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Novela ‘Meu Pedacinho de Chão’ volta com apenas 20 atores

Luiz Fernando Carvalho fará adaptação de trama dos anos 1970 com apenas cem episódios

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Cristina Padiglione

Uma novela em tom de fábula, com narrativa de HQ, disposta a resistir às armadilhas impostas pelo processo industrial da televisão aberta: essa é a aposta de Luiz Fernando Carvalho para a releitura de Meu Pedacinho de Chão, novela de Benedito Ruy Barbosa que ocupará a faixa das 18 h a partir de 7 de abril, na Globo, e sobre a qual ele fala ao Estado pela primeira vez. Originalmente escrito em 1971/72 e exibido pela Globo e pela TV Cultura, o enredo de 185 capítulos será agora distribuído em apenas 100 episódios, uma pechincha perto do tamanho habitual dos folhetins atuais (que normalmente ultrapassam 150 edições) e somente 20 atores no elenco, número inferior até que muita minissérie.

A releitura de Meu Pedacinho de Chão, antes de mais nada, reedita a feliz parceria de Renascer (1993) e O Rei do Gado (1996), duas das melhores produções que a Globo já exibiu em sua faixa nobre, cujos primeiros capítulos mereceram um raro tratamento cinematográfico para a época. Em Esperança (2002), a dupla também começou junta, mas questões de saúde afastaram o autor de sua obra, prejudicada então justamente pela premência industrial que demanda longos capítulos diários e à qual Carvalho não se acostuma. Assim, o diretor conta 12 anos afastado do gênero.

A disposição em voltar ao folhetim, se é que a nova Meu Pedacinho de Chão pode ser classificada como tal, é obra de Benedito, a quem homenageará com a presença de um galinho de ferro, desses fincados em rosa dos ventos no alto de telhados. Fazendo jus à linguagem de fábula, o bichinho será animado por stop motion e funcionará como "uma espécie de testemunha ocular da história", diz Carvalho, que batizou o animalzinho como Bené, em homenagem ao autor da história.

"A forma do Benedito escrever é muito gostosa de ler, é uma forma oral, como um contador de história, ele usa muito nas rubricas as interjeições –‘hã?’, ‘e agora?’. Esse tipo de subtexto, de reação vai ser todo do galinho", diz. Bené ficará na ponta mais alta do telhado do Coronel Epa, papel de Osmar Prado, o malvado da cena.

Coronel Epa é o protagonista desse microcosmo, como define o diretor, que é Santa Fé, cidade fictícia localizada em lugar nenhum do interior do País. É uma posição que Prado nunca ocupou, a de ator principal, embora mereça "há muito tempo", lembra Carvalho.

Se o lançamento de novos atores é marca na biografia do diretor, que prefere fugir de escalações viciadas da TV, a ideia aqui é endossada pela troca de papéis. "Gosto de mesclar atores consagrados com lançamentos, e eu sempre lanço muita gente, mas, nesse trabalho, como em Renascer ou até mesmo Hoje É Dia de Maria, pego alguns atores consagrados e mudo o registro deles, e coloco esses artistas fazendo papéis que não são tão costumeiros assim. Isso também dá um frescor incrível para aquele ator."

O melhor exemplo disso está na foto que estampa esta página. "Fagundes vem fazendo Fagundes há algumas décadas", lamenta. "Aí você pega o Fagundes e coloca ele num papel que é praticamente um clown, um bufão, um dono de uma mercearia. É um descendente de italiano, mas é um clown. A caracterização, o corpo, as cores, tudo é totalmente diferente e novo pra ele. E para o espectador também vai ser divertido ver o Fagundes, brincar tanto."

Nessa mesma linha, Rodrigo Lombardi também foge da condição de galã. A ele caberá o personagem de Pedro Falcão, sujeito rústico, da terra, um antagonista do Coronel Epa, com valores mais humanistas, E tudo vem com acento caipira, devidamente estudado.

