TV Cultura admite corte em música e diz não usar programação para fins partidários

Programa tirou trecho da música 'Liga nas de Cem', da banda Aláfia, que citava o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria, ambos do PSDB

O Estado de S. Paulo

19 Abril 2017 | 22h00

Uma reunião entre a apresentadora do 'Cultura Livre', Roberta Martinelli, e a direção da TV Cultura, em São Paulo, foi realizada na tarde desta quarta-feira para tratar do corte feito pela emissora em uma música da banda Aláfia, exibida pelo programa na noite do dia 11. Ao perceber a contundência do conteúdo da canção, a direção do programa resolveu cortar um trecho de 'Liga nas de Cem', que citava o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria, ambos do PSDB.

Roberta Martinelli, colunista do 'Caderno 2', falou com a reportagem assim que saiu da reunião com seus diretores. “Eles se comprometeram a não cortar mais músicas no programa. E eu afirmei que fico com orgulho na emissora enquanto houver liberdade. Sem liberdade, não seria possível fazer um programa chamado 'Cultura Livre'.” Ela diz que, em oito anos no ar, o programa de música e entrevista jamais passou por um episódio parecido. “Eles não pediram desculpas, disseram que iriam redigir uma nota à imprensa e que o programa precisa focar na música”, completou. 

Um trecho da nota enviada pela TV Cultura, na noite desta quarta, responde ao que foi dito pelo cantor e compositor Jairo Pereira, ao 'Estado': “A grande questão é que a Cultura é uma TV pública. E como se manipula essa ferramenta, esse veículo de comunicação, se ele é uma TV pública?”, questionou o músico. A TV Cultura se manifesta como uma “emissora pública pertencente a todos os cidadãos”. “Assim, carregamos em nosso estatuto o dever de não utilizarmos nossa programação de arte e cultura para fins partidários, limitando esse debate ao núcleo de jornalismo.”

A nota segue: “Seguimos essa lógica na busca constante pelo equilíbrio entre as diferentes narrativas e, acima de tudo, com independência editorial. Mais do que isso, temos a constante preocupação de não difundir ideias ou fatos que incentivem a polarização, independentemente do indivíduo a quem esse discurso se destina”.

O comunicado justifica que o corte, então, se deu “pelos princípios citados” e que “valoriza a liberdade de expressão e lamenta a polêmica gerada em torno dessa ação”. O trecho completo da música, de Jairo Pereira e Eduardo Brechó, diz o seguinte: “Liga nas de cem que trinca / Nas pedra que brilha / Na noite que finca as garra / SP é fio de navalha / O pior do ruim / Dória, Alckmin / Não encosta em mim playboy / Eu sei que tu quer o meu fim”. Na edição do programa, a parte que cita os políticos, já no final da música, foi sublimada.

Jairo disse que já havia expectativa do grupo em ter o trecho da música cortado. “Imaginei que pudessem cortar, já estávamos com essa expectativa. Eles poderiam usar um fade, diminuir o som aos poucos, por exemplo. Mas cortaram o último trecho cantado. Foi direto para o fim instrumental da música. É uma censura muito burra. Foi um corte bruto, grosseiro. Esperava que essa parte não fosse para o ar, mas eles editaram uma música, uma obra.” O caso foi publicado em primeira mão pela 'Revista Fórum'. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.