Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Marcos Palmeira retoma parceria com Benedito Ruy Barbosa

Televisão

MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

Marcos Palmeira retoma parceria com Benedito Ruy Barbosa

Ator encarna personagem bruto, um matador, em 'Velho Chico', novela da Globo que estreia amanhã

0

Cristina Padiglione,
O Estado de S. Paulo

13 Março 2016 | 05h00

A simples associação entre Benedito Ruy Barbosa e Marcos Palmeira remete a cheiro de mato, aroma que a Globo há de exalar na novela das 9 pelos próximos seis meses, no mínimo. Velho Chico chega ao horário nesta segunda-feira, 14, com a maestria da linguagem visual de Luiz Fernando Carvalho e a disposição em dar um respiro ao telespectador. 
É hora de fazer uma pausa dos cenários urbanos contemporâneos, abarrotados de conchavos que mais parecem extensão do Jornal Nacional – e um Jornal Nacional em dias de escândalos em série. 
“A gente viu que a saída da novela urbana era uma necessidade, ainda mais pela situação do País”, admitiu o diretor-geral da Globo, Carlos Henrique Schroder, ao Estado. Foi assim que Velho Chico inicialmente planejada para as 6 da tarde, convenientemente ficou com a vaga que seria de mais uma novela urbana, com personagem político, adiada para não sofrer restrições em ano de eleições. E, depois de duas novelas com favela, corrupção, polícia e facção, epílogo de um período de 13 anos sem Benedito, a novela das 9 ganha cenário, ângulos, cores e rostos inéditos, à beira do rio São Francisco, dito Velho Chico.
Inédita também é a condição de “Marquinhos” Palmeira (como é tratado entre amigos) como cabra ruim em novela de Benedito. Cícero, personagem que aguarda por ele na terceira fase da história – a partir do capítulo 18 – é capaz de matar por amor a Tereza, vivida por Camila Pitanga nessa etapa. Mas não só. Em breve definição do diretor Luiz Fernando, ele há de se tornar um matador de fato, por causas diversas.

Silencioso, matuto, introspectivo (perdão por tantos adjetivos), o sujeito é perigoso, antagonista das outras criaturas de Benedito por ele encarnadas – o ingênuo Tadeu, personagem que lhe deu crédito para virar protagonista, em Pantanal (1990), na TV Manchete, e o dedicado filho de Zé Inocêncio (Antonio Fagundes) em Renascer (1993) também dirigida por Luiz Fernando. “Estou muito feliz de estar de novo com eles”, diz o ator ao Estado. “Ele é maravilhoso”, reage Benedito, no encontro entre os dois durante a festa de lançamento da novela, no Museu do Amanhã, no Rio.

