Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Marcado pelos papéis de bom moço, Tony Ramos faz sucesso como o vilão Zé Maria

Ator vive bom momento na novela das 9, 'A Regra do Jogo'

Entrevista com

Tony Ramos

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

20 Outubro 2015 | 06h00

Não se deixe levar pelo bom-mocismo de muitos personagens que marcaram a carreira de Tony Ramos. Ao longo de 51 anos de carreira de TV, além de cinema e teatro, o ator de 67 anos colecionou também papéis cheios de nuances, sejam com personalidades não totalmente más, mas com desvios de caráter, sejam esculpidos pela mais pura vilania. Em 1998, Tony já havia chocado a audiência na pele de Clementino, que matava a mulher e o amante com uma pá de obra em punho na novela Torre de Babel, de Silvio de Abreu. Agora, Tony volta a causar arrepios no público com Zé Maria, o maior vilão de sua trajetória, na novela das 9, A Regra do Jogo, de João Emanuel Carneiro.

No início da novela, Zé Maria até enganou - propositalmente - por algum tempo como um trabalhador esforçado, marido zeloso de Djanira (Cássia Kiss) e pai amoroso de Juliano (Cauã Reymond), o que fazia dele um homem acima de qualquer suspeita e, portanto, acusado injustamente de criminoso. Mas a farsa do personagem não se sustentou e ele se revelou para o público um assassino, membro de uma facção e participante de uma chacina. 

“O mais importante para mim era apenas ter uma noção científica de como funciona essa cabeça de quem tem uma família, quer preservá-la, mas que, ao mesmo tempo, enlouquecidamente quer acabar com o Romero (Alexandre Nero). Mata e, ‘próximo tópico, o que vamos discutir?, com uma frieza de um executivo fazendo negócio”, descreve Tony, que diz não ter se inspirado em nenhum personagem da literatura ou do cinema. 

Sobre o real caráter de Zé Maria, a dúvida plantada pelo texto de João Emanuel logo ali no início precisava de um talento como o de Tony Ramos, que trabalhasse em camadas na atuação - e que sustentasse até as últimas consequências a imagem de um pobre injustiçado como máscara de uma mente insana e criminosa. 

No último sábado, Zé Maria participou de um jogo de cena em que a mulher Djanira foi morta com um tiro no peito. Com vários personagens no recinto, entre mocinhos e bandidos, o próprio Zé Maria é um dos suspeitos - será que quem mata pode mesmo amar, como seu personagem já disse num diálogo revelador com o rival Romero? Numa atmosfera, digamos, mais amena, Tony pode ser visto também à tarde, na reprise de Caminho das Índias (2009), sucesso de Gloria Perez, em que vive o religioso Opash - que, segundo o próprio ator, entrou para seu rol de papéis especiais. 

O ator Tony Ramos fala sobre seu personagem Zé Maria, carreira e audiência em entrevista ao Estado por telefone, de sua casa, no Rio, numa manhã, antes de ele encarar mais um dia de maratona de gravações da novela das 9, A Regra do Jogo. 

Zé Maria é o maior vilão no seu rol de personagens?

Isso sem dúvida. Sempre fiz tipos mais românticos, mais heroicos, pelo menos na memória popular. Mas fiz tipos que eram de uma vilania torta, aquele homem que usava de subterfúgios para conseguir subir a escala social. Isso fiz, por exemplo, na segunda versão da novela Selva de Pedra (1986), em que ele se utilizava de uma mulher muito rica. Vou buscar em Rainha da Sucata (90), com Regina Duarte, um quatrocentão falido que fingia amor por uma mulher muito rica que era emergente, e ele se utilizava daquele amor que ela tinha por ele como maneira de manter o status quo da família. Você vai pegar um homem absolutamente enlouquecido, em fúria, porque ele surpreende a mulher em atos libidinosos, com dois homens ao mesmo tempo, em Torre de Babel (98). Ali, ele mata a mulher. Provocamos um susto no Brasil, porque ele a matava com uma pá. Ele é preso em flagrante, fica 20 anos no Carandiru. Acho que a experimentação junto ao público, de alguma forma, leva ele a entender a trajetória de um artista. É o que digo sempre nas palestras que faço - sou convidado a muitas e, quando posso, faço de bom grado, em universidades, em lugares que preparam alunos para o futuro. Digo: qualquer profissional tem de procurar crescer na sua experimentação, e assim é comigo. 

E como você vê a reação do público a esse papel? 

