Jackson Lee Davis/Sundance
Jackson Lee Davis/Sundance

‘Rectify’, a melhor série que quase ninguém viu, chega a sua quarta temporada

Última temporada da produção mostra a vida de um rapaz que consegue a liberdade após 19 anos preso

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

20 Março 2017 | 03h00

LOS ANGELES - É fácil uma boa série se perder no meio das centenas de opções disponíveis atualmente. Foi um pouco o que aconteceu com Rectify, que chega à sua quarta e última temporada nesta terça-feira, 21, às 22h, na Sundance TV. É uma pena. Criada por Ray McKinnon, é uma raridade, mesmo num cardápio tão extenso. Conta a história de Daniel Holden (Aden Young), solto depois de passar 19 de seus 37 anos no corredor da morte por ter confessado o estupro e assassinato de sua namoradinha de escola. 

Numa outra série, a pergunta “quem matou?” seria a força motriz. Mas não aqui. Até o final da terceira temporada, o espectador não tem certeza do que aconteceu naquela festa à beira do rio com presença de outros jovens. McKinnon, em entrevista ao Estado, disse que a questão “o que aconteceu?” vai ser abordada de maneira única nos dez episódios finais. Mas seu objetivo nunca foi se fixar nisso. “Desde o começo, o que me inspirou foram histórias reais de pessoas que escaparam do corredor da morte”, afirmou. “Eu me perguntava como deve ser para alguém que viveu em uma caixa por 20 anos sair dela e ser solta na vida. É como se alguém voltasse da morte. Imagine que surreal, estranho, perturbador.” 

O retorno de Daniel causa felicidade, mas também transtornos. Seu pai morreu quando ele estava na prisão. Sua mãe, Janet (J Smith-Cameron), casou de novo, ganhou um enteado, Ted Jr. (Clayne Crawford), e mais um filho, Jared (Jake Austin Walker). Sua irmã, Amantha, que tinha 12 quando Daniel foi condenado, dedicou sua vida à sua libertação. “A série não trata o espectador como se não tivesse inteligência”, disse o ator Aden Young. “Discute como se mede o valor de uma única vida, valiosa para tanta gente. E isso faz com que o espectador reflita sobre o valor da sua própria, e dos outros à sua volta.” É, no fundo, uma história existencial, em que todos os personagens são levados a refletir e a descobrir do que se trata a vida. 

É impossível não se colocar na pele de Daniel e pensar que basta um erro para acabar com a vida de toda uma família. E, mesmo se for culpado, o que é passar 19 anos esperando sua morte, que está nas mãos dos outros. McKinnon diz que a pena de morte e o sistema carcerário dos Estados Unidos são coisas que o preocupam. “Mas são questões complexas, que eu não consigo resolver”, disse. “O que posso fazer é contar a história da experiência de uma pessoa. E por meio dessa pessoa talvez podemos todos nos identificar de maneira universal, e isso vai nos fazer pensar um pouco na nossa condição como seres humanos, inclusive na questão da situação da indústria das prisões.” 

Pode parecer pesado e, em alguns momentos, é. As lágrimas são mais frequentes que as risadas, mas elas existem, também. Apesar de tudo, Daniel não é desprovido de humor, nem de um olhar atento e curioso para as coisas que deixou de ver por 19 anos. Seu tempo é outro. “Foi uma experiência extraordinária poder fazer um personagem capaz de reconhecer a maravilha teatral da existência cotidiana”, disse Young. “E isso me deu perspectiva para encarar o peso do meu dia a dia.” 

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