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No adeus, David Letterman recebe homenagens

Bill Clinton, George W. Bush e o atual presidente dos EUA, Barack Obama, participaram do último programa

Lucia Guimarães/NOVA YORK, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2015 | 06h00

O lugar de estadista do entretenimento noturno que David Letterman ocupava e deixou vago a partir da noite de quarta-feira foi bem ilustrado pela abertura do programa de despedida. Num sombrio discurso de agosto de 1974, Gerald Ford diz: “Nosso longo pesadelo nacional acabou”. Em seguida, três ex-presidentes vivos, Bill Clinton, George W. e George H. Bush, repetiram a frase, fingindo seriedade, assim como Barack Obama, que completou: “Dave está se aposentando.” Letterman se aproximou dele e disse: “está brincando, certo?” E fez uma cara de medo diante da frieza enfastiada do atual presidente.

Boa parte da audiência que a TV aberta vem perdendo, a geração que não mais associa TV a uma peça da mobília, pode ter rido da piada sem conhecer a origem da frase. O pesadelo nacional era o escândalo Watergate e ela foi dita por Ford ao tomar posse com a renúncia de Richard Nixon.

O programa final (que será exibido hoje, às 22h, na Record News) acomodou de maneira bem dosada a emoção que tomou os convidados de Letterman nas últimas semanas e o humor autodepreciativo do anfitrião. “Parece que eu não consegui o Tonight Show,” disse ele no monólogo, referência ao programa da NBC hoje sob o comando do imensamente popular Jimmy Fallon. Em 1993, quando o lendário Johnny Carson, mentor e ídolo de Letterman, se despediu, ele foi rejeitado para o posto pelo sensaborão Jay Leno, num episódio traumático que o levou a pular para a CBS em 1993.

Letterman perdeu a batalha de audiência com o rival Leno, mas só decidiu parar porque entendeu, aos 68 anos, que o formato de fim de noite está privilegiando mais juventude histriônica e menos ironia reflexiva. Seu substituto a partir de setembro, o inteligente performer Stephen Colbert, deve destoar do puxa-saquismo que tem prevalecido no fim de noite.

O programa, que bateu recorde de audiência (foi visto por 13,7 milhões de pessoas), teve montagens com grandes momentos ao longo de 33 anos do Late Show. A famosa lista Top Ten de “Coisas que sempre quis dizer a Dave” foi lida por dez celebridades. O host de talk show que mais ridicularizou a fama pela fama esteve rodeado de amigos. De Bill Murray, que esteve com ele desde o primeiro programa, em 1982, a Jerry Seinfeld, passando por Tina Fey (“Obrigada por finalmente provar que os homens podem ser engraçados”) e Chris Rock (“Fico contente de ver seu show passar para outro homem branco”), cada elocução confirmava o papel único de Letterman, cujo programa mudou a comédia, mas cujo estilo pessoal não pode ser imitado.

A nostalgia reflete mais do que o afeto genuíno que famosos e público sentem por ele. É um ritual de passagem ao qual ele se referiu, entre brincalhão e sarcástico: “Sabem a que vou dedicar o resto da minha vida? À mídia social.”

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