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Cultura

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Série 'The Ranch' muda conceito de sitcom

Proposta é investir mais em drama e conflitos familiares

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Mariane Morisawa,
ESPECIAL PARA O ESTADO

30 Março 2016 | 03h00

PASADENA - Ashton Kutcher e Danny Masterson ficaram famosos graças a uma sitcom. Em That ‘70s Show, Kutcher fazia o belo e nada brilhante Michael Kelso, enquanto Masterson interpretava o hippie debochado Steven Hyde. Os dois eram parte de uma turma formada ainda por Jackie (Mila Kunis, hoje mulher de Kutcher), Donna (Laura Prepon) e Fez (Wilmer Valderrama), que passava o tempo no porão da casa de Eric (Topher Grace).

Dez anos depois do fim da série, os dois se reúnem novamente, como irmãos na frente das câmeras e produtores atrás delas, em The Ranch, que estreia na Netflix nesta sexta-feira, dia 1.º. Kutcher é Colt, um jogador de futebol americano que volta para o rancho da família no Colorado, depois de uma carreira fracassada. Lá, reencontra seu irmão mais velho, Rooster (Masterson), e seu pai, o durão Beau (Sam Elliott). Debra Winger faz Maggie, a mãe dos dois rapazes, que vive separada do pai e é dona de um bar. “Fazemos versões adultas daqueles dois”, explicou Masterson em entrevista ao Estado em Pasadena, na Califórnia. Para Kutcher, os personagens das duas séries são muito diferentes. “Mas nosso relacionamento é bem similar.”

That ‘70s Show era uma sitcom clássica. The Ranch pode parecer uma sitcom, com suas câmeras múltiplas e público no estúdio, mas não é. “Estamos tentando mudar tudo nesse formato. Eu odeio sitcoms”, disse o produtor Jim Patterson. “Sitcoms são um lixo. Nossa estrutura é diferente, não temos piada no fim da cena, por exemplo. Mudamos a iluminação, é bem mais escura, há sombras. Temos cenas de drama, sem nenhuma piada. O figurino é velho. Estamos mudando tudo, fazendo uma peça de teatro, basicamente, toda semana.” De fato, há muito conflito familiar genuíno, não aqueles típicos das comédias do gênero, criados só para gerar piadas. Colt tem dificuldades de se adaptar à nova vida e, principalmente, não consegue se entender com o pai.

Kutcher, que cresceu em Iowa, conhece um pouco esse mundo. “Tenho vizinhos que têm ranchos, tios que são rancheiros. Trabalhei num rancho. Só não vivi num. Sou um grande fã de música country, de rodeio, tenho uma perspectiva autêntica.” A ideia era tratar esse universo com respeito. “The Ranch não caçoa da cultura rural ou da cidade pequena”, contou ainda o ator.

Ninguém sabe se o formato multicâmera, com público ao vivo, vai funcionar na Netflix. “Nem nós, nem eles”, disse Kutcher. “Esperamos que sim. Tudo o que podemos fazer é apresentar o melhor produto possível, que entenda quem é o público da Netflix, que seja engraçado, emocionante e interessante. Vamos ver!” Para os companheiros de That ‘70s Show, a pressão ainda é maior agora que são produtores também.

“Nós terminamos de ensaiar e vamos para a ilha de edição. E, aí, temos de decidir tudo, de um problema com um membro da equipe a um novo ator, ou uma roupa”, contou Masterson. “Mas é bom ter o controle. Se algo der errado, é nossa culpa, não de outra pessoa que decidiu. Nós somos os ternos”, completou o ator, que, como Kutcher, vestiu-se de acordo para as entrevistas.

As comparações com a série antiga não assustam. “That ‘70s Show é uma das melhores sitcoms da história. Se pudermos ser tão bons, quase tão bons ou um pouco melhores, estamos aceitando”, afirmou Danny Masterson.

ENTREVISTA - Ashton Kutcher, ATOR E PRODUTOR

'A definição do que é ser homem está gradualmente mudando'

Ashton Kutcher é hoje astro de Hollywood, mas ele cresceu em Iowa, um lugar com forte cultura agrícola. O mundo mostrado em The Ranch não é, portanto, tão estranho para o ator de 38 anos, que conversou com o Estado em Pasadena: 

Na série, você volta para a casa da sua família. Faria isso?

Esse era um dos meus maiores medos quando estava tentando me virar sozinho. Mas está virando uma realidade no mundo inteiro. Pessoas que vão para a faculdade, conseguem seus diplomas, mas aí não há carreira nem emprego para elas. 

Podemos falar sobre o carma de That ‘70s Show na sua vida, já que está trabalhando de novo com o Danny Masterson.

Eu fui para Los Angeles aos 20 anos. Não tinha amigos, não conhecia ninguém. As pessoas com quem trabalhava viraram minhas amigas e continuaram sendo. Aprendi a me virar nesta indústria em grande parte por causa de Danny. Ele me ensinou como me comportar e a não ficar me achando muito. Quando fiquei, ele me deu bronca. Me ensinou a ficar longe de das coisas ruins que estão por aí. Principalmente, crack e cocaína! (risos)

Seu pai na série é durão. Como a experiência se compara com a sua realidade?

Sou muito amigo do meu pai. Mas não importa minha idade ou meu físico, ele ainda pode acabar comigo! (risos) Quando nos encontramos pela primeira vez com o Sam (Elliott), ele apertou a minha mão com suas mãos gigantes e eu me comportei como um garoto: “Sim, senhor!”. 

O que é diferente na masculinidade desse mundo e de Los Angeles?

Cresci numa cultura parecida com a da série, em que ser homem é ser duro, não mostrar emoção, engolir tudo. Não pode chorar. Também é uma questão de geração. Historicamente, os homens bem-sucedidos, da classe trabalhadora, no mundo pós-industrial, trabalhavam muito, eram duros, não reclamavam nem perdiam o controle. Nessa revolução tecnológica que estamos vivendo, sua mente vale mais do que sua grandeza. A definição do que é ser homem está gradualmente mudando.

Teve essa experiência quando se mudou da sua cidade?

Quando fui para Nova York, aos 19 anos, conheci tipos de pessoas diferentes. Eu vinha da classe trabalhadora, foi essa a cultura onde cresci. Chego a Nova York e tomo um susto, porque uma garota que me interessava se sentia atraída por outro tipo de cara, que jamais seria olhado no lugar de onde venho. Houve uma evolução. E a série explora essa ideia. 

Como a experiência é diferente de Two and a Half Men?

Fui para Two and a Half Men quando ela já tinha 8 anos e eu não ia ficar dando opinião. Fiz o que me pediram. Aqui é diferente. É experiência de cooperação completa. Escolhemos Don (Reo) e Jim (Patterson) porque são incríveis de trabalhar, gostam de colaborar, ouvir opiniões. Eles vêm ao set para sugerir como uma cena deve ser feita e nós vamos à sala dos roteiristas para opinar sobre como determinada coisa deve ser escrita. E, assim, encontramos um consenso.

 

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