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Jornalista decide sair da rotina e passa um mês tentando imitar Shonda Rhimes

- Atualizado: 01 Fevereiro 2016 | 04h 00

Leia o relato do humorista e repórter do 'The New York Times' Henry Alford

Até o dia de Ação de Graças de 2013, Shonda Rhimes, criadora de Grey’s Anatomy e Scandal e produtora executiva de How to Get Away With Murder, vivia numa rotina, mas, durante o almoço, a irmã lhe disse: “Você nunca diz ‘sim’”. Isso levou essa viciada em trabalho de 43 anos, mãe solteira de três filhos e cujo medo do palco a fez recusar muitos pedidos de aparições públicas, a passar um ano dizendo sim a novas oportunidades. 

No fim de seu livro de memórias, Year of Yes: How to Dance It Out, Stand in the Sun and Be Your Own Person (O Ano do Sim: como passar por ele com simplicidade, assumir seu poder e ser você mesma), Shonda havia perdido mais de 45 kg, feito um discurso em Dartmouth, aparecido no Jimmy Kimmel Live e parado de trabalhar nos fins de semana.

Shonda Rhimes
Shonda Rhimes
Como disse a um amigo, eu estava ansioso por “um pouco do elemento Shonda na minha vida” e, recentemente, passei um mês tentando imitá-la. Comecei fazendo uma lista das atividades às quais aspirava, mas, como diz Year of Yes, isso causa medo ou nos tira da zona de conforto. Eu me perguntei então: será que, como a personagem Cristina Yang em Grey’s Anatomy, vou aprender a pôr tudo para fora por intermédio da dança ou, como a heroína de Scandal, Olivia Pope, vou aprender a “assumir meu poder”?

Dois itens da minha lista eram desafios físicos; tinha razão para temê-los. Para minha dor no ombro, queria tentar uma mesa de inversão. Paguei US$ 60 para passar 20 minutos deitado no que parecia ser a tábua de passar mais elaborada do mundo e virar de cabeça para baixo, para, sem supervisão nem alças ou cinto, ficar pendurado pelos pés por 90 segundos. No dia seguinte, meus ombros pareciam os mesmos, mas as pernas ardiam como um lago de fogo. Será que repetiria a dose? Como diria Shonda: “Amiga, por favor”.

Foi igualmente perturbador para meu pobre corpo, mas mais divertido, assistir a uma aula de butô com minha amiga Camilla. Uma forma de dança agitada que surgiu do Japão do pós-guerra, o butô faz você concentrar todo seu peso em uma parte do corpo para que o resto dele possa se mexer. Adorei o exercício em que fingimos não ter rosto, mas, no dia seguinte: lago de fogo n.º 2.

Não deve ser surpresa eu ter gostado de fingir que não tinha rosto, já que a maior parte da minha lista do “Sim” tinha a ver com ansiedades em relação às outras pessoas, particularmente as conhecidas. Primeiro, quis jantar sozinho em um restaurante onde havia uma grande possibilidade de encontrar pessoas conhecidas. Na trattoria Via Carota, me disseram que teria que esperar 45 minutos por uma mesa ou ficar em uma pequenininha na chapelaria da entrada. Segundos depois, estava sentado sozinho debaixo de um monte de sobretudos pendurados em uma parede que era vigiada por 10 ou mais pessoas que esperavam por mesas. Mas jantar sozinho é “estiloso”, como Shonda diria.

Conforme prosseguia o projeto do “Sim”, às vezes pensava que a abordagem de Shonda era mais adequada para os inseguros e prossegui desafiando o medo. Houve algum “Sim” que não consegui completar? Claro. No geral, foram os desafios que vieram de fora, não os que me impus. Ao sair para trabalhar um dia, eu queria, mas não me despedi do meu namorado com um beijo na frente dos trabalhadores que consertavam nossas janelas. Percebi que qualquer embaraço social que isso gerasse recairia sobre Greg e não sobre mim, e não seria justo. Quando Greg e eu encontramos dois amigos para jantar, vi o editor-chefe de uma revista para a qual eu havia escrito e resolvi que queria falar com ele, mas isso incomodaria as pessoas da minha mesa e o editor.

Então, as possibilidades que me foram jogadas pelo destino, e não as que me impus, estavam ligadas às minhas realizações mais queridas e complicadas. 

No dia de Ação de Graças, Greg e eu fomos para Connecticut, para a casa do meu irmão Fred. Após a refeição, meu irmão, obcecado por música, me deu um violão e me encorajou a tocar e cantar na frente dos outros convidados. E, de repente, Fred e eu cantávamos What’ll I Do, de Irving Berlin. Havia me esquecido de como é bom falar com meu irmão em sua língua franca. 

No fim, fiquei feliz com os resultados. A dor física da mesa de inversão e do butô sumiu rapidinho, me reaproximei do meu irmão e fiz um amigo. (Camilla e eu engatamos conversa com um colega de butô, com quem desde então saio para jantar.) No geral, tudo estiloso.

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