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RAMON VASCONCELLOS/DIVULGAÇÃO

Mario Teixeira fala sobre a próxima novela das onze, 'Liberdade Liberdade'

Autor dá detalhes do prazer de criar enredo da filha de Tiradentes

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Cristina Padiglione,
O Estado de S. Paulo

20 Março 2016 | 05h00

Contemplado em 2015 no Prêmio da Biblioteca Nacional e no Jabuti pelo livro A Linha Negra (Ed. Scipione), que se passa no contexto da Guerra do Paraguai, Mario Teixeira gosta de lembrar que aprendeu muito mais sobre história nos livros de ficção do que nos livros de história de fato. Agora, ao criar um enredo ficcional sobre a filha de Tiradentes, Joaquina, para Liberdade Liberdade, próxima novela das onze da Globo, não é que tenha “a pretensão” de despertar no telespectador o interesse pela história da Inconfidência Mineira e o Brasil da época. Mas, se isso ocorrer, tanto melhor. Com direção-geral de Vinícius Coimbra, a novela tem Andreia Horta como protagonista e estreia em 11 de abril.

“Espero que desperte o interesse das pessoas para um personagem de quem praticamente não existe registro histórico, que é a Joaquina: 99,9% das pessoas, mesmo quem gosta de história, não sabe nada sobre ela”, conta Mario ao Estado, em entrevista concedida no escritório de seu apartamento, em Higienópolis, São Paulo, onde trabalha. “Só há uma referência a Joaquina nos Autos da Devassa, que são os relatórios do julgamento dos inconfidentes, que falam sobre uma filha bastarda do Tiradentes. Ele nunca reconheceu essa moça.”

 

A partir disso, o autor criou à vontade uma série de personagens e um destino que, reconhece, seria muito pouco provável de ter ocorrido com a personagem real. Representada pela pequena Mel Maia, Joaquina assiste ao enforcamento do pai, vivido por Thiago Lacerda, e é levada da cena de espetáculo público por um aliado de Tiradentes, o fidalgo Raposo (Dalton Vigh). Ao chegar à casa de sua mãe, Antônia (Letícia Sabatella), vai encontrá-la morta. E resolve levar a pequena embora para Portugal, com outro nome, e criá-la naquele país, de onde só retorna quando Napoleão Bonaparte manda invadir o país. Na volta ao Brasil, já no segundo capítulo, Joaquina vem crescida, encarnada por Andreia Horta.

Sabe-se que a mãe de Joaquina de fato se chamava Antonia e era de uma família de Vila Rica, referência para a cidade cenográfica da história, construída no Centro de Produção da Globo, no Rio. A emissora pagou pelos direitos do livro Joaquina, a filha do Tiradentes (Topbooks, de 1987), de Maria José de Queiroz, doutora em letras pela UFMG, no qual a novela é “livremente inspirada”. Mas o trabalho de consulta do autor bebeu também em outras páginas, como o romance O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma, de Stendhal, os livros de Joseph Conrad (A flecha de ouro), de Alexandre Dumas e de Emilio Salgari (O corsário negro). Dos livros de história, cita as pesquisas fundamentais de Kenneth Maxwell (O Livro de Tiradentes e A Devassa da Devassa), os de Laura de Mello e Souza (Desclassificados do Ouro), e Júnia Ferreira Furtado (Homens de negócio). “Relatos de viajantes da época também me foram muito úteis”, conta ele, como Viajantes Estrangeiros no Rio de Janeiro joanino, de Jean Marcel de Carvalho França. E As cartas chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga. Entre os filmes, assistiu a Os duelistas, Rainha Margot, e os de Martine Carol (Caroline Cherie), indicados pelo autor Silvio de Abreu, que chefia o núcleo de dramaturgia da Globo.

 

“A história dela é toda amarrada à história da Inconfidência, o padrinho dela foi um inconfidente e fui descobrir isso muito depois com as minhas pesquisas. Descobri um universo superrico. Eu já era fascinado pela figura do Mão de Luva, que é um bandoleiro que existia na época e vai ser feito pelo Marco Ricca. Eu já tinha pensado em escrever alguma coisa sobre ele, um romance e tal e isso nunca passou de um plano. Agora, com as pesquisas da novela, fui descobrir um mundo superrico, imagina, houve movimentos organizados que lutaram pela independência e que eu, na minha ignorância, nem sabia.”

Liberdade Liberdade é baseada em argumento de Márcia Prates, primeira a sugerir a ideia à direção da Globo, que foi substituída, na feitura da novela, por Mário. O autor, que assinou novela das 7 em 2015 com Alcides Nogueira, foi direto de Paraisópolis para Vila Rica. O resgate da época, de alguma forma, acaba promovendo uma compreensão sobre o Brasil de hoje. “Acho que, se a gente conhece a nossa história, não repete os erros do passado”, diz. Ao voltar para o Brasil, Joaquina encontrará um país oprimido, na condição de colônia, que tem suas riquezas exploradas pela corte portuguesa, o que despertará nela o senso de justiça do pai. “Ela fica indignadíssima com a miséria, a escravidão e começa a se relacionar com os antigos amigos do pai, à revelia do pai de criação, Raposo – ele morre de medo que ela seja descoberta e condenada como traidora, por ser filha de quem é.”
Mario assume as liberdades históricas que lhe cabem como ficcionista. Sabe que Tiradentes ficou preso no Rio por três anos, até ser enforcado, embora a novela o execute logo após a prisão. Nem por isso as referências da época serão desrespeitadas. Entre o texto e a gravação das cenas, uma pesquisadora expert na época filtra todos os termos e veta o que não corresponde àqueles dias – como a palavra “fofoca”, veja só, criada apenas alguns anos depois.

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