Sarah Shatz/Netflix
Sarah Shatz/Netflix

'Se Os Vingadores são os Beatles, Os Defensores são o Nirvana', diz ator da série

'Os Defensores', série da Netflix que reúne Demolidor, Luke Cake, Jessica Jones e Punho de Ferro, estreia nesta sexta-feira, 18, na Netflix

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2017 | 06h02

Finn Jones, o ator responsável por dar vida aos personagens dos quadrinhos Punho de Ferro na adaptação das HQs Os Defensores, realizada pela parceria entre a Marvel Studios e a Netflix, pensa por alguns segundos a respeito da comparação entre o seu grupo de heróis – integrado também por Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage –, e Os Vingadores, outro time de superpoderosos protagonizado por Homem de Ferro, Hulk, Thor e Capitão América.

Ele se ajeita no sofá e é observado por Charlie Cox, o ator que vive o Demolidor, sentado ao seu lado. Dispara, por fim: 

“Eu acho que uma boa analogia é dizer que se Os Vingadores são os Beatles, os Defensores são uma espécie de Ramones ou Nirvana”, ele avalia, sério, enquanto, de canto de olho, espera pela reação do companheiro de entrevista e da série, cuja estreia mundial ocorre nesta sexta-feira, 18, com todos os oito episódios disponíveis de uma só vez. 

É a vez de Cox, até então menos falante que o colega, se mostrar surpreso. Com os olhos arregalados, vira-se para a reportagem, inclina-se para a frente e diz: “Ei, eu só gostaria de informar que fui eu quem disse isso, numa outra entrevista”. Jones responde, por fim: “Pois é, e agora essa fala é minha”. 

E até mesmo nessa brincadeira de bastidores, os dois atores, que dividem o protagonismo da série ainda com Krysten Ritter (a Jessica Jones) e Mike Colter (Luke Cage), se parecem mais com Ramones e Nirvana do que Beatles. Enquanto o quarteto de Liverpool estava preocupado demais em mudar de vez a música pop com as experiências sonoras mais ousadas que o mundo havia tido notícia sem implodir a banda no processo – o que aconteceu, no fim –, os Ramones só queriam a farra de ter uma banda de rock, tocar três acordes de guitarra e beber uma cerveja ao fim do show. Um espírito libertário do punk também foi abraçado por Kurt Cobain e seu Nirvana. 

Os Vingadores são os grandes nomes do braço cinematográfico da Marvel atualmente. Tem, no seu time, Robert Downey Jr. e seus salários exorbitantes. E bilheterias que facilmente ultrapassam a casa dos bilhões de dólares arrecadados a cada novo filme. Os desafios e ameaças enfrentados por Homem de Ferro e sua trupe também são de outro patamar: alienígenas, seres ultrapoderosos e capazes de destruir a humanidade. 

Os Defensores são os heróis “pés no chão”. Uma trupe de desajustados não tão poderosa assim, cujas ameaças podem ser o ladrão de carteiras do bairro ou o síndico enfurecido a cobrar o aluguel atrasado. São justamente a humanidade e a pouca alienação com a realidade os motivos pelos quais a série tem sido aguardada com ansiedade pelos fãs dos heróis. 

A reunião dos Defensores é ventilada há pelo menos três anos, quando Demolidor, o herói que mesmo cego é capaz de “enxergar” ainda melhor graças a uma audição apuradíssima e é especialista em artes marciais, estreou na Netflix. A partir de 2014, cada um dos heróis ganhou sua própria temporada. Todos introduziram, aos poucos, esse recorte de uma Nova York que não é vista do alto de uma torre luxuosa. Uma cidade que, mesmo reerguida dos seus piores dias nos anos 1980, ainda é frágil e pode ser violenta. 

Veio a série de Jessica Jones, em 2015, a única mulher do grupo e disparadamente mais interessante dentre eles: é uma detetive particular de pequenos casos extraconjugais, dona de super força e a capacidade sobre-humana de ingerir bebida alcoólica. 

Na sequência, em 2016, a parceria Marvel e Netflix colocou nas telas Luke Cage, o personagem literalmente durão – sua pele é impenetrável – e ele também é bom no muque. Por fim, no início deste ano, veio a adaptação mais difícil das quatro produções. Punho de Ferro, o mais atacado pelos críticos, é o personagem com as maiores pinceladas místicas em sua trama. Ele é Danny Rand, um garoto órfão que treina arduamente a vida toda para se tornar o tal herói e ser capaz de reunir o chi (uma espécie de energia espiritual) em seu punho para desferir pancadas poderosas. 

“Entendo que todas as séries têm um tom que as difere, cada uma delas com uma forma de apresentar aquele personagem e um espaço de Nova York”, avalia Jones, o Punho de Ferro, sobre a forma encontrada por Marco Ramirez, um dos criadores de Os Defensores, para unir as histórias dos heróis, tal qual foi feito no cinema, quando a Marvel Studios partiu dos filmes individuais dos seus heróis até os lançar como Os Vingadores, nos filmes de 2012 e 2015. “Neste caso, estamos em uma temporada que é também um evento. É o encontro desses quatro personagens e os respectivos mundos deles.” 

Em todos os casos, a pessoa por trás da máscara é tão protagonista quanto sua identidade heroica. Não é por acaso que apenas o Demolidor usa máscara e uniforme como nos quadrinhos. O restante do quarteto caminha pelas ruas de Nova York como suas personas civis, sem nada a esconder e enfrentando questões que de tão mundanas e cotidianas nos fazem pensar: “E não é que eles são gente como a gente, mesmo?”. 

E aí se chega justamente à metáfora roubada de Jones (o Punho de Ferro) criada pelo colega Cox (o Demolidor). Enquanto os Beatles estavam preocupados em conquistar o mundo, Kurt Cobain e seu Nirvana não queriam sequer fazer sucesso. Eram o antipop na essência – o que, por uma conjunção de fatores, contudo, levou a banda a se tornar a maior do mundo no início da década de 1990. 

“Mas, ei, eu gosto d’os Vingadores”, Cox toma para si a palavra, e segue: “Acho que o que eles fazem é fantástico”. Jones responde, jocoso: “E eu amo os Beatles também!”. Os dois riem. Cox tenta mais uma vez: “Eu só entendo que nossos personagens têm problemas mais mundanos, não somos tão poderosos”, diz o ator que interpreta o Demolidor. Mais uma vez, ele é interpelado pelo intérprete de Punho de Ferro: “Fale por você. Meu personagem é superpoderoso”. Percebendo estar diante de uma batalha pela seriedade perdida, Cox admite: “Nós somos heróis que fazem terapia. Basicamente, é isso”. 

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