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Maeve Jinkingscelebra o 'nascimento' de Domingas em 'A Regra do Jogo'

Atriz fala sobre a dificuldade de entrar no universo da oprimida personagem, vítima de violência doméstica

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Cristina Padiglione,
O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2016 | 04h00

Um simples “olá” de Maeve Jinkings, a Domingas na novela A Regra do Jogo, denuncia que aquela mulher tão castigada pelo marido, vivida por ela na ficção, só pode ser obra de atriz. Com altivez e autoconfiança, figurino florido, cachos bem acomodados, Maeve em nada remete à imagem de “pacotinho”, como Juca, personagem de Osvaldo Mil, chamava Domingas. Entre um café e uma água, ela nos recebe na sala reservada aos atores nas cercanias do Morro da Macaca, a favela do enredo de João Emanuel Carneiro, no Projac. A essa altura, perto do fim da história, sua personagem está, digamos, curada. Numa espécie de merchandising social da Lei Maria da Penha, Domingas terminará a novela vingando as telespectadoras que abasteceram a audiência, na torcida por sua recuperação – ou renascimento.
“Após uma relação abusiva, que deforma a autoimagem de uma pessoa, o processo de retomar a autoestima é lento e doloroso”, conta a atriz, que entrevistou mulheres vítimas de violência doméstica e do Mada – Mulheres que Amam Demais. “Uma das mulheres entrevistadas me disse que, mesmo após um ano de separação, trabalhando e livre desse homem, ela ainda não conseguia se ver como mulher, merecedora de atenção e afeto. Ficou numa relação doente por 27 anos! Por mais que tenha ajuda externa, o processo é solitário. Por isso, esse processo de desabrochar da Domingas após a separação de César (Carmo Dalla Vecchia) me parece simbolicamente tão importante. É a morte de uma mulher e o nascimento de outra, num novo contexto de vida.”
Formada pela EAD – Escola de Artes Dramáticas da USP – com passagem pelo CPT, o Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, Maeve já fez mais dez filmes – um deles, Aquarius, de Kléber Mendonça, com Sonia Braga, ainda inédito. Tem ainda seis curtas nas costas, dez peças teatrais e pelo menos sete prêmios. Com todo esse currículo, gera espanto saber que A Regra do Jogo é sua primeira novela. Daí a dificuldade em captar uma personagem que lhe é apresentada em pedaços, capítulo por capítulo, ao contrário do que acontece no cinema e no teatro. Não foi fácil.
Maeve desembarcou no Projac pelas mãos da própria diretora-geral de A Regra do Jogo, Amora Mautner e do autor, João Emanuel, que viram o filme O Som ao Redor, também de Kleber Mendonça, e a chamaram para o teste de Domingas.
O que eu sabia, antes de começar a gravar, é que era uma personagem que vivia uma relação abusiva. E que ia haver um momento de redenção dessa mulher, que, de alguma maneira, o João Emanuel encontrou para vingar, não só as mulheres violentadas psicologicamente, como subestimadas. Isso me animou muito. Ele falou também que era uma personagem que poderia crescer, e que viria um homem sem memória, que seria um tipo de príncipe na vida dela. Mas senti que muita coisa foi ganhando espaço porque teve ibope, grande aceitação.”
No início, Maeve sentiu, na reação das pessoas nas ruas, “uma mistura de compaixão e indignação”. “As pessoas ficavam realmente incomodadas. Era muito comum me darem uma bronca e depois me darem um abraço.” Não sabe ainda se César, que, neste momento da novela, tenta restabelecer sua vida ao lado da mulher, voltará para Domingas. Mas a atriz nem pensa nisso. Para os próximos capítulos, celebra o fato de sua personagem inaugurar um restaurante na Macaca e cumprir, por conta própria, o processo de renascimento do qual fala.
Dona de um comportamento que suas irmãs definem como “brava”, Maeve, nascida em Brasília, 39 anos feitos, lembra-se que ficou com raiva de Domingas no início. Faltou-lhe fragilidade para entrar no universo daquela pobre coitada. Foi a diretora Joana Jabace quem a alertou sobre o equívoco: “Não, pelo amor de Deus! Ela não é assim”. Por várias vezes, pediu que Osvaldo, o Juca, “um amor de pessoa”, se afastasse dela antes das gravações. “Preciso ter medo, raiva de você”, dizia-lhe. A certa altura, para aumentar a comoção de Domingas em cena, pediu que ele apenas mostrasse a cara na porta do set. Funcionou.
No exercício de buscar algo em comum com a personagem, mergulhou em livros – um deles, Assédio Moral, foi indicado por Cássia Kis “e foi fundamental para entender a perversidade nas relações”. E chegou ao conceito que, desde sempre, coloca a mulher como culpada em qualquer situação, encontrando na memória afetiva uma forte lembrança da infância. “Eu me lembro de um primo meu que agrediu uma prima, era uma briga de crianças, e ele era uma espécie de primogênito, e ela era mais nova que ele. E me impressionou muito o fato de os adultos, depois, virem perguntar: ‘o que vocês fizeram para ele?’. Fiquei buscando em que célula mínima eu compreendo esse lugar. Mas cresci numa família com mulheres fortes, para mim, foi difícil entrar nisso.”
Agora, renascida sua Domingas, pode reparar, até a voz se alterou e não é exagero observar como ela se mostra mais alta, espichada, em cena. Coisa de atriz.

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