Sotaque. "Como é um elenco misturado, tem gente que já tem isso naturalmente, há tem quem tenha facilidade, mas tem gente que já precisa de uma vara de marmelo", brinca Carvalho. Para trabalhar a prosódia, o acento, termos e valores do universo caipira, o diretor convidou Renata Sofredini, filha de Carlos Alberto Sofredini, de Hoje é Dia de Maria. "Fizemos uma pesquisa da oralidade caipira muito grande. Trabalhamos com ela e ela unificou o elenco todo. Ficou muito bom, porque não é só tirar o ‘r’ cultural e entortar", fala, com acento de interior paulista, "mas é trazer também algumas interjeições e exclamações, que são tão reconhecíveis."

Além de estar localizada em lugar nenhum do interior do País, Santa Fé põe seu Pedacinho de Chão num conceito absolutamente atemporal, o que motiva a diversão de misturar cores, conceitos e figurinos à vontade, sem desprezar a tecnologia de ponta. "Há uma ingenuidade presente, uma delicadeza do olhar infantil, sem ser infantilizada, é uma história lírica e se aproxima muito de uma dramaturgia de conto de fadas, com grandes personagens, com personagens opositores, moral da história, tudo isso. É como se fosse um texto naïf"

Benedito Ruy Barbosa sempre se referiu a Meu Pedacinho de Chão como a primeira novela em que falou de reforma agrária, e o tema estará lá mais uma vez, representado por questões sociais normalmente presente em seus enredos. O foco agora passa por Serelepe, menino órfão, e se estende à abordagem de justiça, divisão e posse da terra, sem perder o tom de conto de fadas que tanto interessa ao diretor. "A forma que o opressor detém a terra, o latifúndio, é tão maniqueísta, tão simbólica, quase como um cartoon, ainda, infelizmente, para os dias de hoje, que me pareceu a forma mais direta, mais forte de passar essa mensagem é através de uma fábula, mostrando que essa figura é para o social um Darth Vader."

‘Não aguento o período em que nada acontece na história’, diz Luiz Fernando Carvalho, diretor

É num galpão, antes abandonado no extenso terreno do Projac, que Luiz Fernando Carvalho vem trabalhando em Meu Pedacinho de Chão e futuras produções da Globo. O espaço dispensa paredes, colocando cenógrafos no mesmo campo de visão de costureiras e atores. Cioso do processo de criação, o diretor justifica os seus princípios de trabalho.

Até testes para a cor da terra a ser usada em cena foram feitos no seu galpão. Tudo é criado ali?

Nessas duas últimas décadas de trabalho, sempre montei um processo de criação bastante colaborativo com meus departamentos, com cenógrafos, figurinistas, atores, e sempre precisei de um espaço que fosse de criação, onde todas essas pessoas trabalham juntas, do conceito à realização. Isso cria um outro envolvimento. Eu trabalho ao lado de uma costureira, não tenho a minha sala. Todo mundo sabe de tudo ao mesmo tempo. Não é um espaço hierárquico. Os atores fazem leitura ao lado da costureira, a costureira ouve uma música que nunca ouviu antes, ao mesmo tempo, ela está fazendo um bordado que eu nunca tinha visto.

Como manter o ritmo artesanal depois que a novela está no ar, demandando ritmo industrial?

Acho que isso é sempre uma sombra que ronda, mas eu aceitei fazer essa novela, primeiro porque se trata de um texto do Benedito Ruy Barbosa, que é um autor que significa muito pra mim, tanto do ponto de vista afetivo, como do ponto de vista profissional. Foi através das novelas do Benedito que eu fui exercitando o meu olhar na televisão. Depois, eu não sou um noveleiro. Qualquer jovem diretor da TV Globo, de 20 e poucos anos, já dirigiu cinco novelas mais que eu. Não me acostumo com esse período em que parece que nada acontece na história, quando a produção afrouxa um pouco o seu rigor artístico, isso me incomoda muito.

Há como combater esse mal?

Essa novela é completamente atípica. Não posso chamar de novela algo que tem 100 episódios, só 20 personagens e é atemporal. A tudo isso se junta o fato de a novela ser uma fábula. Isso faz com que a produção possa ser gerada a partir do olhar artístico. Não preciso montar e desmontar estúdios enlouquecidamente, cenários para 300 personagens, fazer 300 roupas, não tenho seis frentes de gravações, essa industrialização, no mau sentido do termo, é possível controlar.

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