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Série 'Magnífica 70' retrata o mundo da pornochanchada

Gabriel Perline - O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2014 | 19h 59

Série da HBO revisita filmes eróticos realizados na ditadura

Sem levar em consideração o sentido jocoso do termo, mas tendo em vista sua alocação na esfera ‘cósmica’, ironia - a do destino - pode ser a palavra que melhor defina a série Magnífica 70, produção original da HBO brasileira que se aventura, pela primeira vez, em uma história de época. Explica-se: uma trama que retrata o universo da Boca do Lixo, reduto criativo do centro de São Paulo que se destacou pelo sucesso das pornochanchadas em plena ditadura militar, é gravada no Colégio Sagrado Coração de Jesus, convento desativado localizado no Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro.

E as contradições se estendem pelo plot da trama: um funcionário da censura (interpretado por Marcos Winter) se rende aos encantamentos do cinema marginal e passa a atuar também como diretor dos mesmos filmes que antes eram desaprovados em suas avaliações.

O argumento original é de Toni Marques, que pensou no projeto como uma comédia. Embora o humor esteja presente, o diretor-geral Cláudio Torres enveredou a narrativa para o drama - com ares de suspense -, apoiado pelos roteiristas Renato Fagundes e Leandro Assis, e supervisionados por Luiz Noronha, da Conspiração Filmes.

Divulgação
Sem pudor. Simone Spoladore aparece nua em cenas da série

Por questões logísticas, a Rua do Triunfo foi recriada em terras cariocas e poucas externas tiveram como palco a região central paulistana. “Para chegar a um orçamento realista, a maioria das cenas são feitas em estúdio”, diz a diretora Carolina Jabor. “Retratamos uma parte de São Paulo que já não existe mais”, endossa Fagundes.

Nos 13 episódios previstos para a primeira temporada, com estreia em meados de 2015, Magnífica 70 faz um tributo ao cinema que atraiu multidões às salas num dos períodos mais conturbados de nossa história. “A trama é meio ‘rodriguiana’. Há uma tragédia reprimida e um protagonista duplamente reprimido”, explica Cláudio Torres. “Trata-se de um sujeito que encontrou a razão de viver na arte de fazer cinema."

A trama se desenrola com uma série de desencontros do destino. Vicente (Marcos Winter) era um rapaz que pouco sabe o que quer da vida. Num gesto de bondade, ajuda uma moça ferida durante um ato de revolta popular e acaba preso, confundido com um comunista. Com a ajuda de um general (interpretado por Paulo César Pereio), ele sai da cadeia, consegue um emprego de censor, mas é obrigado a casar com uma das filhas do militar. O rapaz se apaixona pela mais nova - que acaba morrendo -, mas se une a Isabel (Maria Luísa Mendonça), com quem passa anos amargando o marasmo da relação.

"A série começa de uma forma totalmente burocrática, até o dia em que Vicente censura um filme, protagonizado por Dora (Simone Spoladore), que lhe remete automaticamente à irmã morta de Isabel, e se apaixona pela atriz", explica Winter. “Aquilo lhe desperta uma tormenta tão grande que ele acaba proibindo o filme. Só que nesse ínterim, ele vê o produtor Manolo (Adriano Garib) e a atriz desesperados, falidos. Vicente fica com dó e escreve uma cena que, se acrescentada ao roteiro, poderia liberar o filme para exibição. A partir daí, inicia seu trabalho como diretor de pornochanchadas e acaba contratado pela produtora Magnífica 70."

Musa inspiradora de Vicente, Dora Dumar, na verdade, é Vera, que assume a identidade de mulher fatal por motivos pessoais - a serem reveladas no decorrer da série. "Todos os personagens têm uma dualidade, um passado do qual querem se esconder", explica Carolina.

Para o papel, Simone Spoladore buscou referências nas musas da Boca do Lixo e considera sua Dora próxima ao que Helena Ignez representou para a pornochanchada. "Já vi muitos filmes dela. É uma mulher forte e estava à frente de seu tempo. Helena lidava com sua nudez de uma maneira natural, livre, sem pudores. Não era vulgar. Ela colocava a nudez como uma força da natureza, uma valorização do corpo feminino", avalia a atriz que, mesmo atuando em produções mais conservadoras na TV nos últimos cinco anos, encara as cenas sem roupa com naturalidade. "Embora os trabalhos na Record tivessem outro apelo, em quase todos os filmes que atuei acabei tirando a roupa (risos). Se as cenas estão num contexto que enriquecem a trama, jamais direi 'não' a elas."

O elenco também conta com Joana Fomm - que faz seu retorno à TV após quatro anos afastada por problemas de saúde -, Stepan Nercessian, Pierre Baitelli e André Frateschi.

Produzir um metadrama está entre as principais motivações do elenco da atração

Ao longo da série Magnífica 70, o público poderá conhecer os bastidores do mundo do cinema. Um tanto quanto romantizado, dada a paixão dos envolvidos no projeto, mas uma tentativa fiel de mostrar como eram feitos os filmes na era da Boca do Lixo.

"Em cada episódio, acompanhamos as diferentes fases do 'fazer cinema'", explica o diretor-geral Cláudio Torres. “O episódio dois é sobre roteiro; o terceiro é o início da produção e o quatro é a escolha do elenco. Nos episódios cinco, seis e sete, mostramos as filmagens. O oitavo é sobre montagem; o nono é a finalização, até chegar à estreia. E não para por aí. Tem a distribuição dos lucros e a preparação para o próximo trabalho."

Nos estúdios, a motivação evidente no elenco se dá pelo fato de trabalhar em um metadrama, produzindo cinema dentro da televisão.

"Os personagens entram nesse universo e são levados pelo amor à arte", comenta Simone Spoladore. “Há um triângulo amoroso entre Dora, Manolo e Vicente, com interesse erótico, mas o principal é que estes personagens descobrem o sentido de suas vidas através da sétima arte. A série é uma declaração de amor ao cinema