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ENTREVISTA: Terence Winter

Cultura

Mick Jagger

Terence Winter foi do roteiro de 'Família Soprano' para 'Vinyl'

Roteirista também assina produção Mick Jagger e Martin Scorsese

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Mariane Morisawa

25 Fevereiro 2016 | 03h00

LOS ANGELES - Terence Winter foi roteirista e produtor de duas das séries mais marcantes da chamada era de ouro da televisão americana: Família Soprano e Boardwalk Empire. Em Vinyl, exibida pela HBO, ele se junta a outros nomes de peso: a produção é de Mick Jagger e Martin Scorsese, que também dirigiu o piloto. Winter já tinha trabalhado com Scorsese em Boardwalk Empire, cujo piloto também foi dirigido pelo cineasta, e em O Lobo de Wall Street, no qual foi roteirista. Para Vinyl, que nasceu como longa-metragem e se transformou em série, o diretor lhe pediu uma visão panorâmica, à la Cassino, da cena musical em Nova York em 1973. O protagonista é Richie Finestra (Bobby Cannavale, vencedor do Emmy de ator coadjuvante por seu Gyp Rosetti, de Boardwalk Empire), um executivo de gravadora em momento de crise. Terence Winter conversou com o Estado sobre seu novo projeto.

Quantas histórias de Mick Jagger entraram no roteiro?

É mais um gostinho da época, atitudes, como os artistas lidavam com as gravadoras e vice-versa, o que ocorre durante uma turnê. A grande contribuição do Mick é na seleção musical. Ele também aprovou o elenco, para que realmente houvesse músicos em vez de simplesmente atores interpretando músicos. 

O personagem Richie Finestra tem algo de Nucky Thompson ou Tony Soprano?

Sim, acho que todos esses caras vêm da mesma fonte psicológica. Muitos estão nessa roda para hamster. Se pararem, morrem. Eles não são do tipo que ficam acordados na cama tranquilos, porque se sentem assombrados por seus fantasmas. Eles preenchem esse espaço morto com drogas, álcool, mulheres, todas essas distrações que tornam escrever sobre eles tão divertido. 

Normalmente, as histórias de época na verdade comentam sobre a nossa realidade hoje. Era o caso aqui? 

A história se passa há mais de 40 anos, mas existe tanta coisa que acontecia na época que ainda ocorre hoje. O aborto tinha acabado de ser legalizado em 1973. As pessoas estão falando mudar as regras do aborto. A heroína era um grande problema na época e continua sendo. As relações raciais. Corrupção no governo. Watergate estava bombando nessa época. Mas é incrível como é um espelho da sociedade atual, com Boardwalk Empire também era assim. 

O que está havendo com essa retomada da Nova York dos anos 1970, com Vinyl e a série do Baz Luhrmann, The Get Down, e o livro City on Fire?

A Nova York nos anos 1970 estava em decadência econômica, prestes a declarar falência, com taxas de criminalidade altíssimas. Era um lugar empolgante, entusiasmante, perigoso. Mas, muitas vezes, desses lugares em crise nasce a grande arte. O punk, a disco e o hip hop aconteceram nessa época em Nova York. Fora que 40 anos parece um tempo apropriado para olhar para trás sem romantizar demais e ter alguma perspectiva. 

Qual a sua opinião sobre a ideia de que há coisa demais sendo produzida na televisão? Acha que, se algo como Família Soprano surgisse hoje, poderia ficar perdida entre tantas opções?

Não sei. Mas realmente mudou enormemente desde que comecei em Família Soprano em 1999. Para mim, a maior diferença é a sensação de estar num aquário, em que cada episódio é comentado individualmente. É como se você estivesse fazendo crítica dos capítulos de um livro. Fico abismado porque tenho 55 anos. Quem cresceu na mesma época que eu assistiu a Tudo em Família. Eram 30 milhões de espectadores por semana. Agora, se 3 milhões assistirem, está bom. Todo o mundo conhecia certos bordões. Isso não existe mais. O público está dividido em nichos.

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