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Entrevista. Paulo Betti

Ator vive blogueiro do mal na nova novela das 9

Paulo Betti conta como nasceu seu personagem gay em 'Império'

Cristina Padiglione

17 Agosto 2014 | 03h 00

Caricato? Pode ser. Mas não inverossímil. Téo Pereira, o gay que tem divertido a audiência e seu intérprete na novela das 9 da Globo, típico personagem de si mesmo, existe aos montes por aí. O autor de Império, Aguinaldo Silva, gosta até de dizer que ele é seu alter ego. Aos 61 anos de vida e quase 40 dedicados à arte de interpretar, Paulo Betti dá voz ao seu primeiro homossexual, vestindo justamente o estereótipo da “bicha maldita”. E está surpreso com a repercussão.

Militante político, Betti sabe que paga um preço por se posicionar, mas continua a acreditar que vale a pena. "Abomino atores que fazem baile de debutante pra ganhar uma graninha. Não tem nada a ver com a profissão."

Divulgação
"Todo homem tem uma bicha dentro de si. Tenho que me policiar para não trazer isso para dentro de casa o tempo todo"

Como nasceu Téo Pereira?

Acho que esse papel seria do Wilker. É um personagem maravilhoso. Já olhando os capítulos, eu vi que tinha uma outra bicha chamada Xana (Ailton Graça), que ia ter uma caracterização bem afeminada, com maquiagem, tudo mais, e a bicha enrustida, que é a do Zé Mayer. E o meu personagem, sendo blogueiro, tinha assim, nas falas, 'queeeeeeriiiidaaa' (imita Téo), com diversos ‘es’. Eu disse: ‘não tem jeito, isso é uma bicha que dá pinta’. Uma ou outra pessoa acha caricato.

Mas existem Téos por aí.

Eu acho que existem, e o publicão tem se divertido muito, é impressionante como falam. Sabe o que é? É que no Brasil (risos) tem muito técnico de futebol e todo homem entende como se faz uma bicha. Tem muito entendido na área. Os meus sobrinhos, no Natal, já sabiam que eu ia fazer o papel, contei que seria uma bicha louca, e imediatamente todos eles começaram a fazer a bicha louca, como era o gesto de mãozinha, e começaram a fazer piadas. Mas, no fundo, aquele sou eu. Todo mundo tem uma bicha dentro de si.

Fez pesquisas para virar fofoqueiro malvado?

Fui atrás de fofoca, visitei um blogueiro no Rio, fui ver o comportamento do site do Ego, as coisas que dão mais cliques, como eles dizem, fui ler o livro do Gaiarsa (José Angelo), O Tratado Geral Sobre a Fofoca, que fala da importância da fofoca: 80% do que a gente faz é fofoca. A fofoca é reacionária, é um reflexo do status quo, que quer que tudo fique quadradinho. Você acha que as pessoas se juntam no boteco pra falar do custo de vida? Não, se juntam pra falar mal do outro.

Os trejeitos têm inspiração?

Fiquei pensando: como o Carvana (Hugo) faria esse papel? Como Oscarito faria? Pensei no Raul Cortez em Greta Garbo, quem Diria, acabou no Irajá, no Nestor de Montemar, que fez essa mesma peça, no Jorge Dória e no Carvalhinho na Gaiola das Loucas, no Serginho Mamberti fazendo O Bandido da Luz Vermelha... Pensei também no Marcelo Serrado, como Crô, e no Mateus Solano como Félix. E pensei, é por aí.

Marcelo Serrado ainda passou um tempo com trejeitos do Crô. Isso ocorre com você?

Ah, sem dúvida. É tão fascinante essa relação do universo masculino com esse lado do homossexual! Quantos homens se vestem de mulheres no carnaval? Todo esse tipo de atividade, que é pra botar isso pra fora, fui buscar dentro de mim mesmo. Tenho que me policiar pra não trazer isso o tempo todo pra dentro de casa. 

Ficou surpreso com as reações?

Eu quero contar uma coisa. Tenho 61 anos. Nasci em 1952, quando minha mãe tinha 45.

61? Está bem.

Que bom. Isso talvez seja o botóx capilar que estou fazendo no momento (enviesa a voz, como Téo) junto com a acupuntura facial que faço toda semana, tudo como disfarce para o Téo. Tô aproveitando pra fazer essas viadagens todas.

Isso é brincadeira ou verdade?

É verdade! A composição do personagem inclui um botox capilar semanal. É uma coisa incrível, porque faz com que os fios de cabelo encorpem. Mas, voltando ao assunto anterior, eu fui temporão, minha mãe teve 15 filhos e fui o 15º. Meu irmão mais velho teria 80 anos, se fosse vivo. E recebi um telefonema do filho dele, meu sobrinho, de Votorantim, de 50 anos, e ele é gay. Ele me disse: ‘tio, tô adorando seu personagem, o pessoal aqui tá adorando e estão zoando muito comigo, tô fazendo o maior sucesso. Queria te contar uma coisa: quando eu comecei a demonstrar que era gay, a minha mãe me deu uma surra, me mandou pro terreiro de umbanda, me levou pro médico, mas o seu irmão foi compreensivo comigo, sacou que eu era gay e não se incomodou nem um pouco com isso’. Foi uma revelação! Eu não imaginava que ele tivesse essa cabeça, imagine, 40 anos atrás.

E você nunca soube disso?

Não, veio agora, em função do personagem, fiquei comovido. Ponto pro meu irmão, um homem humilde, que criava porcos em Votorantim, uma cidade industrial. Esse tipo de enfoque das novelas, por mais que provoque alguma rejeição, tem esse aspecto de libertação de atitude, de despertar o direito de a pessoa ver aquilo que ela é.

Você não é isca fácil para sites de fofoca. Acha que tem a ver com a postura política?

Não me lembro de ter sido atacado assim. Fui uma vez atacado pelo CQC (da Band). 

Mas aí era questão política,

Era. 

Você paga um preço por se posicionar. Agora, estando em novela, há restrições para isso?

Não estou em campanha pra ninguém, mas existe uma norma interna de que os atores que estão no ar não devem participar das campanhas. É uma espécie de manual. Estou fora da campanha, mas, evidentemente, tô super informado e torço claramente por um candidato, que é óbvio e fácil de identificar, no meu caso.

Ok, não vou furar seu compromisso, mas pode-se dizer que é coerente com seu passado? Você não mudou de lado, mudou?

Exatamente, não mudei de rumo, por mais que o barco esteja trôpego e balançante, eu continuo nesse barco.

E vale a pena se posicionar?

Eu acho que vale a pena se posicionar, paga-se um preço, evidentemente. Eu abomino os jovens atores que no fim de semana vão fazer baile de debutante pra ganhar uma graninha.Na minha época de baile de debutante, eu fazia campanha política. Tem quem não queira associar isso com política, e tudo bem, desde que se faça da sua atividade uma coisa prioritária. Acho que o ator que quer fazer o seu pé de meia e vai fazer baile de debutante está com um pé na coluna policial. Vira um negócio que não tem a ver com a profissão, tem a ver com outro tipo de profissão.

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