Marquinhos é meu amigo, é meu ator. É um dos primeiros que eu coloco na minha lista de elenco”, endossa Benedito. “Ele e o Fagundes”, completa. Em Pantanal, novela que inaugurou essa amizade, Marquinhos chegou a pedir ao diretor Jayme Monjardim que lhe deixasse fazer um teste para ser o filho bastardo de Zé Leôncio (Cláudio Marzo). Ainda duvidavam de sua verve para um personagem caipira. “Eu soube do teste e me ofereci. Era muito garotão, diziam que eu tinha sotaque carioca.” Em poucos capítulos no ar, já perguntavam onde haviam encontrado aquele ator pantaneiro tão bom.
A resposta talvez esteja no fato de que a preparação do ator antecede qualquer exercício cênico técnico. Marcos, afinal, tem lá o seu sítio, onde planta alimentos orgânicos, traz nos pés o odor do campo, tendo morado e trabalhado em comunidade indígena e no interior da Bahia. Sobre Cícero, diz que é um “personagem extremamente passional, totalmente bronco, perigoso”. “É um cara capaz de matar por amor. Trabalhar nesse limite, para mim, é uma coisa nova. Ele não é um cara bonzinho, um cara correto, é um cara atordoado, de uma fragilidade emocional enorme, não tem inteligência emocional nenhuma.”
“Em Pantanal, ele era o coitadinho rejeitado, mas de bom coração. Esse não, esse é dúbio, ele é muito no silêncio, vamos construir juntos. Eu mergulho literalmente no escuro, confiando plenamente no que vai vir por aí.” O ator acredita que a mudança de Velho Chico, de novela das 6 para novela das 9, reanimou Benedito, que na última década esteve se recuperando de um AVC.
“O Schroder me chamou e perguntou o que eu achava de fazer a novela para as 21h”, conta Benedito. “Eu disse: ‘Tudo bem, mas a minha filha (Edmara Barbosa, com quem trabalha há anos) e o meu neto (Bruno) é que vão escrever’. Eu não aguento, vou só supervisionar.” Mas, perto de completar 86 anos, ele não aguentou ficar muito distante do expediente e vem acompanhando fielmente a leitura de cada capítulo, agora sem tanta interferência no trabalho dos herdeiros, promete.
Velho Chico segue a linha de épico, com a saga de duas famílias – uma pobre e outra rica, à beira do rio São Francisco. Esqueça o ritmo quase seriado de A Regra do Jogo, que até nominava cada capítulo, como se fosse episódio de série. A história que vem aí é novelão na veia. A discussão sobre a polêmica transposição do rio pode até surgir, aqui e ali, lá na frente, mas nem há previsão de ser mencionada, por enquanto. Muito vai se falar, sim, na destruição daquele Velho Chico. Quando começou a pensar em transformar esse cenário em novela, ainda no início da década de 1970, Benedito conta ter conhecido um rio bem mais digno de holofotes. 
"A gente tem uma coisa importante na novela, que é o uso da terra e o uso da água”, adverte Edmara, filha de Benedito e coautora da trama. “Existe uma crise e a gente está tratando de temas que trazem isso para o centro da novela. Estamos discutindo a maneira de irrigar o solo, a responsabilidade não só sobre a sustentabilidade agrária e ambiental, mas sobre a sustentabilidade social, como integrar as pessoas, como ensinar, como educar, a gente está procurando trazer um pouco não só das histórias de amor e os conflitos, mas das ações que estão sendo feitas e dando certo, de reflorestamento, por exemplo”, diz Edmara.
Na linha de frente, no entanto, o que prevalece é romance mesmo, como convém a um bom folhetim, com pares que vão de Rodrigo Santoro e Carol Castro a Antônio Fagundes e Christiane Torloni no eixo central da saga. A história começa a ser contada pelo coronelismo clássico do Nordeste, de tempos arcaicos, por meio de Tarcísio Meira, par de Selma Egrei, a matriarca que se faz presente nas três fases. Podemos esperar por Chico Diaz, Domingos Montaigner, Dira Paes, Fabiula Nascimento, Marcelo Serrado e uma série de novos atores, como bem cabe ao histórico do diretor Luiz Fernando, que gosta de garimpar novas faces pelo País. Dessa vez, foi encontrar gente in loco, entre Bahia, Alagoas, Pernambuco e Ceará.
Luiz Fernando, diz Benedito, é um diretor capaz de descobrir elementos no texto que nem o próprio autor havia notado. “Sempre me surpreendo vendo o que ele faz com meu texto. Ele só melhora o que tem no papel”, diz Benedito. A recíproca é verdadeira: “Tenho 30 anos de TV e se eu tiver que apontar alguém com quem aprendi, esse alguém é o Benedito. Sempre tive uma reação ao texto dele, sempre me deu abertura para eu demonstrar que me afetei com o texto dele. Influencio no texto como ele influencia no meu trabalho”, afirma o diretor, invariavelmente citado pelos atores como alguém com quem adoram trabalhar. Luiz Fernando é assertivo na preparação do elenco. Mistura musica, figurino, cenografia e interpretação em um galpão no Projac, para buscar a interação entre todos os braços da produção. A julgar pelas chamadas que estão no ar, o modo artesanal de fazer indústria tem grande efeito.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.