quando a gente dizia ‘delação premiada’, as pessoas enlouqueciam. Quando foi dito ‘eu tenho foro privilegiado, me respeitem’, foi aplauso em cena aberta. É o clímax dessas manobras que o ser humano faz desde Shakespeare. No Brasil, parece que existia essa ‘permissão’. Agora, a gente está dizendo ‘espera aí, que história é essa?’. E a novela fala disso. 

Em sua carreira, a presença dos heróis é muito forte, como Capitão Rodrigo, Garibaldi...

Tem também Matteo (de Terra Nostra’), que era herói, Hamlet, Jesus Cristo, Macbeth, a minha carreira é povoada de personagens heroicos. Isso não foi uma escolha minha. Aconteceu dessa forma. Tenho o maior orgulho de tê-los comigo na minha carreira.

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