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Manuela Dias, criadora de 'Ligações Perigosas', escreve carta fictícia para autor do livro

Ela é especialista em grego arcaico e tragédias clássicas

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Ubiratan Brasil,
O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2016 | 03h00

Apontada como uma das grandes apostas na dramaturgia da Globo, Manuela Dias é responsável pela nova versão do clássico Ligações Perigosas, transformada em minissérie. Especialista em grego arcaico e tragédias clássicas, ela transpôs a história de Choderlos de Laclos do século 18 para o Brasil dos anos 1920.

“Ah, senhor Choderlos, que imenso prazer tive na tarefa de ler, estudar e adaptar seu livro para esta minissérie de dez capítulos”, comenta Manuela em uma fictícia carta escrita para o autor francês. “Mergulhar na livre intimidade da Marquesa de Merteuil e do sedutor Valmont; na curiosidade aventureira da jovem Cécile e do ingênuo Felipe; conhecer a pureza infeliz da Presidenta de Tourvel, a amargura da Sra. de Volanges e a generosidade satisfeita pela vida da Sra. de Rosemonde.”

Na correspondência, a autora brasileira conta como preparou sua versão da obra original. “A leitura das 175 cartas que compõem este romance me convidou a visitar esconderijos do ser humano, ampliando minha experiência no convívio com os outros e comigo mesma. Não que tenha me levado a julgar qualquer pessoa com mais rigor, longe disso, mas sim a refletir com fascínio sobre os subterfúgios que somos todos capazes de criar.”

A decisão de transpor a ação para os anos 1920 é porque se trata de um momento de ruptura social no Brasil, com um início da liberação da mulher.

“Talvez uma história de folhetim não seja o suficiente para nos fazer evoluir, mas se fizer com que nos conheçamos melhor já pode ser uma boa parte do caminho. Por isso, me esforcei para manter a complexidade dos personagens e oferecer aos espectadores o mesmo mergulho corajoso que o romance provoca”, escreve Manuela. “O ser humano, é preciso dizer, não mudou muito nesses dois séculos. Seguimos ambiciosos e mesquinhos. Nossos prazeres e desejos continuam a escavar trajetos subterrâneos no caráter. E o amor, senhor Choderlos, segue sendo o maior abismo no qual podemos cair, sentindo a delícia do vento bater nos cabelos durante a queda.”

Outro desafio enfrentado pela autora foi criar uma distância da famosa versão de Ligações Perigosas para o cinema, dirigida por Stephen Frears em 1988 e estrelada por John Malkovich e Glenn Close. “Imagine o senhor que já se vão mais de 11 adaptações do seu livro para teatro e cinema”, continua Manuela, em sua carta ficcional.

Ligações Perigosas é o primeiro trabalho assinado sozinho por Manuela, que colaborou nos textos do seriado A Grande Família, em 2012, além de participar das novelas Cordel Encantado (2011) e Joia Rara (2013). A trama de sedução é interpretada por um elenco afiado, formado por Patricia Pillar, Selton Mello, Leopoldo Pacheco, Jesuíta Barbosa, Marjorie Estiano e Alice Wegmann.

Além dos cursos ministrados dentro da Globo, Manuela Dias teve o privilégio de participar de um curso de escrita dado pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez, na Escola de Cinema de Cuba. Durante um mês, ela compartilhou um divertido aprendizado com outros oito alunos.

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