Você teria de andar anonimamente comigo, não adianta eu falar, parece que estou sendo corporativista. Eu parando meu carro - isso foi uma delicia que aconteceu comigo - para reabastecer, todos os frentistas, os carros que estavam parados, todos vieram pedir educadamente para tirar foto comigo. E os frentistas dizendo: ‘ô, esse rapaz é maluco, hein’. Então, quando você ouve o povo dizer isso, você diz: ‘opa, chegou lá’. Em dezembro do ano passado, quando o João (Emanuel Carneiro, autor) e a Amora (Mautner, diretora) jantaram comigo, começaram a falar o que pretendiam fazer. 

Mas, para o espectador, no começo, ficava a dúvida se Zé Maria era vilão ou um fugitivo tentando provar a inocência. Então, esse vilão já era desenhado desde a época do convite?

Eu sabia desde dezembro. O João me contou: esse é um homem que tenta provar sua inocência perante seu filho. Porque, na verdade, o grande amor da vida dele é o filho. Ele não quer, em nenhum momento, que esse rapaz se torne um bandido como ele é. É um sentimento contraditório de um assassino frio. Aí, li muito, ele me deu alguns trabalhos, o departamento de pesquisa nosso mostrou algumas coisas, pesquisas mundiais sobre como funciona a cabeça de certos psicopatas. Tem uma série deles. Tem aquele que fica na dualidade entre o “profissionalismo” do assassinato, do crime, e uma defesa dos entes mais queridos dele. Claro que é um homem perigosíssimo, doente. O Zé Maria era um trabalhador, até que ele começou a servir ao crime. Essa parte ainda não está explicada e é para o final da novela. 

Vocês estão recebendo os capítulos aos poucos.

Claro, e faz bem. Recebi até capítulo 54 (na semana passada), não sei o que vai rolar depois. O que gosto na obra aberta é justamente isso. Por ser longa e aberta a surpresas. Por isso que é bom para o ator - estou falando por mim - receber em blocos (são 6 capítulos por semana que recebemos), ser surpreendido, como o próprio público será surpreendido. Vem a pergunta que faço para minha diretora: será que um dia o filho vai descobrir a verdade sobre o pai? E eles guardam isso a sete chaves. A novela começou de uma maneira até muito sofisticada, com a história sendo contada do fim para o meio, voltava ao fim, para retomar o começo. Isso causou uma dúvida e o João é muito humilde reconhecendo isso: pode ter causado dúvidas no espectador. O público tem de saber que o primeiro mês já está escrito, não se volta atrás. A partir do segundo mês, você pode mexer. Mexem-se as peças de uma maneira muito natural e não é a primeira novela em que participo disso. Em Torre de Babel, o Clementino assustou o público. ‘Ah, mudaram’. Ele mudou porque já estava na história: Clementino só terá uma única salvação, o encontro de um grande amor.

Perguntaram se você tinha medo de rejeição desse personagem e você respondeu que não tem mais idade para isso...

Todos temos de ter respeito ao próximo. Agora, não posso, em nenhum momento, ficar me ligando em opiniões divididas. Quando eu disse que não tenho mais idade para isso, é que não tenho de ficar olhando tudo isso. Quando você me pergunta sobre Twitter, seguir alguém, não tenho isso na minha vida. Não tenho Facebook, Instagram, estou livre dessas dependências todas.

E por que você não tem?

Porque não tenho a menor curiosidade de saber da vida dos outros. A internet foi feita, para mim, para pesquisa, adoro ver coisas de turismo. E vivo muito bem com isso. Ainda sou de um bom livro, de jornais na minha mão. Me guio pelo respeito ao espectador. Faço o melhor possível, trabalho uma média de 11 horas por dia. Não tenho problemas com opiniões contrárias. Quando fiz propaganda de carne, diziam: ‘não esperava isso de você’. Mas por que não? Comercial de remédio podia, de bebida alcoólica podia? Não faço propaganda disso. Conduzo minha carreira de uma maneira muito transparente. 

Nos últimos tempos, as novelas das 9 têm tido uma queda de audiência que não está conseguindo recuperar...

No Painel Nacional de Televisão (PNT), você vê as novelas... Por exemplo, Império veio com uma média final de 38 (pontos), Amor à Vida, com média final de 46. O que se vive é um novo momento em que se espalha audiência, nas multiplataformas. Sei aonde vocês querem chegar: ‘perdeu audiência, fracassou?’. Não é um fracasso uma novela que está com média de 26. Se você pegar os 20 programas com mais audiência na TV, qual é o primeiro? A novela das 9 da Globo, é simples assim. 

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